Que momento é esse que as mulheres contemporâneas estão vivendo hoje? Acho que podemos arriscar algumas respostas. Em primeiro lugar vivemos um tempo em que o cuidar de si (de A à Z) é muito valorizado e divulgado pela mídia. A começar pelos milagrosos cremes, tratamentos estéticos, cirurgias plásticas – hoje mais acessíveis a todos os bolsos – até os aconselhamentos, orientações e alertas dos especialistas em programas de televisão para a importância dos cuidados médicos, concluímos que tudo isso faz uma enorme diferença na forma como conduzimos e tratamos nossas vidas.
Somos, então, devorados por uma linguagem fácil, compreensível e agradável. Mas pensar que, apenas isso, é suficiente, cometeríamos um erro quase mortal. Não podemos esquecer de quem sempre somos, da construção de nós mesmos ao longo da vida e que nos fez assim e, mais ainda, daqueles valores que trazemos “lá de casa”. É isso mesmo, aquela coisa íntima, que vem da mamãe, da vovó, da tia tresloucada ou da vizinha moderninha da infância.
Como uma receita de bolo: um pouquinho de hoje, uma pitadinha de ontem e talvez um montão dos anos vividos; assim nascem as mulheres que somos hoje. Com esse espírito chegamos nas palavras e na vida de Amarilis do Nascimento, aposentada, 72 anos: “Sempre que chego a algum lugar, as pessoas dizem que eu estou bem arrumada e que eu sou vaidosa. Ao acordar pela manhã, meu filho já sente o cheiro do meu perfume”, citada na matéria “Mulheres chegam à terceira idade com vaidade e disposição”, assinada por Jorge Júnior e publicada no Acessa.com.
Amarilis diz à reportagem que aproveita “intensamente a terceira idade, ou a melhor idade, como ela define o momento atual”. Com relação à beleza, ela confessa, orgulhosa: “Sempre fui assim. Eu gosto de ficar em frente ao espelho, me maquiando e passando creme. Dizem que eu sou igual a minha mãe”.
Outra mulher citada na matéria que, a exemplo de Amarilis, segue o mesmo estilo de vida, a mesma dedicação com a aparência é Vilca Moreira de Oliveira, aposentada, 77 anos e oito meses, como ela mesma faz questão de destacar: “Faço 78 no próximo dia 27 de agosto”. Vilca diz que a sua vaidade é herança da mãe: “Desde os 14 anos já usava os cremes dela, então, eu mantive os costumes”. Ela conta que quando acorda, já toma banho e se arruma para sair: “Se eu ficar em casa eu fico arrumada, se eu for sair eu já estou pronta”.
Como estética não é tudo, Amarillis e Vilca garantem que vivem cada momento: “Além de estar aposentada, não tenho preocupação em criar meus filhos, netos e nem cuidar do marido”, diz Vilca. “Não tenho hora certa. Antes, eu trabalhava como doméstica e, no meu emprego, eu tinha hora para chegar, mas nunca para sair. Além disso, também criei meu filho e netos”, reafirma Amarillis.
Vilca participa há dez anos das atividades do Centro de Convivência do Idoso da Associação Municipal de Apoio Comunitário (Amac) de MG: “Eu sou doida com baile e adoro dançar. Na Amac, eu cuido da minha saúde física e mental. Já sai com destaque do Carnaval, fui rainha da primavera e ganhei o concurso de beleza na categoria da minha idade”, conta envaidecida.
“Procuro me manter em contato com outras pessoas para não ficar reclamando dos problemas da vida”, conta Vilca. “Os idosos têm que largar as muletas e vir dançar. A gente não pode ficar pensando no envelhecimento, senão é pior”, completa Amarillis. “Isso aqui é só sorriso e alegria, é muito bom”, rebate Vilca.
A opinião dos estudiosos
Elisabeth Murilho da Silva, doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que a partir dos anos 50 a juventude passou a ser algo mais valorizado e isso teve impacto nas novas gerações: “Após a década de 1970, todas as gerações passaram a se guiar por um princípio de valorização da juventude e, de outra parte, a melhora nas condições de vida na maioria das sociedades ocidentais aumentou a longevidade. Nesse sentido, todas as faixas etárias foram, aos poucos, rejuvenescendo e, com isso, ganhando novos papéis na sociedade”.
Isabela Monken, professora doutora do Instituto de Artes e Design da UFJF, assinala que a partir dos anos 60, com os movimentos da contracultura e com o advento da moda jovem, a juventude aderiu-se de forma perpétua ao universo da moda e de sua história (…): “Com o avanço tecnológico e científico, assistimos hoje a um aumento da expectativa de vida, o que permite ao indivíduo prolongar a existência e torná-la melhor. Nesse sentido, a população de idosos tem crescido significativamente, inclusive como importante mercado consumidor também no mundo da moda”.
Isabela fala da importância do apelo estético como uma espécie de “convocação para se “viver a beleza e o estilo, ainda que tenham de ser construídos pelas intervenções estéticas ou estilísticas individuais”. Ela explica: “A beleza física deixou de ser algo nato e passou a ser considerada uma opção do indivíduo. No imaginário contemporâneo, a beleza aparente é vista sob a ótica do esforço/recompensa (…)”.
Para a pedagoga da Amac, Helaine Simões Soares, atualmente existe um novo perfil de idoso: “Os idosos não têm mais aquele perfil de ficarem sentados na cadeira de balanço, fazendo tricô e crochê. Percebemos uma preocupação visível com o intelectual, o físico e bem-estar. Cada vez mais, os idosos estão procurando uma qualidade de vida melhor”.
Mulheres que ousam
E foi na onda do surgimento dessas novas mulheres, suas memórias e a Cidade de São Paulo que surgiu a exposição fotográfica “Retrato Delas Com Suas Fotos”, que aconteceu no início de maio na Rodoviária de Campinas. O ensaio compreendeu os retratos de 16 mulheres entre 64 e 86 anos.
O projeto é de autoria da fotógrafa Tika Tiritilli e a preparação corporal foi feita por Mônica Sucupira, que utilizou recursos do teatro para fazer a preparação para a exposição fotográfica. Através de exercícios específicos, essas senhoras foram motivadas fisicamente a percorrerem suas memórias. Ultrapassando limites de idades, físicos e até pequenos problemas de saúde.
A pergunta final foi: “O que levaria da cidade de São Paulo, se tivessem que ir embora dela, para sempre?” As respostas, ou os depoimentos, se tornaram fotos delas, ou fotos de suas memórias. A fotografia final da exposição foi realizada com a projeção feitas por elas em seus próprios corpos, surgindo o retrato delas com suas fotos, com suas memórias, com suas histórias de São Paulo.
Referências
JUNIOR, J. (2012). Mulheres chegam à terceira idade com vaidade e disposição. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.
CAMPINAS (2012). Exposição fotográfica na Rodoviária de Campinas exibe mulheres da terceira idade como modelos. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.