O Clube do Imperador

O Clube do Imperador

No percurso de Hundert, a generosidade e o idealismo são virtudes que irão nortear o seu modo de ensino em O Clube do Imperador, bem como toda sua vida dedicada aos alunos


Aqui estamos nós na Saint Benedict’s, tradicional escola americana para rapazes, com a boa companhia do correto, admirado e justo professor William Hundert (Kevin Kline), no filme O Clube do Imperador, 2002, direção de Michael Hoffman e roteiro de Neil Tolkin. Esse templo do saber é conhecido por receber os filhos da elite local, portanto há que se seguir as regras rígidas, convencionais e respeitosas. Citações de filósofos gregos e romanos não faltam: “o caráter do homem é o seu destino” e “o fim depende do início”.

Os princípios éticos e posicionamento firme em classe representam a tônica das aulas do Hundert até que certo dia o professor é mais ou menos atropelado com a chegada de Sedgewick Bell (Emile Hirsch), uma espécie de adolescente sem causa, filho de um influente senador. Nesse momento sua supremacia é desafiada pelo garoto sem qualquer constrangimento, percebe-se quase um desprezo pelos ensinamentos propostos pelo professor, temas quase sagrados a ele. As aulas já não seguem o mesmo ritmo.

Ao entrar em choque com o sistema de ensino de Hundert, Bell vai promover uma revolução na vida do docente. É como se tudo que ele acreditasse tivesse ruído como num passe de mágica. A fórmula, até então, de sucesso não mais funcionava.

Apesar da rebeldia e arrogância, o professor enxerga no jovem alguém com bastante potencial que só precisa de uma chance: ser acreditado. É nesse momento que o professor se fixa em sua capacidade de orientar, apoiar, quase “moldar” o caráter do garoto, missão que Hundert toma para si com todas as forças.

Bell parece responder aos estímulos, mas uma dolorosa traição, que envolve questões éticas, traz problemas para a relação estabelecida entre ambos, algo que se perpetua na juventude e posteriormente, quando numa oportunidade inesperada, Hundert se reencontra com Bell e outros estudantes da mesma classe, então adultos.

A Trapaça

Quando jovem, durante um concurso para o prêmio Júlio César, organizado pelo professor, Bell acaba burlando as regras e colando, mas como a sua posição social era privilegiada, os gestores da instituição não levaram a denúncia de Hundert sobre o acontecimento, pois provavelmente isto causaria desconforto e instabilidade, visto que o pai do garoto é um político de posição igualmente privilegiada.

A questão mais dolorosa para Hundert é o fato de que apesar de pregar a ética o tempo todo, ele falha em sua percepção sobre o estudante e também sobre a instituição. O sentimento é o de frustração, principalmente porque no processo seletivo dos finalistas para o tal concurso, Hundert altera os resultados e classifica Bell como um dos três selecionados.

Em sua concepção o rapaz tinha potencial e poderia não encontrar a mesma sorte futuramente. No entanto, para a sua decepção, Bell contraria todas as expectativas e questiona os valores pregados pelo professor, alegando que “a ética é uma construção, algo que não tem o menor valor em sua vida”.

O professor se vê novamente desafiado, frustrado, traído e ainda com a certeza de ter falhado com outro aluno legitimamente merecedor.

Ao longo dos anos, professor e estudantes seguem seus percursos, entretanto creio que Hundert seja aquele que mais tenha sofrido com os acontecimentos e aprendido lições que mudariam a sua forma de ver a vida.

Aqui o alicerce da moralidade em questão é a justiça/trapaça cujo desafio é propor um olhar reflexivo sobre as questões morais/existenciais, professores que não sejam meros reprodutores de ideias, profissionais capazes de compartilhar saberes seguindo princípios éticos para um bem viver, disseminando benefícios para todos: alunos e sociedade.

Os gatilhos originais dos acontecimentos são representados pelas conexões sociais para angariar fundos, mesmo não respeitando os princípios éticos, o que acaba levando a instituição a não considerar a denúncia do professor.

Já os gatilhos reais representam a desconsideração dos princípios éticos, fato gerador do sentimento de traição sofrido pelo professor, e pior: vindo do aluno em que ele depositou toda sua energia em “salvá-lo” do mal caminho. Além, claro, da própria instituição ao desconsiderar a denúncia.

As emoções características de todo processo vivido por Hundert foram: decepção (por ter acreditado), frustração (por ter errado em sua avaliação), raiva (é mesmo possível que Bell e a instituição tenham me traído?) e descontentamento (não apenas pelo evento e sim por todo um modo de perceber e avaliar).

As virtudes relevantes e que devem ainda permanecer, pelo menos é assim que o professor pensa a relação professor/aluno são: a confiabilidade mútua, o respeito intrínseco e a generosidade com o outro.

Para Kevin Kline, ator com forte carga expressiva, Hundert é um estudo de um homem fascinante, um personagem que faz eficientes conexões entre o passado e o presente, com um método de ensino focado em sua devoção pela atividade que desenvolve. Tendo esta vocação para o ensino, ele é o “modelo de um professor de verdade”, um personagem quixotesco se pensado nos valores que prega e na realidade em que está inserido, alguém “iluminado”.

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Como tudo nessa vida guarda o seu oposto, Hundert ainda enfrenta a visão pragmática do colega (o mesmo indicado por ele a trabalhar na escola), a tal visão de futuro, preocupada em angariar fundos e estabelecer conexões sociais que mantenham a escola, mesmo que os novos formatos não respeitem os princípios éticos perpetrados por Hundert ao longo da sua carreira na instituição.

Hundert é o contrário do que Rubem Alves chamou certa vez de “dadores” de aula, ou seja, profissionais que entendem a sala de aula como um local apenas para reproduzir regras gramaticais, fatos históricos e fórmulas matemáticas.

Ao trazer para a classe discussões tradicionais, revestidas de um olhar reflexivo, não meramente reprodutor, nosso professor ganha a confiança dos estudantes e se revela alguém que marca a vida desses jovens para sempre.

No percurso de Hundert, a generosidade, acima de tudo, e o idealismo são virtudes que irão nortear o seu modo de ensino, bem como toda sua vida dedicada à instituição e aos seus estimados alunos.

Um agradecimento a todos os professores que, com delicadeza e atenção, ajudaram-me a estar aqui hoje.

E… especialmente ao meu professor do coração, gratidão por existir em minha vida e na vida de tantos alunos.

A Psicologia Moral e o Cinema – parte I

Procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as ações humana,
mas entendê-las.
(Baruch Spinoza, Tratado Político, 1676.)

Jonathan Haidt, em sua obra “A Mente Moralista”, afirma que a natureza humana não é apenas intrinsecamente moral; ela é intrinsecamente moralista, crítica e propensa ao julgamento.  No decorrer de seu trabalho ele tenta demonstrar que a obsessão pela moralidade (que leva inevitavelmente a um senso de superioridade moral) é a condição humana normal, tornando-nos para sempre amaldiçoados pelo conflito moral ou dilema moral.

Seu livro é dividido em três partes, três princípios da moralidade.

O primeiro explica que as intuições morais surgem de forma automática e quase instantânea, muito antes que o raciocínio moral tenha a chance de começar (habilidade que nós humanos desenvolvemos para facilitar nossos interesses sociais, justificar nossas próprias ações).

A parte dois trata do segundo princípio: a moralidade envolve mais do que dano e justiça. A última parte traz a ideia de que a moralidade agrega e cega, ou seja, somos de fato hipócritas egoístas tão habilidosos em encenar a virtude que enganamos a nós mesmos.

O filme O Clube do Imperador desenvolve um pouco as ideias de Haidt. Mas há outros que julgo importantes e fundamentais para retratar e entender a mente moralista. São eles: Um Grito no Escuro, Furyo – Em nome da honra, O Valor de um Homem e Relatos Selvagens.

O estudo foi feito com base nos cinco alicerces da moralidade: cuidado/dano, justiça/trapaça, autoridade/subversão e pureza/degradação.


Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Membro da Comissão Editorial da Revista Kairós-Gerontologia. Coordenadora do Blog Tempo de Viver do Portal do Envelhecimento. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected].

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Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Membro da Comissão Editorial da Revista Kairós-Gerontologia. Coordenadora do Blog Tempo de Viver do Portal do Envelhecimento. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected].

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