UFSCar e USP analisam uma década de atuação do gerontólogo no SUS, destacando avanços, desafios e caminhos para o cuidado à pessoa idosa.
No Brasil, um país em que o número de pessoas com 60 anos ou mais já ultrapassa os 32 milhões, os desafios em torno do envelhecimento populacional ganham contornos urgentes. O aumento da expectativa de vida, embora motivo de celebração, escancara lacunas estruturais, principalmente no campo da saúde pública. Neste contexto, a figura do gerontólogo, profissional com formação específica para lidar com as múltiplas dimensões do envelhecer, surge como uma peça ainda pouco reconhecida, mas fundamental na engrenagem do cuidado integral.
Um estudo conduzido por pesquisadores e docentes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP) chama atenção para a presença e o papel dos gerontólogos na Atenção Primária à Saúde (APS) nos últimos dez anos. Ambas as universidades são pioneiras na formação desses profissionais no Brasil e se destacam pelo compromisso com uma Gerontologia interdisciplinar e biopsicossocial.
A partir da análise de relatórios de estágios, práticas profissionais e de questionários aplicados a egressos e docentes dos cursos de Gerontologia, o estudo, recém publicado na Revista Kairós-Gerontologia, identifica ações, competências, barreiras e possibilidades de atuação do gerontólogo no contexto do SUS. Mais do que um mapeamento técnico, trata-se de uma leitura crítica sobre o lugar ainda incerto que esse profissional ocupa no cenário da saúde pública brasileira.
Atuação do Gerontólogo
A atuação do gerontólogo parte do entendimento de que a velhice não é uma fase homogênea nem estática. Envelhece-se de formas muito diferentes, influenciadas por gênero, raça, classe social, território e trajetória de vida. E, portanto, cuidar da pessoa idosa exige muito mais do que oferecer tratamentos médicos.
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Na Atenção Primária à Saúde, considerada a porta de entrada do SUS, a atuação desse profissional tem se revelado estratégica. O estudo mostra que a avaliação multidimensional da pessoa idosa, que leva em conta aspectos físicos, cognitivos, emocionais, sociais e ambientais, é uma das práticas mais realizadas.

Os gerontólogos também construíram planos de cuidado interdisciplinares, elaboraram estratégias educativas, realizaram rastreios cognitivos, conduziram grupos de promoção da saúde, mapearam redes intersetoriais e gestaram projetos comunitários. Tudo isso articulado ao trabalho das equipes multiprofissionais.
Tais ações demonstram que o gerontólogo não está restrito ao atendimento individual, mas atua como articulador de redes de cuidado, promovendo integração entre saúde, assistência social, família, comunidade e políticas públicas.
Formação do gerontólogo no Brasil
A profundidade da análise só foi possível graças ao acúmulo de experiências dos cursos de Gerontologia da UFSCar e da USP, iniciados em 2009 e 2005, respectivamente. Essas universidades públicas têm papel central na consolidação da Gerontologia como campo de conhecimento e de atuação profissional no Brasil.
Além de oferecerem formação interdisciplinar, baseada em fundamentos biopsicossociais, as instituições também promovem projetos de extensão e pesquisas que aproximam os estudantes da realidade das Unidades Básicas de Saúde. Iniciativas como o DGERO Brasil, vinculado à UFSCar, e a parceria da USP com o Centro de Saúde Escola do Butantã são exemplos de como a prática e a teoria caminham juntas na formação desses profissionais.
Os relatos de experiências revelam que a presença do gerontólogo nas equipes contribui para práticas mais integradas, sensíveis e acolhedoras. Provoca transformações nos modos de olhar, escutar e cuidar das pessoas idosas dentro do SUS.
A evolução da atuação do gerontólogo
Ao longo da última década, a atuação do gerontólogo na Atenção Primária à Saúde passou por uma evolução significativa. Se no início era marcada pela ênfase em avaliações pontuais e ações educativas, hoje ela abrange também a formulação de linhas de cuidado, a mediação entre setores, o suporte a cuidadores e a proposição de políticas públicas locais voltadas à população idosa.

Esse amadurecimento está diretamente relacionado à própria evolução dos currículos formativos, mas também à presença crescente dos gerontólogos em espaços de prática e pesquisa. Como descreve o estudo, “a atuação foi ampliada para incluir a elaboração de planos de envelhecimento saudável, com foco na construção de redes de apoio e ações intersetoriais”.
Ao assumir funções de coordenação, mediação e avaliação integrada, o gerontólogo se consolida como um profissional que opera entre as bordas do biopsicossocial, território e sistema, e entre a pessoa idosa e a rede de atenção. Trata-se de um profissional que requer escuta ativa, sensibilidade e conhecimento técnico.
Reconhecimento, mas ainda invisibilidade
Apesar dos avanços, a profissão ainda enfrenta entraves estruturais importantes. A pesquisa aponta que a principal barreira é o desconhecimento sobre o que faz um gerontólogo, tanto por parte de outros profissionais da saúde quanto pela população em geral.
Além disso, a falta de concursos públicos específicos, a ausência de formas de contratação estáveis e a não regulamentação da profissão dificultam sua inserção formal no SUS.
Mesmo assim, os dados revelam que, uma vez inseridos nos serviços, os gerontólogos conquistam reconhecimento. Muitos profissionais e gestores, inicialmente resistentes, passam a valorizar a atuação após conhecerem os resultados. Pessoas idosas e familiares também demonstram satisfação com a escuta diferenciada e o apoio contínuo oferecido por esses profissionais.
Por que o SUS precisa do gerontólogo?
A presença do gerontólogo na Atenção Primária à Saúde ainda não é regra, mas a pesquisa aponta que poderia ser. Sua atuação responde diretamente às diretrizes da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) e da Política Nacional da Atenção Básica (PNAB), ambas voltadas à promoção do envelhecimento ativo, da prevenção de agravos e do cuidado integral.
O reconhecimento dessa profissão passa, necessariamente, por políticas públicas de valorização, abertura de concursos, inclusão nas equipes de saúde da família e campanhas de informação que ampliem o entendimento da sociedade sobre quem é esse profissional e por que ele é necessário.
O estudo realizado pela UFSCar e USP reforça o que já se desenha nos territórios: não basta mais cuidar da doença é preciso cuidar da vida. E a vida das pessoas idosas é atravessada por vínculos, histórias, desejos, medos e potências que exigem um cuidado integral, contínuo e respeitoso.
Nesse sentido, o gerontólogo representa mais do que um novo profissional no SUS. Ele representa uma nova forma de olhar para o envelhecimento – mais justa, mais crítica e mais comprometida com o direito de todas as pessoas envelhecerem com dignidade.
Acesse a Revista Kairós-Gerontologia
(*) Sob orientação de Beltrina Côrte – Jornalista, CEO do Portal do Envelhecimento. E-mail: beltrina@portaldoenvelhecimento.com.br
Foto de Kampus Production/pexels.
