Em uma era de celebração de nascimentos, casamentos e aniversários pelo Facebook e Twitter, talvez fosse inevitável que funerais transmitidos ao vivo pela Internet, para amigos e entes queridos, fossem os próximos.
Laura M. Holson
Não causa surpresa que mortes de celebridades, como Michael Jackson, ou políticos notáveis, como o diplomata americano Richard Holbrooke, sejam promovidas como eventos internacionais de Internet. O mesmo ocorreu com o serviço fúnebre das seis pessoas mortas na chacina de 8 de janeiro em Tucson, Arizona, que foi acompanhado por milhares de pessoas pela Internet.
Mas agora funerais antes privados de cidadãos menos notáveis também estão disponíveis online.
Várias empresas de software criaram programas fáceis de usar para ajudar as funerárias a atender as famílias enlutadas. A FuneralOne, uma loja para funerais online com sede em St. Clair, Michigan, viu o número de funerárias oferecendo transmissões pela Internet aumentarem para 1.053 em 2010, em comparação a 126 em 2008 (ela também vende DVDs de tributo).
No mesmo período, a Event by Wire, uma concorrente de Half Moon Bay, Califórnia, observou o número de funerárias realizando serviços de streaming ao vivo saltar de 80 para 300. E neste mês, a Service Corp. International, em Houston, que é dona de 2 mil funerárias e cemitérios, incluindo uma das capelas funerárias mais respeitadas de Nova York, disse estar realizando um programa piloto de transmissão pela Internet em 16 de suas funerárias.
Viajar para os funerais já foi um importante rito familiar, mas com a maior secularização e uma população móvel cada vez mais distante de suas cidades de origem, assistir um funeral online é uma melhor opção do que simplesmente não ir ao funeral. As redes sociais também redesenharam as barreiras coletivas do que é aceitável em relação aos pais, irmãos, amigos e conhecidos.
“Nós estamos em uma sociedade YouTube no momento”, disse H. Joseph Joachim 4º, fundador da FuneralOne. “As pessoas estão vivendo mais do que nunca online, e isto reflete esse fato.”
Alguns dos funerais transmitidos pela Internet refletem o quanto os indivíduos são acompanhados. Em 11 de janeiro, mais de 7 mil pessoas assistiram o funeral em Santa Ana, Califórnia, de Debbie Friedman, uma cantora ícone cuja música combinava textos judaicos com ritmo folk. Ele foi exibido pelo Unstream, um serviço de vídeo pela Internet, e assistido por mais de 20 mil pessoas por demanda no dias que se seguiram.
“Nós pretendíamos assistir apenas alguns minutos, mas acabamos assistindo a cerimônia toda”, disse Noa Kushner, um rabino em San Anselmo, Califórnia, e fã da música de Friedman, que assistiu ao serviço com um amigo em seu escritório. “Eu fiquei comovido.”
Após a morte de Stefanie Spielman, uma ativista de câncer de mama e esposa do popular jogador de futebol americano Chris Spielman, em 2009, a família Spielman queria uma cerimônia privada, com a presença de 900 amigos e parentes, disse Lajos Szabo, o diretor chefe de estratégia do Schoedinger Funeral and Cremation Service, em Columbus, Ohio, que realizou o funeral. Mas também queria acomodar parte do público, que queria dar apoio à família em seu luto. Transmitido ao vivo e postado online, o funeral de Spielman foi assistido 4.663 vezes por 2.989 visitantes desde novembro de 2009, segundo a FuneralOne.
Outras transmissões pela Internet são mais obscuras, mas não menos apreciadas. Há duas semanas, um amigo de Ronald Rich, um bombeiro voluntário de Wallace, Carolina do Norte, morreu inesperadamente. Quando Rich telefonou para a mãe do amigo para dizer que não poderia fazer a viagem de oito horas até o funeral, por causa do fechamento das estradas devido à tempestade de neve, ele disse que a mãe ofereceu enviar um convite por e-mail para que ele pudesse assistir à cerimônia online. Rich disse que assistiu ao funeral duas vezes: primeiro sozinho e uma segunda vez com sua namorada.
“Foi confortador”, ele disse, acrescentando que planejava assistir de novo, com amigos bombeiros.
A tecnologia para colocar funerais online já existe há uma década, mas demorou a pegar em um setor compreensivelmente sensível a questões de etiqueta. Alguns diretores de funerais evitam a transmissão ao vivo das cerimônias porque não querem substituir a experiência humana comunal por uma solitária digital, disse John Reed, um ex-presidente da Associação Nacional dos Diretores de Funerais. Outros diretores temem que se a qualidade do vídeo for ruim, isso refletirá mal para a funerária.
E a conversa sobre a exibição de um funeral online pode ser desajeitada, particularmente se a família enlutada for desconfiada de tecnologia. Os diretores de funerais são conservadores, disse Reed; a privacidade, mesmo para a geração do Facebook, é fundamental. “Nós não agarramos a primeira coisa que aparece”, ele disse.
Mesmo assim, alguns diretores de funerais oferecem o serviço gratuitamente (Reed é um deles), enquanto outros cobram de US$ 100 a US$ 300. Se a família quiser manter o serviço online privado, os convidados recebem uma senha que permite o acesso. (Joachim disse que 94% dos funerais transmitidos por sua empresa não foram protegidos por senha)
Nem todos os frequentadores de funerais desejam que suas imagens sejam capturas online. Irene Dahl, proprietária da Bozeman, Montana, disse que um jovem foi a um funeral no ano passado vestido como mulher e pediu para não ser filmado. “Ele não queria que sua mãe soubesse”, disse Dahl. “Então nós não apontamos a câmera na direção dele.”
Dahl disse que quase um terço das cerimônias arranjadas por sua funerária no ano passado –aproximadamente 60– foram transmitidas ao vivo, sem cobrança adicional. Ela se interessou por essa opção depois que Dan Grumley, o presidente-executivo da Event by Wire, a visitou em 2008 e mostrou como ela funcionava.
“Ser diretora de funeral envolve ajudar as pessoas em seu luto”, ela disse.
Russell Witek, o filho de 14 anos de Karen Witek, de Geneva, Illinois, morreu de tumor no cérebro em 2009. A Conley Funeral Home em Elburn, Illinois, ofereceu transmitir ao vivo o funeral para amigos e parentes. “Nós dissemos: ‘Por que não?’” disse Witek. Seu cunhado estava trabalhando no Oriente Médio e não poderia estar presente. A enfermeira de Russell estava fora da cidade. “Eram as férias de primavera”, disse Witek.
Ela contatou vário amigos em sites de redes sociais, incluindo um grupo de apoio aos pacientes e outro para pais que educam seus filhos em casa, e eles também não poderiam comparecer. “Eu queria que eles participassem”, disse Witek.
Segundo a Conley Funeral Home, 186 pessoas assistiram ao funeral ao vivo em 3 de abril de 2009, com 511 adicionais assistindo por demanda até 15 de janeiro.
Witek disse que seu marido assistiu o funeral mais de uma vez, “porque queria ouvir o que foi dito naquele dia”, mas ela disse que não conseguiu assistir, exceto partes. “É difícil após a morte de um filho.”
Para William Uzenski, o pai de Nicholas Uzenski, um marine que serviu no Afeganistão e morreu em 11 de janeiro de 2010, a transmissão ao vivo pela Internet forneceu muito conforto. O corpo de Nicholas Uzenski foi transportado para seu lar, Bozeman, 10 dias depois. William Uzenski, ele mesmo um ex-marine, disse que queria que os colegas militares de Nicholas no Afeganistão pudessem assistir ao funeral. Então Dahl arranjou isso por meio de um contato militar que estava dando assistência à família.
Dahl disse que, diferente de muitos funerais transmitidos ao vivo, o de Nicholas Uzenski teve três transmissões diferentes e foi apenas para convidados. As transmissões incluíram a chegada de seu caixão no aeroporto local, o funeral e a cerimônia no lado da sepultura, que sua família disse que incluiu uma salva de 21 disparos. Dahl monitorou os convidados virtuais. O funeral e a cerimônia ao lado da sepultura foram assistidos por 124 e 39 pessoas respectivamente, com o funeral assistido em 80 cidades e quatro países, incluindo o Afeganistão.
“Algumas pessoas me mandaram e-mail”, disse Uzenski. “Amigos me agradeceram por compartilhá-lo com eles. Eu às vezes assisto de novo. Eu não sei o motivo, mas eu acho que ajuda a curar a dor.”
Tradução: George El Khouri Andolfato
Fonte: Uol Notícias Internacional, The New York Times, 31/1/2011. Disponível Aqui