Mulheres que transformam duras lembranças em arte

O livro “O que os Cegos Estão Sonhando?” conta a saga de Lili Jaffe que em abril de 1945, cerca de um ano após ser presa pelos nazistas foi enviada como prisioneira para Auschwitz. Já Alice Herz-Sommer, pianista tcheca e outra sobrevivente do Holocausto, é outro exemplo do uso da arte como recurso para sobrevivência. Algumas vezes, diante de certas lembranças, o melhor é esquecer. Mas o que fazer quando elas insistem e gritam a todo o momento para que sejam ouvidas e consideradas, mesmo que insuportáveis?

 

 

mulheres-que-transformam-duras-lembrancas-em-arteNa matéria de Marco Rodrigo Almeida sobre o Livro “O que os cegos estão sonhando” enfrentamos um pouco do que seja transformar uma vivência amarga, uma lembrança dolorosa em literatura das mais delicadas e envolventes.

Almeida conta sobre os alicerces da obra e suas personagens: “Uma imagem assombra Noemi Jaffe desde a infância: a mãe em Auschwitz, ajoelhada sobre cascalhos, sustentando uma pedra na cabeça. Lili tinha 17 anos. Era 6 julho de 1944, e ela chegara com os pais e o irmão havia dois dias no campo de extermínio nazista na Polônia. Da família, só os filhos sobreviveram. Noemi, 50, escritora e colaboradora da Folha, odiou durante toda a vida o oficial nazista que aplicara tal castigo e sempre quis saber mais sobre o passado da mãe.

Já Lili, hoje uma simpática senhora de 86 anos moradora de Higienópolis, zona oeste de São Paulo, preferiu esquecer tudo. No fim da guerra, em 1945, ela escreveu um diário sobre o período em que esteve cativa. Depois, diz não ter pensado mais a respeito do assunto.

No braço, ela conserva tatuada a inscrição A 16334, método que os alemães usavam para identificar os prisioneiros”.

Talvez, porém, esquecer ou lembrar tudo sejam tarefas igualmente irrealizáveis. Dessa inviabilidade nasceu o livro “O que os Cegos Estão Sonhando?”, escrito a seis mãos por avó, filha e neta”.

É inquietante pensar que a experiência vivida pela avó passa muito mais pela dor de filha e neta do que da própria que tudo viveu na carne: “Se para filha e neta a herança da guerra é algo a um só tempo incontornável e incompreensível, Lili diz acreditar que foi simplesmente algo traçado por seu destino. Para ela, é mais do que óbvio que nada é casual”.

“Tudo já estava determinado, não podemos escapar do que foi traçado. Quem iria dizer que eu estaria viva até hoje, que teria uma família tão bonita?”, diz Lili.

Seria esse um consolo para suportar a lembrança e ainda transformá-la numa história real com início, meio e fim?

“Revendo a sua trajetória, parece claro para Lili que foi graças à guerra e ao diário, hoje parte do acervo do Museu do Holocausto (em Israel), que conheceu o seu futuro marido e veio parar no Brasil. Ela vivia em sua cidade natal, Szenta (atual Sérvia), quando foi presa pelos nazistas, em abril de 1944.

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No campo de concentração, ela foi separada dos pais e do irmão e colocada junto a três primas. Foi para proteger uma delas que Lili assumiu uma falta que não cometeu, furtar margarina da cozinha do campo, e recebeu o castigo que tanto perturbou Noemi.

Além da pedra carregada por duas horas na cabeça, os diários relatam a fome e o frio intensos, as doenças e o permanente desconforto”, conta Almeida.

Quem espera um livro repleto de lágrimas e amargura, esqueça. Livre de sentimentalismos ou autocomiseração, Lili diz: “Era algo terrível, mas, ainda assim, ríamos”.

mulheres-que-transformam-duras-lembrancas-em-arteAlice Dancing Under The Gallows: a música como alimento de esperança e magia da vida

A pianista tcheca Alice Herz-Sommer (novembro, 1903), outra sobrevivente do Holocausto atribui seu enorme otimismo – mantido apesar das duras experiências pelas quais passou (duas Guerras Mundiais, campo de concentração, morte do marido e do único filho) – aos seus muitos anos de vida: “Eu sei das coisas ruins, mas eu olho somente para as coisas boas”, disse ela, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, em dezembro de 2006.

Sobre a importância da música em sua vida, Herz-Sommer diz: “As pessoas perguntavam – ‘Como você pôde fazer música?’. Nós estávamos tão fracos. Mas a música era especial, como uma magia, eu diria. Eu dei mais de 150 concertos lá. Existiam músicos excelentes lá, realmente excelentes. (…) A audiência era principalmente de pessoas mais velhas – pessoas muito doentes e pessoas infelizes – mas eles vinham aos nossos concertos e isso era a comida deles”.

“Em qualquer caso, a vida é bela, muito bela. E quando você está velho, você a aprecia mais. Quando você é mais velho, você pensa, você se lembra, você se importa e você aprecia. Você é grato por tudo. Por tudo!”

Referências

ALMEIDA, M.R. (2012). Avó, filha e neta contam horror da guerra em Auschwitz. Disponível Aqui. Acesso em 10/11/2012.

CUNHA, C. & LOPES, R.G.C. (2011). Elderly Couple of 62 years plays piano. Revista Portal de Divulgação. Disponível Aqui. Acesso em 10/08/2011.

JAFFE, N. (2012). O que os cegos estão sonhando. São Paulo: Editora 34.

VÍDEO. Elderly Couple of 62 years plays piano. Disponível Aqui. Acesso em 23/11/2010.

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