No Recife, antes da pandemia a gente lidava com pessoas que viviam nas ruas. Hoje vem mais gente de fora. A maioria são mulheres e tem muitas idosas, que não têm assistência.
Maria Carolina Santos (*)
É visível o aumento da população de rua durante a pandemia e a crise social e econômica dos últimos anos. A prefeitura do Recife trabalha com o número de 400 pessoas a mais nas ruas durante a pandemia, totalizando 2.022 pessoas em situação de rua. Mulheres geralmente representam uma fatia menor dessa população, mas é um percentual que vem crescendo. Com vínculos familiares quebrados, com poucas chances de inserção no mercado de trabalho e muitas vezes doentes, física e mentalmente, as mulheres acima dos 50 são o perfil feminino mais numeroso nas filas de doações do centro do Recife.
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De aparência frágil, voz baixa e confusa, Gerlane Paula da Silva diz ter 60 anos. Tem filhos, mas não sabe onde estão. Também não lembra há quantos anos mora nas ruas. Passa os dias andando por onde sabe que tem voluntários distribuindo comida: praça Maciel Pinheiro, rua do Imperador, praça do Diário, pátio do Livramento. Ouve a amiga falar sem concordar com muita coisa. “Não me coloque nisso”, interrompe, quando Francileide reclama da prefeitura. Nas sacolas, leva roupas, alguns poucos produtos de higiene e um lençol, para forrar nos bancos na hora de descansar.
A reclamação de Francileide era sobre os abrigos da prefeitura. “O que a gente pede é uma vida digna. Meu cabelo já é branco, sou uma pessoa de idade. A gente é mulher, queremos tomar nosso banho, fazer a nossa jantinha. Tem gente mais nova que eu dormindo nos abrigos e não consigo vaga”, disse.
Com casa e com fome
Bem antes das 17h, quando voluntários começam a distribuir comida na rua do Imperador, Maria Cardoso, 65 anos, está sentada na calçada, ao lado de outras pessoas, também esperando. “Pode sentar aí” e mostra o chão à frente dela, como se apontasse para uma cadeira. A rua é uma segunda casa: catadora de latinhas, com um barraco em Campina do Barreto, faz as refeições todas com o que recebe na rua. Com o que ganha há muito não dá para comer.
“Meus filhos eram todos bebês quando comecei a vir pegar comida aqui. Eles faziam parte do PETI (programa de combate ao trabalho infantil) e ganhava R$ 40 por cada um. Hoje estão todos grandes”, conta. Ela sai de casa antes do dia amanhecer e fica na rua até às 21h30. Pega as doações da rua do Imperador e segue para a sopa na praça do Diário.
Só teve comida suficiente em casa, e condições de cozinhar, quando o pai dos filhos estava vivo. Quando ele morreu, passou a ir buscar alimentos fora. A pandemia foi de altos e baixos. No começo, as doações aumentaram. Havia distribuição de kits de higiene e máscaras, havia distribuição de cestas básicas. Mas foi uma fase que passou. “Agora é muito difícil conseguir uma cesta básica, faz tempo que não vejo”, diz.
Há anos tenta se aposentar, já que foi catadora de latinhas para reciclagem a vida inteira. Ainda não conseguiu. Recebe R$ 400 do antigo Bolsa Família, atual Auxílio Brasil. “Quando recebo compro gás, compro alguma comida. A comida que recebo aqui também levo para uma vizinha muito precisada”, diz. Na rua, tem amigos e amigas.
A prefeitura fornece 1,7 mil refeições diariamente nos dois restaurantes populares, mas não é suficiente. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a missa de domingo de manhã ainda está na metade, mas a fila para o almoço que será servido depois já dobra a esquina. São homens e mulheres de várias idades, de crianças a idosos.
Dentro da igreja, Maria do Socorro, 53 anos “por aí assim”, canta todos os hinos. Mora no Arruda de aluguel, mas passa o dia no centro. “Eu dormia por aqui, mas fizeram malvadeza comigo na rua, me chutaram”, lembra. Recebe pensão de um filho doente, de 29 anos. É com esse dinheiro que aluga um quartinho. Mas é insuficiente: volta todo dia para as ruas para conseguir alimentação.
Mais demanda por alimentação
Voluntária na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a contadora Mônica Virgínia da Fonseca conta que, com a pandemia, aumentou muito a demanda por alimentação. Há seis anos, são 20 voluntários que ajudam na preparação das 400 quentinhas ou sopas, entregues todos os dias, com exceção das sextas-feiras. O dinheiro vem de um grupo de anônimos e da contribuição da própria igreja, comandada pelo pároco Dom Marcelo Costa.
“Não aumentou só pessoas que moram nas ruas. Tem pessoas que sabemos que têm moradia, mas não estão conseguindo se alimentar. Antes da pandemia a gente lidava com pessoas que viviam nas ruas. Hoje vem mais gente de fora. A maioria são mulheres e tem muitas idosas, que não têm assistência. São mulheres muitas vezes rejeitadas por marido, filho, neto. Cada uma tem sua história, a maioria tem família também, mas são colocadas de lado”, diz Mônica.
Se a questão da saúde mental e o abuso de álcool e drogas sempre foi importante para a população de rua, com a pandemia se tornou ainda mais intensa.
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(*) Maria Carolina Santos – Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diário de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: [email protected]. Fonte: MarcoZero
Foto destaque de Carlos Ribera/Pexels