O sorriso de criança: marcas e significados no Alzheimer

Quando nos certificamos do diagnóstico de uma patologia, muitas pessoas, imbuídas de boa vontade e espírito de colaboração, emitem opiniões diversas acerca do assunto. Percepções, impressões, atitudes tomadas com sucesso, compõem um cenário de solidariedade como incentivo ao percurso a ser desenvolvido.

Vera Helena Zaitune(*). Foto: Arquivo Pessoal


Lembro-me muito bem do exemplo dado por um neurologista na tentativa de ilustrar a transformação do cérebro de um portador de Alzheimer, a patologia da qual minha mãe é portadora há nove anos. No caso, um cérebro sadio apresenta-se como um cacho de uvas viçosas e robustas, enquanto que num cérebro comprometido essas uvas assemelham-se a uvas passadas, murchas, sem possibilidade de seguimento à vida. A memória do portador diminui gradativamente, exigindo do cuidador habilidade e domínio de conhecimento da doença a fim de aproveitar o repertório que ainda existe nas lembranças do portador, para que os estímulos aconteçam.

Nessa direção, o ponto de vista de uma amiga me impressionou. Segundo vivência com uma tia, ela observou que quando numa fase mais comprometida do Alzheimer, a posição do corpo do portador se parece com a de um recém-nascido.

Atualmente, esses dois exemplos constituem-se em realidades palpáveis no estágio que minha mãe se encontra. Seu físico diminui e contrai, levando a um ponto de dependência total dos cuidadores. Destaco que nesse trajeto há dias em que me sinto fraca; oscilando entre subir os degraus do lugar onde ela reside, ou retornar sem vê-la, devido ao sofrimento que isso gera em mim. Então, inspiro e expiro e me dirijo ao encontro dela. Vencido esse momento crucial, sempre me certifico que vale a pena investir nesse gesto, perpassado de emoções diversas.

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E, dividida entre o apego e o desapego, sem me ater a discussões profundas sobre o viver e o morrer, prossigo nos cuidados com minha mãe querida, sorvendo o doce e o amargo que essa relação me impõe inexoravelmente.

Há sempre aprendizado e registros perenes! E dentre os últimos, compartilho uma experiência rica e intensa que tem ocorrido em quase todos os nossos encontros. Na condição patologicamente regressiva, o que tem chamado minha atenção refere-se ao sorriso da minha mãe. Um sorriso puro, inocente, singelo e delicado tem sido a forma como ela tem me recebido cotidianamente. Sobremaneira, um sorriso de criança com todo o fluxo de energia positiva que o mesmo possui. Confesso que é dificultoso transcrever a emoção despertada nesses instantes de ternura! Coisa de pele e química amorosa que existe entre mãe e filha ou filha e mãe, já que nossos papéis tem se invertido. Na paz desse sorriso, me retiro solitária, alegre e triste, desejando que esses momentos se repitam; pois há saudade deles. E enquanto a vida sinalizar pela vida comporemos o nosso mosaico, um pouquinho a cada dia e sempre.

(*)Vera Helena Zaitune é graduada em História, Mestre em Educação, Cuidadora da mãe, portadora de Alzheimer. Faz parte da Rede de Colaboradores do Portal. Email: [email protected]

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