Maria Liga Rosa, 63 anos

Maria Liga Rosa, 63 anos, cabeleireira, Membro do Conselho Municipal do Idoso, Voluntária da Casas André Luiz e Conselheira Gestora do Posto de Saúde Vila Espanhola.

Marisa Feriancic

 

Mãe, mulher, sogra, avó, cabeleireira, fotógrafa, cuidadora, conselheira. Liga batalhadora, alegre e otimista desempenhou com galhardia todos os papéis que a vida lhe atribuiu e outros que ela se impôs. Dizer que nunca teve momentos de desespero seria uma mentira, como ela mesma afirma.

Cuidadora e psicoterapeuta nata, a genética e a acuidade emocional, lhe trouxeram equilíbrio para lidar com os duros enfrentamentos que a apareceram em seu caminho. Maria Liga perdeu 3 filhos e a única irmã que ela gostava tanto.

Ela me conta e me ensina como viver tantas perdas e continuar acreditando na vida, no potencial humano, na solidariedade, na justiça e na alegria de viver. Conversamos durante horas em sua casa no Bairro da Casa Verde, em São Paulo. Casa simples, aconchegante e mística. Existem fotografias espalhadas pelas paredes da casa. Porta-retratos em todos os cantos evidenciam a lembrança e a saudade das pessoas queridas que se foram muito cedo. Um bilhete do filho pendurado na parede da sala datando de 1984, preserva lembranças do tempo que ele ainda estava fisicamente presente em sua vida.

Maria Liga, (pronuncia-se Lija), nasceu em 25 de fevereiro de 1943, em Bebedouro. Ela me diz:

Sou Maria Liga, filha de Ligia Amaral Rosa e Mario Rosa. Quando meu pai foi fazer meu registro, pronunciou meu nome errado e fiquei Liga ao invés de Ligia.

A infância

Liga aos 5 meses, com o pai

Meus pais moravam em São Paulo, mas nasci em Bebedouro, quando minha mãe foi para a casa da minha avó materna para dar a luz. Tive uma infância feliz, não posso reclamar. Morávamos no bairro da Vila Mariana, na Rua Rio Grande. Meu pai era cobrador de bonde, mas a vida era difícil e o dinheiro era pouco. Quando tinha 2 anos, nasceu minha irmã Maria Lucia. Sempre fomos grandes amigas. Pena que ela faleceu cedo.

Eu dava muito trabalho e aos 3 anos minha mãe me colocou na Escola de Educação Infantil Marina Portugal. Naquela época escolinha para brincar e eu gostava muito. Lá eu aprendi balé e a declamar poesias. Outro dia minha mãe me entregou um bilhete daquela época onde dizia: Senhora Rosa, esperamos Maria Liga para os ensaios mesmo que chova”.

Eu era a única negra na escola. Não tinha nenhuma criança escura na escola. Isso chamava atenção, mas nunca tive problemas, ao contrário, eu era o chodó, era o chocolatinho da escola. Tenho uma foto dessa época. Estamos todas de vestidinho branco. Estou no meio das meninas.

Quando saí do Marina Portugal, fui para a Escola Estadual Marechal Floriano, onde estudei até a 4ª série, do antigo primário.Depois estudei na Escola Rodrigues Alves, na Av. Paulista, onde fiz a 5ª e a 6ª serie do antigo ginásio. Ainda na 6 ª série, estudei um pouco no Colégio Ipiranga e depois parei de estudar.

Quando ele saiu da Empresa de ônibus foi trabalhar como jornaleiro. A banca de jornal ficava na Avenida Domingos de Morais e existe até hoje. Meu pai era muito conhecido no Bairro. Minha mãe trabalhava no setor de lavanderia do Hospital Heliópolis, para ajudar meu pai. Ela era semi-analfabeta. Aprendeu a ler e escrever sozinha. O sonho dela era estudar e me ver estudando, formada. Ela estava com 55 anos, eu já tinha meu filho mais velho, quando ela foi fazer o curso supletivo no centro da cidade, na praça João Mendes.

Em 1983 meus pais se separaram, ele casou-se novamente e formou outra família. A esposa dele cuida da banca de jornal até hoje.

As grandes perdas

Em 1995, meu pai faleceu. Senti muita sua morte. Era muito apegada a ele. Ele estava entregando jornal quando foi atropelado por um ônibus, bateu a cabeça e foi para o Hospital Municipal. Nessa mesma época meu filho Carlinhos estava internado nesse hospital. Meu filho, no 12° andar, e meu pai internado no 11° andar. Foi uma fase muito difícil, mas consegui superar. Meu pai era padrinho desse meu filho. Meu pai teve traumatismo craniano e faleceu. Depois de um mês meu filho também faleceu.

Minha mãe não se casou novamente. Ela sempre foi mais rígida e mais autoritária que meu pai. Ele sempre foi muito liberal, mais brincalhão, mais maleável. Eu e minha irmã tínhamos um relacionamento melhor com ele. Quando minha irmã morreu, meu pai quase enlouqueceu de dor.

Eu e a minha mãe nos damos bem, mas não ficamos muito próximas. Só vou me aproximar mais quando ela precisar. Ela ainda está bem, ainda não precisa de mim. Ela vai ao banco, viaja, se cuida bem, é independente, tem boa saúde e cuida da casa.

As perdas foram duras, mas ganhei em experiência, em vivência. Aprendi muito com elas. Não sei de onde eu tirei tanta força. Acho que foi de Deus. Existe uma diferença muito grande. Mãe e pai é uma coisa, filho é outra. Eu não aceitava que meu filho fosse embora. É uma dor muito grande. Eu dizia para meus amigos: não vou agüentar, não quero ver ele morrer. Tínhamos uma grande admiração um pelo outro. Às vezes eu achava que não iria suportar, que entraria em desespero.Tantas coisas que me aconteceram, é duro lembrar. Mas a gente se recupera, temos que acreditar.

Em 1977 perdi minha irmã Maria Lucia, com apenas 32 anos. Faleceu no parto da minha sobrinha. Foi sua primeira gravidez. Meu pai ficou desnorteado. Ela era muito boa, fazia tudo, ajudava a todos. Quando meu primeiro filho nasceu eu era muito nova, tinha só 19 anos. Minha irmã sempre me ajudou muito. Cuidava dos meus filhos para eu poder trabalhar. Dizia que não iria ter filhos, que já tinha os meus. Foi uma figura importante na minha vida e na vida deles. Era ela quem levava eles ao médico quando precisava. Meu cunhado ficou morando com a minha mãe e nós ajudamos a criar minha sobrinha. Ela cresceu bem, está linda. Meu cunhado casou-se novamente e essa mulher foi uma verdadeira mãe para a minha sobrinha.

Quando me casei tinha 19 anos e o meu ex-marido, Sandoval, 31 anos. Ficamos juntos 8 anos, mas não foi um bom casamento. Nem sei porque nos casamos. Nosso relacionamento era muito ruim. Sexo era obrigatório, horroroso, doloroso. Não tinha carinho e nem prazer. Nada. Era péssimo, muito ruim. Acho que meu casamento não deu certo porque eu era muito mais nova, inexperiente, e ele muito agressivo. Hoje não guardo mágoa. Ele se casou novamente e constituiu família.

Tive 5 filhos. Hoje tenho só uma filha com 39 anos e um rapaz com 33 anos.

A gravidez do meu primeiro filho foi muito difícil. Engravidei pela segunda vez e tive uma menina, a Débora. Naquela época nem pensava em preservativos. Passei uma gravidez muito tensa. Uma tarde estranhei que ela não acordava e quando a peguei, ela praticamente morreu nos meus braços, ela tinha 4 meses. Tivemos que registrar na delegacia, foi horrível. Fizeram autópsia e deram como causa da morte problema cardíaco.

Quando fiquei grávida da minha terceira filha, tinha medo de perdê-la. Lembrava da filha que tinha morrido, e pensava: não vou saber criar mais, deixei minha filha morrer. Sofri muito com isso. Após 8 anos de casada, me separei e fui morar na Vila Mariana junto com minha mãe.

Depois de um tempo, conheci uma pessoa e tivemos uma paixão. Fiquei grávida pela 4ª vez, mas a pessoa era comprometida. Tive o bebê que nasceu com problemas do pulmão e com 15 dias ele faleceu. A perda desse nenê eu passei sozinha. Foi muito difícil. Eu estava no hospital com meu bebê, aí chegou uma freira e me comunicou que ele havia falecido. Estava muito fragilizada, completamente perdida e ela percebendo, falou para mim: tem um senhor que faleceu agora pouco e o corpo vai para um cemitério da Penha. Você não quer colocar o bebê junto dele? Eu falei: pois não, a senhora pode colocar. Era alguém que eu nem conhecia, eu nem consegui pensar direito. Foi muito doloroso.

Aos poucos fui superando tudo isso, com o tempo, com o trabalho, com os filhos, com os netos que precisavam de mim e com o carinho também. Não podemos guardar mágoas. Ela nos faz mal. Pessoas magoadas estão sempre doentes.

Trabalhava num salão de beleza na Galvão Bueno, quando engravidei do meu 5º filho. Um dia, o rapaz que trabalhava comigo no salão disse: nega, eu vou te pôr uma peruca. Eu saí do salão com uma peruca comprida, toda bonitinha, com uma saia de couro e nesse dia conheci um rapaz. Quando avistei esse rapaz, foi olho no olho, e nos apaixonamos. Foram dias maravilhosos juntos, mas descobri que ele era casado e como a esposa não podia ter filhos, ele queria o bebê para a casa dele. Eu disse que de forma nenhuma eu daria meu filho. A partir dali eu me afastei dele. Ele se preocupou comigo durante a gravidez, mas eu nunca quis ajuda. Hoje meu filho está com 33 anos.

Quando saí da casa da minha mãe fui morar na Rua Tabatinguera e em 1981, vim morar aqui na Casa Verde.

Cuidadora, Mãe e avó

Meu primeiro filho, Carlinhos, faleceu em 1995, com 32 anos, é o pai da neta que mora comigo. Quando ele tinha 18 anos conheceu uma moça e eles se apaixonaram. Ela engravidou e teve um bebê; é meu neto mais velho que hoje está com 23 anos. Depois de um tempo eles se separaram. Após a separação, meu filho, que era usuário de drogas, contraiu Aids.

Depois de um tempo a ex-esposa teve outro relacionamento, engravidou e teve 1 um casal de gêmeos. Eles cresceram muito bem e estão lindos. Já são adolescentes e moram com a avó materna. Após um tempo, ela também contraiu Aids e separou-se desse companheiro.

Um dia meu filho chegou em casa e disse: – Mãe, eu vou voltar com ela (a ex-mulher dele), vou ajudá-la a criar as crianças (casal de gêmeos). Eles se uniram pela doença, casaram-se e ficaram juntos. Ela engravidou novamente e teve uma filha. É esta neta que mora comigo. Na época, a médica brigou muito com eles. Mas graças a Deus, minha neta nasceu bem, fez acompanhamento por muitos anos, já foi liberada, está maravilhosa e nunca teve nenhum problema de saúde.

Meu filho faleceu em 1995 quando minha neta tinha um ano. Em 2002, minha nora também faleceu e eu trouxe minha neta para morar comigo. Ela está bem, é estudiosa, somos grande companheiras. Tenho 7 netos e o próximo já está chegando. Sou apaixonada por todos. Não faço distinção nenhuma. Todos são meus queridos. Gosto de conversar com eles e ficar vendo fotos. Meus netos adoram ver minhas fotos e conversar sobre minhas histórias

Cúmplices do amor

Eu sempre estive perto do meu filho e de minha nora, mesmo não estando de acordo com as coisas que eles faziam. Quando eles voltaram a morar juntos estavam doentes, precisei ficar atenta. Eles precisavam de mim. Eu nunca deixei de amá-los. Mas eles me enganavam gostosamente. Eles falavam: mãe, vem para cá, vem para casa ficar com a gente. Quando eu chegava lá eles estavam com aquela cara “chapada”. Eu fingia que não via nada, mas ia embora triste. Eles sabiam que não estavam me enganado. Mas a gente se levou no amor. Cuidei da família inteira. Um dia encontrei a médica que acompanhou a doença deles e ela disse para minha neta: você foi filha do amor. Por isso você nasceu bem.

Carnaval na Bahia – A paixão verdadeira
Em 1976 conheci o Jerônimo, no Carnaval da Bahia. Namoramos, casamos e estamos juntos há 30 anos. Era Carnaval e fui para a casa de uma amiga, na Bahia. Foi lá que eu conheci o Jerônimo. É um grande companheiro. Eu tinha muito medo que ninguém me aceitasse com os meus filhos. Sempre que eu conversava com alguém eu citava o nome das crianças. Depois de um ano que nos conhecemos, Jerônimo veio para São Paulo morar comigo.

Tive muitos problemas de doenças, drogas, e ele sempre esteve ao meu lado me apoiando. Meus filhos sempre foram muito ligados à ele. Ele sempre me apoiou em tudo. É um marido amigo. A gente vive bem. Ele acompanhou toda minha trajetória, com os problemas da família, e olha que não foram poucos. Na época, talvez eu não soubesse perceber. Hoje eu agradeço ter conhecido ele. Jerônimo era mais novo, solteiro e, eu, uma mulher com tantos problemas. Não tivemos filhos, mas ele tinha esse sonho. Os filhos dele foram os meus, os netos deles são os meus. Ele ajudou a criar minha neta. É um avô maravilhoso, adora os netos e todos se dão muito bem com ele.

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A paixão por fotografias

Em cada cantinho da casa tem fotos. Na parede, nos porta-retratos, na pilha de álbuns. Liga tem fotos distribuídas pela casa toda. Na varanda da casa tem um cantinho, com muitas relíquias na parede. Além das fotos, Liga coleciona conchas de animais marinhos e pedras brasileiras. Todos esses cantos com fotos e também uma homenagem àqueles que já se foram. Liga conta-me o porquê das fotos:

Quando eu morava com a minha mãe, todo mundo tinha máquina fotográfica e eu não. Eu sonhava em ter uma máquina fotográfica. Quando eu consegui comprar uma usada, comecei a tirar fotos. Você não calcula quantas fotos eu tenho. Meus vizinhos sabem que eu gosto de tirar fotos e às vezes chega alguém perguntando se eu tenho filme na máquina. Eles sabem que eu sempre tenho. Fotografo tudo.

Esse prédio pequeno ao lado da minha casa tinha um abacateiro grande que era referencia da rua. Chamaram os bombeiros para cortar e eu fotografei tudo. Os bombeiros não estavam entendendo nada, eles cortando a árvore e eu tirando fotos do abacateiro.

As fotos e essas frases que eu coloco espalhadas pela casa, representam cada uma, um pedacinho da minha vida. Uns pedaços bons outros não. Nem sei explicar direito o que é. São recordações. Gosto muito de pedras também. Quando alguém quer me dar um presente eu peço uma pedra. Faço coleção de pedras brasileiras.

O trabalho

Sou cabeleireira de profissão, mas trabalho muito mais em outras como voluntária. Atendo num pequeno espaço na minha casa. Comecei com alisamento de cabelo há mais de 40 anos. Hoje só atendo com horário marcado e bem menos do que antes. Quando mudei para cá, em 1981, tinha muitas pessoas no bairro que faziam alisamento de cabelo, mas eu trouxe minhas freguesas comigo. Trabalhei muito, muito mesmo. Já ganhei bastante dinheiro. Quando eu mais precisei, na época que meu filho estava doente o dinheiro chegava. Hoje ganho pouquinho. O tempo que eles precisaram de mim eu dei conta. Agora está bom assim. É o suficiente. Sou muito ocupada, acho gratificante ajudar as pessoas. Alimenta minha alma.

A ativista política – a voz da usuária

Faço parte do Comitê de Bairro para melhorias do serviço da Comunidade da Casa Verde. Somos 45 Conselheiros. Eu integro a região norte. A função do Conselheiro é levar problemas que a comunidade idosa tem. Tenho estudado bastante. O Conselho Municipal do idoso tem nos proporcionado cursos de capacitação em várias áreas para atuar melhor em cada segmento. Eu ainda não tenho um espaço físico para trabalhar, mas já estou ajeitando um lugar.

Também faço parte do Conselho Gestor do Posto de Saúde da Casa Verde Alta. O Conselho Gestor Atua junto com a dirigente do Posto de saúde para verificar as necessidades de atendimento da comunidade. Somos em 8 pessoas no Conselho Gestor. Somos a voz do usuário. Verificamos a atuação de médicos, falta de medicamentos, e a eficiência nos atendimentos.

Conseguimos algo inédito. Afastamos um médico do posto de saúde pela falta de qualidade no atendimento. Esse médico nem olhava na cara do paciente. Ouvimos a comunidade atendida e assim conseguimos afastar o médico do posto. Ele ficou muito bravo, mas não tinha o que fazer. Nós representamos a comunidade e tínhamos anotadas todas as queixas das pessoas. A dirigente ouviu a gente, e ele foi chamado. Na reunião final, estava presente a dirigente do posto e a secretária da saúde. Tínhamos tudo documentado por escrito e a dirigente me falou: Liga, lembra ele das queixas. Ele retrucou, mas não adiantou.

Foi uma vitória muito grande. Sentimos a importância do nosso movimento e do nosso trabalho. Nem foi um processo muito demorado, a dirigente do posto sempre foi muito ativa. Não são todos postos de saúde que têm conselheiros. Faltam pessoas interessadas em participar. As pessoas precisam se dedicar a alguma atividade voltada para a comunidade, não podem ser omissas. A dona de uma lojinha aqui perto de casa foi convidada para o conselho gestor e me convidou também. Eu não sabia nem o que era e perguntei a ela em que poderia ajudar. Ela me falou se eu também queria participar. Achei que poderia tentar. Combinamos que iríamos pegar o material para ler. Peguei as apostilas sobre o estatuto e li tudo. Nunca tive preguiça de aprender. Fiquei entendendo o que era o Conselho Gestor e vi que poderia ajudar. Temos uma reunião por mês para discutir os trabalhos. Verificamos se está faltando remédio no posto, ouvimos as reclamações dos usuários e registramos tudo. Ouvimos falar de dinheiro na cueca, mas não de dinheiro para o remédio.

O usuário tem que se informar, tem que se interessar. Ele acha que o posto tem que dar conta de tudo, mas não sabe que a ordem vem de cima. Mas ele vem sapatear aqui. Eles têm que entender que nem tudo depende da gente e também aprender a colaborar e participar. Tem que ajudar, não é só reivindicar. Meu trabalho pode ser pequeno, mas é de grande valia. Todos os postos deveriam ter pessoas da região interessada em participar. Isso reverte em benefícios deles próprios. Aqui na minha região o trabalho está bem organizado, temos muitas pessoas trabalhando.

A participação no Conselho Municipal do Idoso

Sempre gostei de política. Leio muito, gosto muito de ler e de escrever. Aprendo tudo através da leitura. Minha mãe também gostava de ler. Ela era fã do Mario Covas, adorava ele. Foi através da TucanIdade que cheguei ao Conselho Municipal do Idoso. O PSDB criou o núcleo da terceira idade, chamado tucanIdade, um segmento do partido com o objetivo de discutir as políticas de inclusão, permitindo que pessoas mais velhas, pela sua experiência e sabedoria, ser efetivamente aproveitadas pelos nossos governantes. Na TucanIdade, assumi a coordenação de Educação e Cidadania. Faço parte da executiva da TucanIdade, há 3 anos. Eles queriam montar um conselho político e minha mãe me incentivou a participar. Já conseguimos muitas coisas.

Em 2005 me candidatei para o Conselho Municipal do Idoso e fui eleita. Este ano o conselho vai ser renovado. Os Conselheiros ficam 2 anos. Foi um bom tempo de aprendizado. Estudei muito, tenho muito material guardado, está tudo organizado em pastas. No Conselho, eu participo da comissão de eventos. Teve uma festa no Anhembi e ajudei a organização. No ano passado fizemos comemoração do dia das mães no Cambuci. Foram escolhidas 5 mães de 5 macro regiões para representar as mães. Foi uma festa muito bonita. Minha mãe foi uma das homenageadas.

Eu ainda não tenho um grupo fixo de idosos para trabalhar, mas tenho um planejamento quase pronto, sei como fazer. Participo das discussões e levo sugestões. As discussões tem sido animadoras. Outro dia eu participei de uma discussão sobre a construção de República para idosos. Foi na Faculdade de Anhembi Morumbi. Essa é uma proposta interessante do governo.

O Voluntariado nas Casas André Luiz

Eu era católica, agora sou Kardecista. Faço voluntariado há 12 anos no Centro Espírita André Luis. Trabalho bastante na casa. Esse trabalho me deu muita sustentação emocional porque trabalhei 3 anos no plantão. O plantão é onde damos atendimento para as pessoas que chegam com problemas e querem um apoio emocional. São problemas de toda ordem, tipo C.V.V. O importante é você ouvir. Eu ficava duas horas no plantão de atendimento, mas não tinha um tempo determinado para cada pessoa, ela ficava o tempo que fosse preciso. As histórias são muitas.Tem pessoas que vão procurar ajuda porque perderam entes queridos. Outro dia chegou uma senhora e me disse que estava procurando um pouco de paz porque tinha perdido uma filha. Às vezes me dá vontade de chorar porque mistura minha dor com a dor deles, mas tenho que ser firme. Só assim consigo ajudar as pessoas. A gente está ali para ouvir. É um trabalho de ajuda psicológico, mas é também uma troca. É isso que fortalece as pessoas. Esses 3 anos de plantão foram muito gratificantes. Eu fico ouvindo o tempo necessário. Teve ocasiões em que eu fiquei 2 horas só com uma pessoa. É bom não criar vínculos, mas é difícil. Comigo já estava acontecendo esse vínculo. Algumas pessoas chegam me procurando. O atendido precisa aceitar ser ouvido por qualquer pessoa do plantão. Eu atendo só uma vez por semana. Somos muitos e precisamos atender a todos. Temos várias atividades. Hoje eu fui no centro, ajudar na entrega do leite. Todo mês tem um bazar e o que não vendemos doamos para outra instituição.

A super avó

É muita emoção falar de meus netos. Cada um com uma característica diferente. O mais velho tem 23 anos. É calado, quieto e eu o respeito. Ele sofreu muito de ver o pai e a mãe adoecerem. Ele mora sozinho. O casal de gêmeos, irmãos da minha neta, que moram com a outra avó, também são uns amores, a gente sempre se fala. Os da minha filha estão sempre próximos.

Todos foram para o kardecismo, porque ninguém acreditava que eu conseguiria suportar tanta dor quando meu filho morreu. Eles presenciaram a força que a religião me deu. Um dos meus netos faz palestra no centro, dá aula de violão, minha neta também ajuda.

A neta que mora comigo é estudiosa, gosta muito de esportes e está na sétima série. Ela participou de um curso sobre prevenção de drogas, na escola, e ganhou um diploma de participação. É esse que está pendurado na parede. Durante as aulas ela falou para o professor: conheço bem esse assunto porque minha mãe usava drogas. Não temos nada a esconder. Conversamos muito sobre nossa vida.

Saúde

Resolvo tudo com chá. De alecrim, de hortelão, de quebra-pedra. Procuro o mínimo possível de remédio. É raro eu ter dor de cabeça, não tenho nada. Todo mundo se queixa de dor de cabeça, mas eu não tenho. Se aparecer, eu tenho uma folhinha aqui, faço um chá e passa. Eu me alimento bem e tenho um peso bom, sempre equilibrado. Não tenho hipertensão, não tomo antialérgico, não tenho nenhum problema. Na época da menopausa eu tive um pouco de alteração da pressão arterial. Tomava chá de alecrim e quando voltei no médico, ele perguntou o que eu estava fazendo que a minha pressão tinha normalizado. Respondi que tomava o chá e ele falou: continue tomando seu chazinho.

O trabalho ajuda demais. Gosto de trabalhar. Estou sempre em atividade. Gosto de cozinhar, tirar fotos, colecionar cartões telefônicos, de ler, releio os livros que eu gosto.

A pessoa que não faz nada pára no tempo. O trabalho é fundamental para a saúde. Tem gente que não vê a hora de me aposentar. Para quê? Vejo pela minha mãe. Eu me preocupo com ela. Quando ela se aposentou começou a ficar doente. Voltou a trabalhar, virou sacoleira, ia para o Paraguai fazer compras e melhorou. Hoje está bem. Tem bronquite, não é nada sério, é mágoa. Ela não gosta que eu fale, mas é verdade.

O envelhecimento

Envelhecer é viver intensamente. Não é ficar sentado, assistindo só televisão ou gastando dinheiro. Não é nada disso. Viver intensamente é fazer tudo que é possível, ter atividade, ser útil e cuidar de si. Tem pessoas com a minha idade que reclamam que não conseguem mais andar muito. É porque ficam muito paradas. A idade cronológica não é o mais importante. Meu filho de 30 anos às vezes parece que tem uns 60. Ele é muito sério, meio bravo, eu brinco com ele. Digo que às vezes ele fica com 60 anos, mas não é todo dia. Ele também gosta de música.

Não estou sentindo o envelhecimento. Estou sentindo vivência e experiência. Não estou me sentindo velha. Sei que tenho 63 anos, mas não estou dando conta da idade. É como se eu tivesse 30 ou 40 anos. Continuo fazendo as mesmas coisas que fazia antes. Penso que o envelhecimento você tem que viver bem, psiquicamente e fisiologicamente. Tem pessoas que vêem problemas além daqueles que existem. Você tem que ajudar os filhos mas não pode ficar o tempo todo cobrando eles. Por exemplo: se eles querem ter filhos ou não, é um problema deles. Não adianta você querer ter neto. Eles que sabem da vida deles.

O que existe de mais importante que a vida da gente? Nada. Se você tiver um bom amigo também não precisa de muito dinheiro. A vida é bonita e precisa ser vivida, senão fica sem sentido.

Uma mensagem

Só paz na vida. Pode colocar um pouco de música também. A música é importante. Sempre tive muito contato com a música. Dançar é muito bom. Faz bem. Quando o Jerônimo chegou em São Paulo, a gente dançava bastante. Hoje eu danço pouco, só quando aparece uma oportunidade.

Nota da pesquisadora:

Foi difícil concluir esta matéria. Engasguei muitas vezes na emoção da história e tive sentimentos confusos gerados por ela. Quando estive na casa de Liga para ler a entrevista, eu lhe disse que apesar de sua autorização para publicar a história na íntegra, tinha grande preocupação com o texto, e perguntei se ela queria cortar alguma parte. Contei-lhe que tinha refletido e conversado com várias pessoas, inclusive com meu analista sobre a publicação da história na íntegra porque poderia expor demais sua neta.

Eu e Liga conversamos bastante sobre o assunto e eu lhe falei que talvez estivesse expondo resíduos de preconceito evitando falar de assuntos tão delicados. Liga entendeu, agradeceu minha preocupação e ressaltou que as pessoas só contam a parte boa da vida e que existe muito preconceito com o a questão da Aids e das drogas, e ela tinha um bom motivo para tratar desse assunto.

Confirmou que não tinha nada para esconder e nada do que se envergonhar.

Juntas, chegamos à conclusão que sua história sairia na íntegra, que ela realmente incomoda porque é sofrida, mas é uma história linda. É um exemplo de força e coragem.

Somente pessoas como Liga vivem intensamente e têm histórias para contar.

Essa conversa transcorreu num clima de muita emoção, assim como foi na entrevista. Encerramos a conversa selando nosso encontro com um forte e gostoso abraço.

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