Paulo Eugenio de Oliveira, 63 anos, administrador de empresa

A origem

Meus pais eram de Santos, meu pai era médico endocrinologista e também se chamava Paulo. Minha mãe se chamava Evangelina e era apaixonada pelo meu pai.

Marisa Feriancic

 

Nossa família é numerosa, somos em nove irmãos, todos casados. São cinco mulheres e quatro homens, eu sou o mais velho. Meu irmão mais novo tem 42 anos e vai ser pai em agosto. Tivemos uma boa criação. Nossos pais nos deram boas condições de vida e de estudos.

Meu pai faleceu em 2000, com 92 anos. Minha mãe faleceu dois anos depois.

Eu era o mais velhos dos homens. Fui educado para dividir e esse fato deve ter influenciado minha formação. Tenho uma disponibilidade muito grande em ajudar as pessoas. Diria que sou coração mole, mas a verdade é que sinto prazer em ajudar. Só que às vezes isso se torna um problema, fico muito disponível para os outros e esqueço das minhas necessidades.

Morei em Santos até 1961. Estudei no Colégio Santista e depois fiz o científico no Colégio Canadá. Meus pais continuaram morando em Santos, eu vim para São Paulo para continuar os estudos.

Em 1962 entrei na Escola de Administração, da Fundação Getulio Vargas. Nessa época só estudava. Em 1966 terminei a faculdade e voltei para Santos. Em 1968 me casei e em 1969 nasceu meu primeiro filho, logo depois que o homem foi à lua.

Em 1977 comecei a trabalhar e em 1979 mudei-me definitivamente para São Paulo.

A minha mulher e eu somos os filhos mais velhos, nós tínhamos um padrão de educação severo. Acredito que fomos mais flexíveis com nossos filhos. As relações também mudaram. Atualmente, os dois trabalham, têm uma formação semelhante. Cada um foca seus objetivos, mas há menos tolerância.

Parece-me que na vida duas coisas são importantes e são as chaves de tudo: uma é a comunicação, a outra é a negociação. O que eu ofereço, o que eu levo, o que eu posso abrir mão, o que eu não posso abrir mão. São pontos importantes que eu só vim perceber mais recentemente. Penso que isso falta para as gerações mais novas. Falta a negociação. O importante não é só ganhar.

Há muita competição e pouca comunicação. Hoje, quando você está trabalhando, você não fala com seu vizinho de mesa, você manda um e-mail para ele. Você não avalia junto o que deu certo, o que foi ruim, porque foi ruim, qual foi a contribuição de cada um.

O envelhecer

Não sei, não me sinto velho, mas a gente sabe que tem coisas que não consegue mais fazer. Por exemplo: ler a bula do remédio sem óculos. A disposição também muda. Eu viajava muito de madrugada e tudo bem, nem sentia a viagem. De uns tempos para cá comecei a viajar mais de avião, é mais confortável. Viajo muito a trabalho e de avião chego mais descansado.

Outra coisa que me incomoda mais hoje é a questão do tempo. Não tenho muita tolerância com as coisas lentas. Gosto da idéia de ver as coisas cumpridas mais rapidamente. Tempo é o único recurso que não é renovável. O dinheiro que eu não consegui hoje eu posso ganhar amanhã. Com o tempo é diferente. O tempo que perdi hoje não posso repor. Isso foi uma revelação interessante para mim. Isso é mais recente em minha vida. Tenho necessidade que as coisas andem mais depressa.

Não acho que é porque eu estou ficando mais velho e talvez esteja ficando mais perto da morte. Acho que não é isso. Penso que é para resolver e tirar as coisas da frente

O homem e a mulher envelhecem diferentes. Ele aceita mais fácil o envelhecimento. A mulher tem situações mais complicadas. O processo de envelhecimento da mulher é mais sofrido. Quando os filhos crescem, a administração da casa e as relações se alteram. Eu penso que de alguma maneira a mulher sente mais que o homem.

A mulher tem algumas vantagens; ela consegue desempenhar uma diversidade de papéis que o homem não consegue. Ela é dona de casa e empreendedora, consegue fazer varias coisas ao mesmo tempo. Trabalha, volta para casa, pega criança no colégio, cuida da casa e prepara o jantar. Essa diversidade dá mais flexibilidade à mulher. O homem trabalha e vem para casa. O homem precisava aprender um pouco com ela.

O envelhecimento vai afirmando algumas características e sedimentando conhecimentos. O que vale mais são as experiências vividas, os erros que você cometeu. E, provavelmente cometeu mais do que aqueles que viveram menos e não passaram ainda por essas experiências. Envelhecimento é se render a alguma coisa. Eu ainda não vejo barreiras.

Outro dia meu neto de 7 anos me perguntou:

– Vovô como era a Internet no seu tempo?

– Lucas, não tinha Internet.

Ele virou-se para mim e disse:

– Vô, deixa de me enrolar, me conta.

Meu neto não acreditou. Não dá para imaginar uma época sem internet. Mas quando não tinha computador, tinha máquina de escrever, tinha a maquininha FACIT, que girava a manivela para multiplicar. O esforço era maior, demorava mais tempo.

Os jovens de hoje nem conhecem isso. Tínhamos poucas alternativas, e sobrava menos tempo para pensar. Hoje, tem a facilidade da informática, com todas ferramentas que transformam as informações mais facilmente.

Não só na minha área, mas o poder da Internet é muito grande. Pode transmitir conhecimento de uma Universidade da Índia sobre uma pesquisa feita na Sibéria, de uma ONG da África. O alcance é fabuloso. Você tem as várias informações ampliadas. Isso estimula, dá ânimo, porque apesar de mostrar que você não domina todos conhecimentos, que sabe menos, tem a compensação de acessar conhecimentos mais facilmente, do mundo inteiro. O benefício do computador é muito grande, mas ainda tem pessoas que não aceitam, tem resistência em aprender.

Facilita bastante a vida, algumas atividades podem ser feitas em casa, não precisamos estar fisicamente presente.

Aposentadoria

Para quem sempre trabalhou, ficar em casa é uma restrição muito grande.

As pessoas dizem que os idosos vão para a fila do banco receber o pagamento três horas antes, porque é lá que eles vão bater papo, encontrar as pessoas. As pessoas se habituam à rotina do trabalho e o homem em casa às vezes atrapalha. Com a idade, cada um de nós reforça seus hábitos, suas manias.

O livro “As mulheres são de Vênus e os Homens são de Marte” é meio chato, mas é verdadeiro. O patamar de entendimento do homem e da mulher é diferente. É importante que os dois se ocupem de coisas úteis e, de preferência, fora de casa.

Em janeiro deste ano fui desligado da empresa onde eu trabalhava. Passei 40 anos da minha vida profissional trabalhando para outros, agora resolvi olhar minha vida mais de perto, vendo o que quero fazer, do jeito que gosto.

No começo do ano, eu deveria ter ministrado dois cursos, eles já estavam prontos, mas entrei num stress mental e não consegui fazer nada. Fui buscar ajuda de uma terapeuta e ela disse que eu precisava descansar um pouco. Recomendou que eu fizesse exercícios físicos e caminhadas regularmente. Foi muito bom. Exercícios fazem bem, você respira e areja a cabeça. Aquilo foi um peso, mas já passou, já estou bem. Voltei a ter prazer na leitura, na pesquisa de novos temas, e prazer nos meus cursos novamente.

A aposentadoria também pode trazer coisas boas. Uma coisa que eu nunca fiz e agora pretendo fazer, é viajar mais. Com mais tempo livre podemos passear, fazer coisas que nunca fizemos antes. Vou fazer uma viagem com minha esposa, vai ser uma primeira experiência. Vamos até o México onde mora minha filha e depois vamos para os Estados Unidos. Estou treinando tirar férias. Estou aprendendo. Acho que já consegui me desvencilhar de algumas coisas.

Num passado mais recente estou na área de consultoria voltada para planejamento e finanças. Há três anos dou aulas para os atacadistas na área de finanças e relacionamento com fornecedores. Esses cursos são oferecidos na sede das associações regionais. Viajei o Brasil inteiro com esse curso. Gosto de dar aulas, é muito prazeroso. É bom ensinar aquilo que você sabe, observar as pessoas aproveitarem o conhecimento.

O caso dos aposentados no Brasil é que eles ganham pouco e com esse dinheiro têm que pagar o aluguel, comprar remédio, ajudar os netos, se alimentarem, etc. Dizem que a previdência não pode pagar mais, na verdade a previdência tem tanto desvio que no final da história não sobra mesmo para aposentadoria. O valor da contribuição deveria ser maior, pagar mais por essa previdência, mas na hora de pagar mais, ninguém quer porque não se confia no sistema e sabe-se que vai só engordar o bolso dos outros. Se eles aumentarem o valor da contribuição, vão ter que dar satisfação do dinheiro.

Tem que ser feito mais pelos idosos. Eles têm que se sentir útil dentro da comunidade. Poderíamos ter um centro comunitário com uma creche, com algumas avós empregando seu tempo livre. Na segunda-feira uma avó cuidaria do neto dela e dos outros. Na outra segunda, seria a outra avó. É necessário chamar as pessoas idosas ao trabalho, melhorar a auto-estima. O idoso não pode se sentir excluído, abandonado.

Não são coisas difíceis de fazer. Se tivermos 10 pessoas num centro comunitário tomando conta de crianças, podemos fazer um rodízio. Elas terão um motivo para chegar até lá. Podem desenvolver outras atividades; aprender um tricô ou uma panificação.

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Era preciso ter mais oficinas empregando idosos. No Bom Retiro tem tantas confecções, será que não poderiam montar oficinas com atividades para idosos?

A troca de experiência é importante. A idosa sabe fazer um tricô que a moça mais nova não sabe. A moça pode ensinar informática e a avó ensinar tricô, pode ser aula de culinária também. Tem muita menina que não sabe cozinhar nem arroz e feijão.

Estamos criando uma cultura de isolamento. É preciso integrar as gerações. Os idosos também têm que tomar cuidado, não podem também achar que sabem tudo e ficar ditando regras. Tem que ser uma troca. A experiência é que conta. O idoso não pode ficar só esperando, tem que participar, tem que estar aberto para mudanças. Tem que oferecer alguma coisa para os jovens. É um testemunho, uma ajuda.

Os tempos mudam.

Meus filhos nunca usaram fraldas descartáveis porque não tinha. Meus netos nunca usaram fraldas de pano. No meu tempo tinha garrafa de leite. De vidro, com tampa de alumínio. Tinha que comprar três garrafas de leite porque duas sempre azedavam. Agora tem embalagem longa vida. A padaria era só para comprar pão; pizza só na pizzaria. Café se tomava em casa.

A importância dos avós

Tenho boas lembranças de meus avós. Eles tinham nomes curiosos. Minha avó paterna chama-se Teodolinda e meu avó Polidoro.

Minha avó materna chamava-se Evangelina e meu avô Samuel Augusto. Meu avô Samuel era médico e grande estudioso. Começou como parteiro, foi diretor do Instituto Adolfo Lutz e se dedicou à pesquisa do caramujo da esquistossomose.

Meus avós foram os fundadores da Casa da Esperança, em Santos, que equivale a AACD aqui em São Paulo. As crianças que freqüentavam A Casa da Esperança tinham paralisia infantil e outras deficiências. O pensamento de meus avós era que se as crianças tivessem capacidade de se locomover, ficaria mais fácil para os adultos cuidadores.

Eu lembro da minha avó, com 70 anos, indo para a Casa da Esperança trabalhar. Ela sempre tinha uma atividade, nunca estava parada. Estava sempre preparando um enxovalzinho para alguma criança pobre.

O dinamismo ajuda a ter uma cabeça mais aberta, mais ocupada, a vida fora de casa traz oxigenação para a vida, tanto do homem quanto da mulher.

Um jeito de envelhecer melhor

Na nossa sociedade a questão do trabalho precisa ser olhada com cuidado para as pessoas não sucumbir trabalhando.

Trabalhei 40 anos sem férias. Eu não percebi os 40 anos passar.

Quando meus filhos casaram, eu chorava de incomodar a todos. Foi nesse momento que caiu a ficha de que eu não tinha curtido a paternidade, não tinha acompanhado o crescimento deles. Acho que isso está relacionado com aquele modelo antigo, do pai provedor e mãe administradora da casa. Talvez tenha copiado o modelo do meu pai de dedicação ao trabalho, mas penso que meu pai curtiu a vida melhor do que eu.

Em 40 anos de trabalho ininterruptos, tirei umas três ou quatro férias. Penso que foi uma coisa ruim, talvez errada, mas não sabia fazer diferente. Foi a forma que eu consegui fazer. Faltou-me sensibilidade para ouvir as pessoas que me aconselhavam ou coragem para assumir que o lazer também é importante. Sempre tive uma compulsão ao trabalho, compulsão aos resultados.

Certamente deixei de fazer outras pessoas felizes, deixei de compartilhar coisas boas, momentos familiares. Talvez este desabafo seja um bom recado para os jovens, mas para os colegas que têm a minha idade, não serve mais. Eles irão balançar a cabeça e dizer: é mesmo.

Férias são necessárias, comemorações e rituais também. São importantes para todos, para os homens, para as mulheres, para os filhos.

Acredito que este pode ser um jeito de envelhecer melhor, com mais leveza, com mais movimento. A juventude de hoje pode aprender a fazer diferente. Não tem que trabalhar em excesso. Se bem que com toda essa competição e exigência cada vez maior do mercado de trabalho, não sei se eles vão conseguir. Atualmente, se não tiver uma pós-graduação, um doutorado, você começa a ficar descartável.

Fico pensando no significado dessas coisas no futuro.

Que será que essas coisas significam? Como vai ficar a vida pessoal do indivíduo?

São coisas sérias que devem ser repensadas.

E as famílias? Como ficam? Será que vão conseguir se constituir? Será que as futuras gerações vão conseguir se lembrar de seus avós? Vão conseguir tempo para o lazer? Para se cuidar?

Saúde

Minha saúde é boa. Não fumo, parei faz muito tempo, antes de casar. Fumava quatro maços de cigarro por dia. Imagine: quatro maços, são 80 cigarros, cinco cigarros por hora.

Gosto de cerveja e vinho.

Não sinto nada, mas tomo algumas vitaminas. Tenho medo de injeção.

Penso que a gente não vai conseguir mudar o DNA. Tem que viver e curtir a vida. Em determinado momento chega uma sentença dizendo: a partir deste momento você deixou de ser. Não tenho nenhuma angústia em relação a este assunto.

Religião

Eu já fui coroinha. Quando era moleque e morava em Santos. Divertia-me bastante, hoje acho que a religião está meio adormecida. Acredito que tem um poder maior, que interfere positivamente e que tem muita coisa que não conhecemos ou não percebemos.

Quanto sinal está chegando e a gente não está vendo! Eu acredito no bem, em coisas que podem nos beneficiar, na disponibilidade das pessoas de fazerem o bem, de ajudarem. A ajuda que você faz, sempre volta para você de alguma maneira.

Eu prefiro sempre encarar o lado positivo. Sempre tem uma forma de ajudar: é uma palavra que você diz para o outro no momento certo, um ombro para encostar a cabeça, uma mão para se apoiar.

Recado para as novas gerações

As gerações precisam conviver lado a lado. A idéia seria de compartilhar com os mais novos aquilo que nós já aprendemos e eles ainda não. Não é para impor, e sim compartilhar. Precisamos mudar a forma de pensar.

Eu deveria ter feito a viagem dos 40 anos, deveria ter trabalhado menos. Como que eu poderia ter feito para a trabalhar menos? Não sei.

É conscientização. Assim como a gente se conscientiza do aquecimento global, da necessidade de reciclar o lixo, a gente pode aprender a reciclar a vida.

Parece-me que as empresas não estão preparadas para isso. Elas têm uma voracidade de sugar o máximo dos seus funcionários, para ter mais lucro, tornar-se uma organização maior. Não somos educados para ser feliz, somos educados para usarmos a tecnologia e sermos bem sucedidos.

Precisamos refletir sobre isso, porque esse lixo humano também pode estar se formando. O lixo da infelicidade, o lixo da compulsão ao trabalho, o lixo do isolamento. Não adianta chegar aos 70 anos e ficar reclamando. Temos que fazer alguma coisa antes.

Precisamos pensar nas famílias, nos grupos sociais. Pensar em como melhorar as relações. Quem sabe criar uma disciplina nova na faculdade para aprender a ser feliz.

Algumas frases da religião são importantes, por exemplo: Amar a Deus sobre todas as coisas e Amar o próximo como a ti mesmo. Se você não souber se amar, não adianta. As pessoas estão com auto-estima rebaixada. Só se trabalha a competitividade. Temos que ter responsabilidade social. Não precisa jubilar o professor velho para abrir espaço para o mais novo. Precisamos conviver com os jovens, abrir possibilidades para mais gente saber mais. Precisamos de uma economia de saúde pública, para ter menos gente doente.

A situação dos velhos não é boa e ameaça os jovens de hoje, com uma agravante: a longevidade é cada vez maior. É possível que essa juventude viva até 100 anos e é importante que ela viva bem.

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