Após a Segunda Guerra, o médico e sociólogo norte-americano Aaron Antonovsky (1923-1994), de ascendência judaica, deparou-se com a questão da sobrevivência dos ex-prisioneiros de campos de concentração nazistas. Outros dois psicoterapeutas, Abraham Maslow (1908-1970) e Viktor Frankl (1905-1997), também se ocuparam do tema e observaram que mesmo os prisioneiros submetidos às piores condições humanas possíveis, torturados, ameaçados constantemente, mal alimentados, dentre outras atrocidades, ainda assim sobreviveram.
Com essa constatação, o médico Wesley Aragão de Moraes (2006, p. 15) em seu livro “Salutogênese e Auto-Cultivo”, pergunta: “Como é que, diferente dos demais que morreram, estes poucos exemplares da espécie humana sobreviveram ainda assim? Que forças tem tais pessoas para terem sobrevivido a um tremendo ato de violência? Evidencia-se aqui um mistério, o mistério do sobrevivente!”
Diríamos, um enigma do sobrevivente e de todos aqueles que superam limitações de toda ordem e acabam reinventando suas vidas, de um jeito próprio e singular de tecer constantemente novas histórias.
Falando em vidas especiais, queremos aqui, trazer alguns recortes de histórias de pessoas (notícias veiculadas recentemente na mídia) que passaram por tudo e mais um pouco e mesmo assim seguiram, criando, inovando e sonhando um futuro possível. Apenas para quem sabe viver…os valentes e especiais.
Buscando respostas para o enigma da vida, Burkhard (2000) cita Angelus Silesius (1624-1676), grande místico nascido na Polônia que procurou continuamente Deus dentro de si mesmo: “Homem, torna-te essencial, pois, se o mundo parar, o acaso desaparecerá e só o essencial permanecerá”.
Talvez – quem pode saber – essas pessoas tenham, de fato, “encontrado Deus”, não fora, no materialismo do mundo externo, mas sim no âmago e esplendor da alma, na simplicidade das coisas e, porque não dizer, na ausência das palavras. Quem seriam, então, esses “raros exemplares da espécie humana”? Aqueles que tão bravamente souberam “tomar a vida nas próprias mãos” (Burkhard, 2000)?
Helga Weiss, 84 anos e seu instrumento de sobrevivência: o precioso diário
Artista plástica, Weiss desenhou desde cedo, e, graças à habilidade, pôde documentar de forma rara o cotidiano não só do notório campo de Auschwitz como do gueto de Terezin, na cidade tcheca de mesmo nome. Weiss foi enviada para lá com apenas 13 anos.
Desde então registrou, sempre às escondidas, detalhes de sua rotina. Não é apenas a inocência dos instantâneos das agruras que chama a atenção, mas também a evolução de traços e perspectivas, um domínio técnico adquirido em circunstâncias que não poderiam ser mais desafiadoras.
“Desenhar e escrever eram formas de tentar encontrar algum sentido em tudo aquilo o que passávamos, ao mesmo tempo em que servia como um desafio aos nazistas”, afirmou Weiss em entrevista à Folha de S.Paulo, durante uma visita promocional a Londres para o lançamento do livro “O Diário de Helga” (Editora Intrínseca).
“Tentaram nos privar de estudar, e desde cedo meus pais e outros prisioneiros pensavam além da barbárie, em como a educação seria importante para o pós-Guerra”.
A superação de Yuichiro Miura, 80 anos
O montanhista japonês Yuichiro Miura, de 80 anos, concluiu numa quinta-feira do mês de maio de 2013 sua escalada ao topo do Everest, a montanha mais alta do mundo, no Nepal, e voltou a entrar no livro dos recordes: “Me sinto a pessoa mais feliz do mundo. Nunca senti tanta alegria, mas também nunca estive tão cansado”, declarou Miura, que realizou a subida ao lado do filho, Gota, em seu site pessoal.
Com o feito, ele volta a figurar no Guinness após sua primeira aparição, em 2003, quando se tornou o homem de idade mais avançada a chegar ao cume do Everest, aos 70 anos. O recorde, porém, foi quebrado durante a última década e, até esta quinta, pertencia ao nepalês Min Bahadur Sherchan, que, em 2008, concluiu a escalada com 76 anos.
Para quem não sabe, o Everest tem 8.848 metros e cerca de 3 mil pessoas concluíram a escalada. Outros milhares morreram na tentativa.
Doris Long, 99 anos descendo de rapel…querem mais?
Para quem não acredita, essa incrível e destemida senhora, uma tataravó inglesa teve a “ousadia” de comemorar seu aniversário de 99 anos descendo de rapel um prédio de 11 andares e 35 metros de altura na cidade de Portsmouth, no sul da Inglaterra.
Doris Long, atual detentora do recorde de pessoa mais idosa a fazer rapel, realizou a descida com cordas para quebrar a própria marca e arrecadar dinheiro para um asilo.
Conhecida como Daring Doris (“Doris Ousada”, em tradução livre), ela completou seu primeiro rapel aos 85 anos e, desde então, completou oito descidas para angariar fundos para a mesma instituição.
Falando ao jornal local “Portsmoth News”, ela disse que se sentiu ótima durante a façanha. “Eu não me sinto com 99. Me sinto mais como se tivesse 60… O tempo estava bom, não estava ventando muito, então eu não fiquei balançando como um pêndulo lá em cima”, disse. Doris também falou de seus planos de fazer novas descidas de rapel no futuro: “Nesta mesma época no ano que vem, espero, e depois disso”.
Como diria Victor Hugo (1802-1885), novelista, poeta, dramaturgo e ensaísta francês: “O futuro tem muitos nomes. Para os fracos é o inalcançável. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade”.
Referências
BURKHARD, G. (2000). Tomar a vida nas próprias mãos. São Paulo: Antroposófica.
DUARTE, F. (2013). Traços do holocausto. Disponível Aqui. Acesso em 14/04/2013.
MORAES, E.A. (2006). Salutogênese e Auto-Cultivo. Rio de Janeiro: Instituto Gaia.
TERRA (2013). Aos 80 anos, japonês se torna mais velho a escalar o Everest. Disponível Aqui. Acesso em 23/05/2013.
UOL (2013). Tataravó comemora 99 anos com descida de rapel. Disponível Aqui