O filme pode ser considerado como a elaboração simbólica do luto de Carl que, após o falecimento da esposa, apreende um novo jeito de viver e, com isso, parte em busca de novas aventuras, além de amar outros objetos substitutos para suas antigas fantasias. Dentro dos vários processos elaborativos durante a experiência do humano, o trabalho do luto faz parte de nossa existência como seres finitos, somos condenados a lidar com tal questão.
“Up! Altas Aventuras” retrata a velhice de Carl, um senhor que parte em busca de uma mágica aventura – sonho que alimentou por muitos anos com sua esposa falecida Ellie. A ideia aqui é analisar alguns eventos do longa-metragem que ajudaram o velho Carl na elaboração da morte de sua companheira, com a essencial relação transferencial com os personagens: Russerl, Dug e Kevin.
Para fundamentar essa breve reflexão, discutimos a animação cinematográfica pelas “lentes” da psicanálise. A produção sublimatória expressa na sétima arte contemporânea será utilizada como objeto de análise.
Segundo Érico Bruno Viana Campos (2003), “A ideia é que o trabalho normal do luto envolve a redistribuição da libido antes investida no objeto de amor perdido. O trabalho de simbolizar e elaborar a perda, reencontrando novos caminhos para o desejo, leva certo tempo e envolve algum pesar. É por meio desse percurso que esses objetos de amor podem ser desinvestidos e o sujeito passa a encontrar novos substitutos. Evidentemente, esse processo não é tão simples, pois envolve não apenas encontrar um objeto substituto, mas elaborar as fantasias conscientes e inconscientes que são ativadas com a perda de objeto. O processo de luto é, portanto, um redimensionamento das fantasias e defesas do psiquismo, em busca de um novo equilíbrio de forças”.
Dentro dos vários processos elaborativos durante a experiência do humano, o trabalho do luto faz parte de nossa existência como seres finitos, somos condenados a lidar com tal questão.
No filme, o personagem principal, o velho Carl, consegue simbolizar a perda de sua esposa Ellie. Para tal processo foi necessário deslocar a libido para um outro objeto a ser amado e digno de tal investimento. Desde o começo do filme, vemos presente o sonho do casal em ter um filho. Numa determinada cena, Carl, ao folhear um álbum de fotos revendo momentos marcantes de sua vida, lê uma mensagem deixada pela mulher, encorajando-o a seguir novas aventuras.
Depois disso, Carl percebe que é sim possível voltar a amar outros objetos, outras pessoas e exercer uma função especial na vida do jovem Husserl, um menino que carrega a marca da ausência da figura paterna. Junto com esse “parentarismo” com o pequeno jovem, o velho decide adotar o cachorro Dug – dizendo ao canino: “de hoje em diante serei seu Mestre” e, juntos, partem para salvar a vida de uma ave exótica chamada Kevin, a qual aprende a amar durante a aventura.
O filme pode ser considerado como a elaboração simbólica do luto de Carl que, após o falecimento da esposa, apreende um novo jeito de viver e, com isso, parte em busca de novas aventuras, além de amar outros objetos substitutos para suas antigas fantasias.
Referências
CAMPOS, E.B.V. Considerações sobre a morte e o luto na psicanálise. Rev. Psicol. UNESP [online], v.12, n.1, p. 13-24, 2013.
LOPES, R.G.C. Velhices, Reflexões Contemporâneas. São Paulo: SESC, v.1, n.1, p. 87-99, 2006.
OLIVEIRA, A.J.A. Uma análise sobre a relação intergeracional na Animação Up – Altas Aventuras. Congresso Internacional de Educação e Inclusão, v.1, n.1, p. 1-10, 2014.
Escrito por Lucas Quevedo da Silva de Lima – Aluno do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS. E-mail: [email protected]