O papel do médico de família na transição para a viuvez

A transição para a viuvez implica a gestão de fatores indutores de stress que parecem influenciar negativamente a saúde global.  A longo prazo, associa-se a um aumento dos riscos de morbilidade e mortalidade, condicionado por fatores biológicos, comportamentais, sociais e de saúde mental.

Teresa Maria Sousa (*)


Nas últimas décadas, o crescimento verificado na esperança média de vida fez aumentar o número de indivíduos viúvos. A morte do cônjuge é descrita como uma das experiências mais devastadoras e desafiantes na vida de uma pessoa, ocupando o primeiro lugar na lista de eventos indutores de stress da Escala de Holmes e Rahe, utilizada para aferir o sofrimento psicológico e a sua relação com a suscetibilidade de desenvolver doença. Por sua vez, o aumento da prevalência de perturbações mentais verificada durante esta fase reflete-se num aumento das despesas em saúde e do absentismo laboral, contribuindo para o potencial agravamento da situação financeira destes indivíduos.

A transição para a viuvez implica a gestão de fatores indutores de stress que parecem influenciar negativamente a saúde global.  A longo prazo, associa-se a um aumento dos riscos de morbilidade e mortalidade, condicionado por fatores biológicos, comportamentais, sociais e de saúde mental.

Efetivamente, para além da perda emocional associada à morte do cônjuge, os indivíduos viúvos assistem ao desmoronar dos ambientes social e económico outrora partilhados pelo casal. Mais ainda, instala-se uma noção de ausência de identidade que impõe a necessidade de reconfigurar e reafirmar a própria individualidade e estilo de vida.

A viuvez associa-se a um aumento da prevalência de perturbações da saúde mental, como as perturbações depressivas e perturbações da ansiedade. Por conseguinte, não é com estranheza que se registam um aumento da procura dos cuidados de saúde mental e do consumo de psicofármacos em indivíduos viúvos, sobretudo aqueles utilizados no tratamento das perturbações do sono.

O risco de desenvolver comportamentos aditivos é superior no género masculino. No entanto, não deve ser descurado no género feminino já que um estudo demonstrou que quando comparadas com as mulheres casadas, as mulheres viúvas fumam mais, consomem mais álcool e medicação psicotrópica e reportam menos atividade física.

Com base nas características que definem a Medicina Geral e Familiar, posso inferir que a transição para a viuvez é uma etapa inevitável no acompanhamento longitudinal do doente, à qual deve ser atribuída a devida importância. Para tal, é fundamental nas primeiras consultas mapear a história psicossocial do doente – conhecer a sua história familiar, o estado civil e o respetivo agregado, bem como registrar ocasiões importantes no seu calendário, tais como aniversários (do cônjuge, do casamento e da data de morte), de forma a antecipar o sofrimento que estas poderão causar.

Adicionalmente, esta informação permite-nos alertar para os indivíduos mais frágeis, com maior risco de desenvolver complicações e que por isso beneficiem de um acompanhamento mais próximo. São particularmente vulneráveis as pessoas com antecedentes de problemas de saúde, indivíduos com pouco ou nenhum apoio familiar e ainda aqueles mais suscetíveis às adversidades financeiras, quer pela diminuição das receitas, quer pela eventual iliteracia financeira, tendencialmente a cargo de um dos elementos do casal.

É também importante considerar que os homossexuais, bissexuais, transexuais e transgéneros podem experienciar uma transição mais difícil quando o relacionamento não é reconhecido pela família e amigos, que poderão desta forma minimizar o sofrimento causado pela perda.

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Na transição para a viuvez torna-se necessário responder adequadamente às emoções, dando primazia à entrevista focada no doente, através de técnicas de comunicação como a reflexão, validação, suporte, respeito e aliança. Por sua vez, deve-se privilegiar um acompanhamento mais próximo e regular com o doente e a sua família.

Mais ainda, esta etapa constitui uma oportunidade para o médico de família reconhecer os problemas físicos e psicológicos do doente e planear intervenções personalizadas, de promoção da saúde e autocuidados, envolvendo sempre que possível a sua família e utilizando para tal os recursos comunitários. Este trabalho pode ser articulado com outros profissionais, como nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais e com instituições existentes na comunidade.

Nas situações em que a morte do cônjuge constitua um evento expectável, esta intervenção deve ser iniciada antes da própria perda, incentivando o cuidador e a sua família a cuidar também de si. Assim, a prestação de cuidados a doentes em fim de vida deve abranger também os seus familiares, sobretudo aqueles mais próximos.

Em suma, os indivíduos recém-viúvos encontram-se expostos a um conjunto de fatores potenciadores de stress que aumentam o risco da morbilidade psicológica e mortalidade. A meu ver, a proximidade e as características inerentes à Medicina Geral e Familiar colocam o médico de família numa posição privilegiada para acompanhar e intervir junto do doente e da sua família nesta transição. Além disso, o exercício da sua prática permite identificar e orientar os indivíduos que se encontrem em maior risco de desenvolver complicações e que por isso beneficiem de um acompanhamento mais próximo durante esta fase.

Referências

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(*) Teresa Maria Sousa – Médica Interna de Medicina Geral e Familiar da USF Santa Clara. Texto sobre viuvez publicado inicialmente no JornalMédico/Portugal, no dia 9 de junho de 2020. Reprodução autorizada.

Foto destaque: Italo Melo/Pexels


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