Escolher histórias para um público idoso significa trabalhar com a memória e há de se ter delicadeza, pois às vezes, as histórias levantam poeira de muitos anos! Contar histórias para pessoas idosas significa preparar-se para lidar com questões difíceis da vida, como perdas, abandono, dor e morte. E podem acreditar, isso sempre acontece, independente do tema escolhido. Trabalhar para idosos é sempre uma festa cheia de surpresas! Um relato pessoal do nosso trabalho no “Experimentalismo Brabo: palhaçaria e contação de histórias no asilo”.
Melissa Coelho e Leo Salo *. Foto: Jeferson Mendonça
“A vida é como uma festa”, nos disse certo dia um dos idosos do Abrigo do Cristo Redentor de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Em seguida, completou: “uma festa de que participamos, sem termos sido convidados. Certo momento alguém cutuca a gente e pede para a gente se retirar”.
Esse idoso é um tipo “poeteiro”, com quem gostamos muito de conversar. Ele sempre tem uma tirada ou um dito espirituoso para completar nossas histórias, mesmo quando está triste. Dizemos ‘nossas’ porque assim são as histórias: são de quem escreve, de quem lê ou conta, de quem ouve… Enfim, são do mundo inteiro. São, acima de tudo, um conjunto de momentos compartilhados. Escolher histórias para um público idoso significa trabalhar com a memória e há de se ter delicadeza, pois às vezes, as histórias levantam poeira de muitos anos! Contar histórias para pessoas idosas significa preparar-se para lidar com questões difíceis da vida, como perdas, abandono, dor e morte. E podem acreditar, isso sempre acontece, independente do tema escolhido.
Aliás, o trabalho com idosos, especialmente os institucionalizados, requer o tempo todo que a gente abra mão de nossas escolhas. É estar o tempo todo pronto para atender às demandas espontâneas que surgem. Estas demandas podem ser de qualquer ordem: desde um pedido de água, ou uma queixa de dor, até uma pausa para uma oração, ou uma música. Trabalhar para idosos é sempre uma festa cheia de surpresas!
Nós somos do Experimentalismo Brabo, que hoje é um grupo composto por 5 membros “efetivos”, assim digamos…Todavia, sempre conta com a participação de alguns amigos que dão apoio para a nossa proposta. O grupo acaba envolvendo ainda mais profissionais de arte, saúde e cultura, quando acontece algum projeto específico. Trabalhamos em dois territórios: o Complexo de Favelas de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro e o Abrigo do Cristo Redentor de São Gonçalo. O nosso objetivo é propor intervenções sobre cultura da paz, solidariedade, afeto e cooperativismo.
Só para citar um exemplo de projeto específico, no próprio Abrigo do Cristo Redentor (ACR) de São Gonçalo, concluímos este ano um conjunto de ações que teve o apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Foi o Projeto Geração da Leitura, que teve como objetivo estimular o intercâmbio cultural entre idosos, visitantes e funcionários do Abrigo do Cristo Redentor, realizando atividades artísticas e culturais, que permitiram a construção da memória e a valorização da cultura e da história de vida dos idosos abrigados.
Neste trabalho, os palhaços do grupo fizeram, em suas intervenções, um mapeamento temático de algumas questões que faziam mais sentido para a realidade dos moradores do asilo. Na segunda etapa, compramos um acervo de livros sobre estas temáticas e organizamos cortejos culturais, com música e contação de histórias baseadas neste acervo. A terceira e última etapa foi a de promover encontros de gerações entre estes idosos e alunos de escolas da região. Nós organizamos atividades lúdicas, em que o idoso se tornava o protagonista de sua própria história e podia contá-la para as crianças.
Independente de termos ou não algum projeto específico, nós mantemos nossa atuação no Abrigo do Cristo Redentor de São Gonçalo, com palhaços e contadores de histórias. Lá, buscamos interagir com idosos, funcionários e visitantes, indo em todos os pavilhões: de cama em cama. Todas as intervenções são construídas com eles e não para eles. Em nossa perspectiva de trabalho isso faz toda a diferença. Queremos mostrar que o asilo pode ser muito mais do que um simples depósito de velhos, trata-se de um repositório cultural vivo, que merece ser degustado. Enquanto há tempo…
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* Melissa Coelho é atriz, bonequeira e contadora de histórias, e Leo Salo é mestre em ciências, poeta e palhaço. Email: [email protected]