Leonor Bardauil Espírito Santo, e seus invejáveis 90 anos

Devo admitir que mesmo trabalhando na área de Gerontologia, ainda não estamos completamente isentos do preconceito sobre a velhice. Por mais que eu tentasse disfarçar, fui traída ao me surpreender com a figura de Dona Leonor. Ela é uma prova de que podemos envelhecer saudáveis. Eu não arriscaria um conceito sobre o bom envelhecimento, mas acredito que autonomia e lucidez são as melhores coisas que a velhice pode nos proporcionar. Esses predicados não faltam em Dona Leonor, com seus invejáveis 90 anos.

Marisa Feriancic

 

Eu não a conhecia, cheguei até ela por meio de sua neta, amiga de minha filha há muitos anos. Dona Leonor me recebeu muito sorridente, com uma elegância discreta, uma fala gostosa e uma bonita mesa posta para o café da tarde. Logo me senti muito à vontade e começamos a conversar como se fôssemos velhas amigas.

A origem

Os pais de Dona Leonor nasceram em Damasco, capital da Síria. A mãe Soreia Tomé, veio para o Brasil trazida pelo pai aos 15 anos de idade, aos 16 anos casou-se com Elias Bordauil que na época tinha 22 anos. Desse casamento nasceram 11 filhos. Dona Leonor é a filha mais velha.

Meus pais tiveram 7 filhos homens e 3 filhas mulheres. Sou a filha mais velha. Quando nasci meus pais ainda não tinham escolhido meu nome. No dia em que meu pai foi me registrar, ele pediu sugestão para algumas pessoas que estavam no cartório. A sugestão foi que eu me chamasse Leonor. Quando ele voltou para casa, minha mãe não gostou e no dia do meu batismo, três meses depois, me deram o nome de Olga. Para mudar o nome do registro era muito caro e complicado. Então fiquei com dois nomes. Meu nome oficial é Leonor, mas muitas pessoas me chamam de Olga. Eu me acostumei com os dois, não me incomodo.

Lembranças da família

Meu pai veio sozinho para o Brasil e foi morar em Monte Azul, no estado de São Paulo. Quando ele conseguiu um emprego, mandou dinheiro para o pai vir também. Mais tarde veio a família toda.Casou-se com minha mãe, começaram a nascer os filhos e a vida ficou muito difícil. Eu ajudei minha mãe criar meus cinco irmãos. Estudei até a 4ª série do Grupo Escolar, na Liberdade. Não me lembro o nome da escola. Minha irmã Dirce estudou na Rua São Joaquim, ela era muito inteligente. Meu irmão também é uma pessoa muito inteligente, ele queria muito terminar o colégio, mas papai não deixou. Eram muitos filhos e a condição muito difícil. Ele precisava trabalhar para ajudar meus pais. Eu me lembro com se fosse hoje.

Quando nós morávamos no Brás, aconteceu aquela guerra do ano de 1924, nós fugimos e fomos para o interior. Quando voltamos do interior, fomos morar uns tempos em Santo André. Moramos lá durante 7 anos. Perto da minha casa tinha uma família com 4 irmãs que eram minhas amigas. Uma delas, a Ema, me ensinou a costurar, quando casei, ela fez meu vestido de noiva e me deu de presente. Quando nascia um filho minha mãe mandava avisar meu avô materno, era ele quem escolhia os nomes. Mamãe faleceu muito cedo, aos 47 anos.Teve um câncer de útero. Nessa época minha irmã caçula a Maria Alice tinha apenas 9 anos. Ela se tornou uma moça muito bonita, não podia andar na rua que todos olhavam. Os moços elogiavam e ela ficava muito brava. Até hoje ela é muito bonita.

Na época em que morávamos no Bairro da Liberdade meu irmão mais velho começou a trabalhar e ajudar meus pais. Eu também ajudava. Aprendi a costurar cedo com a Ema. Costurava para meus irmãos, fazia os vestidos da minha mãe e ela cuidava da casa. Volta e meia mamãe estava grávida. Mamãe me ensinou fazer arroz quando eu tinha 8 anos. Eu era pequenina, ela punha um banquinho perto do fogão para eu alcançar. Meus irmãos são muito queridos e eu relaciono bem com todos. Meu irmão mais velho é o Waldemar, está com 88 anos. Ele é um amor de pessoa.Minha irmã mais nova é a Maria Alice, está com 67. Eu que acabei de criá-la quando minha mãe faleceu. Minha outra irmã a Dirce, tem 74 anos e já está um pouco esquecida. A família toda fica preocupada com ela. Meus dois irmãos, Adibo e Abdo já faleceram.

Os bailes – o namoro com o Antonio

Eu sempre gostei muito de dançar, o meu irmão Valdemar sempre me levava aos bailes. Meu tio era sócio do Centro Gaúcho, que ficava no último andar do prédio Martinelli.[1] Passávamos os carnavais lá. Foi lá que conheci meu marido Antonio.Um dia ele começou a dançar comigo e não me largava mais, não me deixava dançar com mais ninguém.Eu não gostei daquilo. Eu queria dançar com todos; não namorar, só dançar. Eu tinha 22 anos e o Antonio, 24. O nome dele era Antonio, mas as pessoas chamavam ele de Bento, por causa da época do Exército. Ele ficou muito “grudado” em mim, meu irmão percebeu que aquilo não me agradava e resolveu entrar como sócio no Clube Sul Rio Grandense, que ficava ao lado do Esplanada Hote, atrás do Teatro Municipal. Esse lugar era muito mais bonito que o Centro Gaúcho. Meu irmão também adorava dançar e nós íamos a quase todos os bailes. Um dia o Antonio, apareceu lá, me descobriu e não me largou mais. Acho que era destino. Nessa época eu morava na Liberdade, ele ia à minha casa me procurar e meu pai não gostava. Família árabe é assim, não aceita que seus filhos casem com alguém de uma nacionalidade diferente e que não tenha uma loja. Minha mãe gostava dele. Ele era muito educado, ia lá em casa e levava doces para minha mãe. Sempre a agradou muito. Meu pai ficava bravo com o namoro, achava ruim, implicava muito com ele. Ele dizia: como você vai casar com um rapaz brasileiro que nem tem uma loja. Eu tinha um primo que se chamava Elias, o mesmo nome do meu pai. Ele convenceu meu pai que meu namorado era muito bom e que ele deveria aceitar o namoro. O Antonio não tinha loja, não tinha comércio, mas era trabalhador. Trabalhava com seguros. De tanto meu primo falar, meu pai acabou concordando.

O casamento

Aos 27 anos eu me casei. O Antonio tinha 29. Tive três filhos, dois homens e uma mulher. Quando meu primeiro filho nasceu nós morávamos na Vila Mariana, na Rua Coronel Lisboa. Meu filho teve asma, e só curou aos 16 anos. Por esse motivo, meu marido achou que devíamos morar num lugar mais afastado e nós mudamos para uma casa térrea, grande, muito bonita, no Jabaquara, perto da igreja São Judas. Apesar da casa ser boa e o lugar muito bonito, eu não gostava de lá. Era muito distante.

Quando meu filho mais velho estava com 1 ano e 8 meses minha mãe faleceu. Depois de 4 anos eu engravidei da minha filha. Ela nasceu, no dia 09 de abril, foi meu irmão Waldemar e minha tia que me levaram para a maternidade Pró-matre. Meu marido estava em São Sebastião cuidando da mãe dele que estava passando mal. Mesmo sabendo que ele estava cuidando de sua mãe, eu fiquei chateada porque ele só foi me ver depois de 4 dias. Minha filha nasceu no dia nove de abril, e eu nasci no dia onze. Tenho uma neta que nasceu no dia dez de abril.

Mudamos do Jabaquara e fomos morar no Ipiranga. Compramos uma casa perto do museu. Moramos lá 21 anos, mas eu não gostava daquela região. Meus filhos já estavam grandes, minha filha já estava com idade de ir para a Faculdade. Meu sonho era que ela estudasse na Católica. Ela terminou o colegial e foi estudar na PUC de São Paulo. O filho mais velho foi estudar no Oswaldo Cruz, na Avenida Angélica. Eu falava para meu marido: “O que nós estamos fazendo aqui no Ipiranga? Eles tem que tomar condução para a escola, ônibus elétrico, é muito longe, vamos morar mais perto”. Eu queria sair dessa casa do Ipiranga e mudar para um apartamento. A casa tinha dois lances de escada, era muito grande, dava muito trabalho. Tinha uma senhora, a Dona Romana que me ajudava. Ela ficou comigo durante 18 anos e tinha uma empregada fixa também. Eu costurava muito nessa época. Fazia vestidos lindos. Desenhava, cortava, bordava. Eu que fazia as roupas dos meus filhos. Sempre gostei de costurar. Fazia terninhos para os meninos, vestidos bordados para a minha filha.Eu ia à Barão de Itapetininga passear e ver os novos modelos nas lojas. Naquela época eu e minhas amigas costumávamos tomar o chá das cinco no Mappin. Era muito gostoso.

O chá depois das compras no Mappin era apreciado por senhoras que voltavam das compras nas casas de moda da Barão de Itapetininga. As mesas eram disputadas e ocupadas devidamente por mulheres enchapeladas, coloridas pelas saias verdes das estudantes da Álvares Penteado, animadas pelas normalistas da República, adornadas pelas alunas da Escola de baile da Prefeitura (www.sescsp.com.br )

Eu sonhava em ter uma loja na Barão de Itapetininga. Eu tinha essa ambição, queria que meu marido comprasse uma loja. Eu não precisaria costurar, contratava costureiras e ensinava costura para elas.Mas ele não queria, falava que era melhor eu ficar em casa, que não precisava trabalhar. Meu marido implicava quando eu ficava até tarde costurando. Depois que a minha filha completou 20 anos e já estava moça queria comprar as coisas roupas prontas ou mandar fazer, então eu parei de costurar para ela. Eu bordava camisolas com ponto “paris”, ponto “sombra”. Quando fiquei grávida do meu primeiro filho, fiz o enxoval dele todo à mão, não pus nada na máquina. O enxoval era todo bordado, até as fraldas. Bordava as “viras” para colocar envolta do cobertorzinho. Era tudo com ponto “paris”. No segundo filho eu fiz menos, não tinha tanto tempo.

Dona Leonor e seu Bento

Eu e meu marido éramos bons dançarinos. Dançávamos nos Bailes do Ipê Clube. Quando a orquestra começava tocar um tango, eles já chamavam: Dona Leonor e seu Bentopara a pista.Quando tinha o jantar dos casais meu marido nem deixava eu jantar. Só queria dançar. Sempre gostei muito de tango. Fomos várias vezes para a Argentina. Certa vez viajamos para a Argentina com quatro casais para comemorar a passagem do ano. Dançamos muito tango nas boates do navio. Guardo boas lembranças dessa época. Agora não tenho saído muito à noite, está perigoso. Minha filha me leva ao teatro. A última peça que eu assisti foi Madame Channel com Marília Pêra. Meus filhos são muito bons. Minha filha é um amor de criatura. Faz tudo por mim. Meu filho mais velho mora comigo e me ajuda em casa. Leva-me ao banco quando eu preciso, ao supermercado, à missa, ao shopping. Todos me ajudam. Cada um do seu jeito. Antes eu fazia as coisas sozinha, agora não dá mais.

As perdas

O Antonio faleceu em 1980. Eu tinha 65 anos. As pessoas perguntavam porque eu não casei novamente. Mas isso nem passava pela minha cabeça. Naquele tempo ainda dava né? Hoje não dá mais. Eu tinha uma vida ativa. Saía muito com meus filhos, ia muito ao teatro, ao cinema, eu me divertia assim.

No ano de 1970 o Antonio fez uma cirurgia cardíaca com o professor Zerbine. Ele foi o segundo paciente de ponte de safena do Doutor Zerbine. Ele viveu bem durante nove anos, depois teve outros infartos e não resistiu. O professor Zerbine era o cirurgião e o Dr. Macruz era o clínico. Nessa ocasião o professor Zerbine e o Dr. Macruz tinham voltado de um Congresso sobre cardiologia e ponte de safena. Chegando ao Brasil, fizeram a primeira cirurgia de ponte de safena e depois a segunda no meu marido. A cirurgia foi realizada no Hospital da Beneficência Portuguesa Ele ficou bem durante nove anos, depois começou a ter problemas novamente. Ele tomava muitos remédios, dizia que não queria mais viver de tanto remédio que tinha que tomar. Antes de falecer já tinha parado de trabalhar há um bom tempo, por orientação médica. Quando ele foi internado no Hospital da Beneficência para fazer a segunda operação, ele teve um infarto no quarto e não pode operar mais. O Dr. Zerbine mandava tomar alguns cuidados. Ele fazia exercícios e nadava todos os dias no Clube. Ele praticava muito esporte, eu não. Eu gostava de tênis, mas era muito caseira, nunca arrumava tempo para jogar.

Nessa época, compramos um apartamento na Rua Maria Figueiredo. Era muito bonito, ele gostava de morar lá. Era cheio de armários eu arrumava tudo bonitinho. Depois que o médico disse que ele não poderia mais trabalhar ele deu a carteira de seguros para meu filho mais novo. Ele já trabalhava com o pai e quando meu marido morreu meu filho tomou conta de tudo. Hoje ele tem o escritório, voltou a estudar, tem uma seguradora. Ele é muito inteligente e muito trabalhador. Meu filho fazia a faculdade de turismo, mas sempre sonhou em fazer direito. Quem trabalha com seguros precisa conhecer leis. Meu neto de 25 anos também já está trabalhando com o pai.

Depois que meu marido faleceu eu resolvi mudar da Rua Maria Figueiredo. Eu estava viúva, o filho mais novo casado há pouco tempo. Achei melhor vender o apartamento, era muita despesa. O apartamento estava no meu nome. Meu marido me deixou uma aposentadoria razoável, mas não dava para tudo. Depois me arrependi muito de ter vendido. Empreguei o dinheiro da venda e depois de três meses veio uma inflação muito grande, o plano Collor e o dinheiro acabou. Mais da terça parte da minha aposentadoria foi embora. Agora que estou recebendo o defasado que o Collor roubou.Quem colocou advogado consegui receber, mas muitas pessoas perderam muito dinheiro. Morei oito anos na Rua Maria Figueiredo. Quando o Antonio faleceu fiquei lá só mais 6 meses. Aluguei um apartamento, perto da minha filha e fiquei lá durante 3 anos. Depois me mudei para este apartamento.

Um sonho realizado

Quando completei 80 anos meus filhos me deram de presente uma viagem para a Europa. Eu viajei no dia do meu aniversário, dia 11 de Abril. Minha filha foi comigo, viajamos 25 dias. Fomos para Londres e lá ficamos 5 dias. Fomos ao teatro assistir: “O Fantasma da Ópera” e ”Madame Baterfly”.

Quando dona Leonor começou a narrar sua viagem à Europa, eu “viajei” junto, tal era o seu entusiasmo. Seus olhos brilhavam de emoção. Ela não se cansava de descrever com detalhes tudo que viu.

Eu sonhava com Paris, eu não queria morrer sem conhecer Paris. Quando chegamos lá, chovia muito.Eu queria subir na torre Eiffel e só chovia. As pessoas falavam para não subir, porque com chuva não dá para ver nada. Fui ao Museu do Louvre. Sempre com chuva, cheia de agasalho. Fazia muito frio. Fomos para a Suíça, para a Itália, Florença é lindo. Depois para Roma. Assistimos à missa do Papa, vimos o papa, foi muita emoção. Viajamos de trem olhando aquela neve maravilhosa.Tiramos várias fotos. Minha filha fez tudo por mim. Foi uma viagem maravilhosa. Ela falava inglês, fazia a troca de dinheiro, cuidava de tudo.

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Falei para os filhos que iria sozinha para a Europa, com excursão. Eles ficaram preocupados, não queriam que eu fosse só. Minha filha deixou o marido e os filhos para viajar comigo. Ela é uma excelente companhia. Fomos para Nice, para Barcelona e depois para Madri. Eu tinha muita vontade de ver a dança Flamingo, mas não deu certo. Fomos para Mônaco também, é lindo. Fui conhecer um cassino. Aprovei tudo na viagem. Gostei muito da França, mas lá tudo é muito caro. Em Florença, vimos obras de arte de grandes pintores e escultores. Florença é maravilhosa. Minha filha fez um álbum de fotos com registro de tudo. Fui ver os palácios, Londres é uma beleza, os cavaleiros, os parques tudo é muito bonito. Os olhos da gente lacrimejavam de tanta beleza. Na praça tinha carruagens enfeitadas de flores com cavalos maravilhosos.

Eu tinha loucura para conhecer a Europa. Meu marido não gostava de viajar. Só gostava de ir para a praia. Só fui conhecer a Europa aos 80 anos, mas foi muito gratificante. Senti muito em não poder voltar mais para a Europa. O dólar subiu. Ficou mais difícil. Naquela época dava. Hoje a vida ficou muito cara.

Envelhecer

Para alguns a idade chega aos 50, para outros aos 60 ou 70. Para Dona Leonor só chegou aos 90 anos. Ela fala sobre o seu envelhecimento:

Até os 89 anos eu era uma pessoa diferente de agora. Quando completei 90 anos comecei a sentir minha velhice. Não sei se é psíquico, mas só de eu pensar que eu estou com noventa anos, parece que fiquei velha. Até então não sentia a velhice. Comecei a sentir dores na perna, antes eu não sentia. Dores na coluna eu já tinha. Comecei a tratar com uma geriatra antes dos 90 anos e ela me receitou vitaminas com cálcio. Gostei muito dela. A gente tem que se cuidar. Eu sempre me cuidei. Esporte eu não lembro de ter feito. Eu nunca fui uma pessoa extravagante. Eu gostava de tomar um pouquinho de cerveja, mas tudo de pouquinho. Gosto também de whisk. Hoje já não tomo, mas ainda gosto.Tomo um pouquinho de remédio para dormir. Só meio comprimido. A minha pressão começou oscilar um pouco o ano passado. Então eu tomo um remédio pra pressão e omeprazol para o estômago. Não tenho restrição de alimentos. Agora com 90 anos eu tomo cuidado no jantar. Tomo uma sopa, faço um lanchinho, tomo um pouco de chá, pão com queijo. Eu nunca tive problemas com colesterol nem com diabetes.

Perguntei a Dona Leonor se ela havia falado para a geriatra que estava se sentindo diferente depois dos 90 anos. E ela disse:

Não, não falei! Eu não falei nada. Ela acha que eu estou muito bem. Ela fala que se ela chegar com a minha idade do jeito que eu estou ela fica feliz. Eu acho que a minha família não aparenta idade. Nunca passei uma noite sem dormir, sempre me cuidei. Nunca fiz trabalhos pesados, cuido da casa, faço comida. Minha irmã não se conforma que eu cozinho até hoje. Comida árabe dá muito trabalho. Mas eu ainda faço. Tenho a máquina de moer o trigo e às vezes eu faço uns quibes. Minha casa está sempre limpa. Meu filho me ajuda lavar louça por causa da minha coluna que dói. Fiz tomografia computadorizada, vários exames e não deu nada demais. Já tomei muito remédio. Hoje faço acupuntura e fisioterapia quando é preciso.

O Lazer

Eu ia ao Clube Pinheiros com meus filhos, hoje não tenho ido mais. E se vou, não danço. Depois de tanta idade não dá. O jantar lá é gostoso e tem música. Eu gosto de ouvir música. Alimenta a alma. Principalmente as músicas do Roberto Carlos. Sou apaixonada por ele, tenho todos os Cds dele.Meus filhos falam que eu não deveria assistir novela que não é bom. Hoje eu não sou muito chegada às novelas só assisto a novela das 21 horas. Eu gosto de ouvir música, de arrumar a casa, deixar as gavetas em ordem e de costurar. Estou sempre arrumando a casa. Infelizmente não pude mais costurar. Tenho uma máquina Singer que eu ganhei da minha mãe quando tinha 9 anos. Costurei muito naquela máquina. Quando minha mãe faleceu meu pai me deu a máquina. Ela ficou comigo até eu mudar para este apartamento.Minha filha comprou este apartamento para eu morar. Eu tenho um quartinho opcional, mas a máquina não cabe lá. Eu dei a máquina para meu filho mais novo. Está decorando o apartamento dele. Coloquei uma toalha da ilha da madeira sobre a máquina, essa toalha eu ganhei de presente de casamento.

Comemorando os noventa anos

Minha filha me deu um presente maravilhoso de aniversário quando fiz 90 anos. Foi uma grande festa surpresa, no salão de festas do prédio onde ela mora. Ela foi me buscar em casa, e pensei que íamos almoçar no Clube. Convidou meus afilhados, primas, amigos, netos. Convidou as amigas dela que freqüentavam a minha casa. Elas tinham um grupo e estudavam juntas lá em casa. Eu prepara lanches para elas. Minha casa estava sempre cheia de meninas estudando. Essas amigas gostam de mim até hoje. Outro dia, eu e a minha filha fomos assistir uma festa na escola de uma grande amiga dela. São crianças excepcionais. Todo ano tem festa e elas me convidam. Ela dizia:

– Dona Leonor, quanto que a senhora cuidou da gente.

Tinha muita gente querida na minha festa; as secretarias da clínica do meu médico, minhas cabelereiras que tingem meu cabelos e cuidam de mim há 25 anos foram convidadas. Elas não puderam ir porque elas trabalham no sábado, mas me levaram um presente. Fiquei muito emocionada. Me diverti muito, dancei com todos. Com os netos, com o afilhado. Minha filha contratou um organista e ele tocou e cantou todas as músicas do Roberto Carlos. Foi uma festa com comidas árabes.Nesse dia bebi um pouquinho de whisk. Gosto de vinho também, mas tem que ser branco meio doce. Quando eu faço peixe eu tomo um pouquinho. Vinho tinto eu não tomo, é muito ácido.

Espiritualidade

Eu nunca deito sem rezar. Meu marido era muito religioso. Ele era da Sociedade São Vicente de Paula, da Igreja Santa generosa. Ele trabalhou 40 anos para os pobres. Fazia conferencias e todos os sábado pela manhã ele ia fazer visitas na casa das pessoas que precisavam de ajuda. Não sobrava muito tempo para ele. No Natal eu cuidava de tudo aqui em casa. Comprava os presentes dos filhos, dos amigos, fazia todos os preparativos do Natal.

Autonomia

Quando eu tinha trinta e três anos, fiz exame para tirar a carteira de habilitação para dirigir e passei logo na primeira vez. Meu marido tinha um carro muito grande, era um chevrolet. Como tirei minha carta com um volkswagen, queria que ele comprasse um para mim, mas ele comprou um terreno na praia. Fiquei muito magoada, guardei minha carteira de motorista na gaveta e nunca mais quis dirigir. O carro me faz muita falta Sem dirigir a gente fica muito dependente dos filhos. Não é sempre que os filhos podem levar a gente em todo lugar.

Antes eu caminhava bastante, eu gosto de caminhar. E ia sozinha ao super mercado, à igreja, até uns 3 meses atrás. Andava a pé até o shopping. Agora eu tenho medo. Estou usando um pouco a bengala. Não tenho problema de visão. Eu enxergo bem porque eu fiz cirurgia da catarata, mas sinto um pouco de medo de andar sozinha na rua. Eu gosto de sair. Não gosto muito de televisão, passa muita besteira. Às vezes assisto um pouquinho de novela. Gosto de ler o jornal.

A paixão pelo cinema

Gosto muito de cinema. Não vou muito ao cinema porque tem muito filmes que não me interessam. São filmes de terrorismo, violentos, pesados. Não gosto desses tipos de filmes. Gostava muito dos filmes do Frank Sinatra. Eu era apaixonada por Frank Sinatra, assistia todos os filmes dele. Tenho 4 filmes dele que ganhei do meu filho. Eu sempre tive uma grande admiração por ele, acompanhei toda carreira artística dele. Ele tinha a minha idade, também nasceu em 1915. Assisti o primeiro filme que ele fez (acho que foi em 1943 ), não me lembro o nome. Lembro-me bem daquele musical “ Alta Sociedade “ de 1956, que ele trabalhou com o Bing Crosby, e Grace Kelly. Esse filme é maravilhoso, me lembro dele até hoje.

Eu fui companheira do Frank Sinatra[2] sem falar com ele, sem ir para os Estados Unidos. Nunca tive vontade de ir para os Estado Unidos.

Tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar?

Tem tanta coisa que aconteceu, tanta coisa,… agora no momento eu não lembro. Eu já contei muita coisa para você. Bastante coisa.

Eu quero viver mais para ver meus netos casados, meus bisnetos.Agora eu estou sentindo a velhice. Eu tenho vontade de viver para ver meus filhos, meus netos. Eu fico apreensiva porque ultimamente tem me dado ansiedade, meu médico diz que é ansiedade. Me dá uma canseira fiico ofegante. Meus braços doem e eu acho que é a pressão alta. E eu vou ao pronto-socorro e minha pressão está normal.A semana passada eu estava com uma coisa estranha na cabeça, um pouco ofegante, fui ao pronto socorro e eles puseram um pouco de oxigênio e eu melhorei. Fez bem para mim. O médico fala que eu não tenho nada. Agora está acontecendo uma coisa que eu nunca tive, é medo.

Sabe eu nunca tive medo. Eu acho que estou com medo de dormir sozinha. Deve ser de precisar ir pra o hospital e não ter ninguém aqui. Mas ao mesmo tempo eu não preciso de uma empregada todos os dias aqui. Eu não quero ninguém para ficar direto aqui em casa. Eu tenho uma diarista que é ótima. Deixa tudo limpinho. Faz 10 anos que ela está comigo. Quando meus filhos eram pequenos eu tinha empregadas porque precisava.

Dona Leonor a senhora gostaria de deixar alguma mensagem?

Eu quero agradecer você pela atenção que você me deu. Veio até aqui para falar comigo, me ouvir, saber da minha vida. Quero agradecer também a minha neta. Foi através dela que você me conheceu Ela é uma neta muito querida. É muito esforçada, muito inteligente. É “caxias” como a minha filha, sempre estudou muito. Eu tenho uma loucura pela minha neta. Eu sinto que a gente não fique mais tempo junto por falta de tempo. Os netos trabalham, estudam, tem a vida deles. Não posso reclamar de nada. Está tudo bem.

[1] No começo do século passado um imigrante Italiano desembarcava no Porto do Rio de Janeiro – seu objetivo era o mesmo de tantos outros que chegavam a América: prosperar. Esse imigrante, chamado Giuseppe Martinelli, foi excepcionalmente bem sucedido neste intento e em pouco mais de duas décadas havia construído um respeitável patrimônio. Desejoso por deixar um legado mais permanente de seu trabalho, além de sua importante empresa de navegação em Santos, o Comendador Martinelli decide erguer na cidade São Paulo o mais alto arranha-céu da América do Sul de 25 andares. Entre os inquilinos do prédio, partidos políticos como o PRP, jornais, clubes (entre eles o Palmeiras e a Portuguesa), sindicatos, restaurantes, confeitarias, boates, um hotel (São Bento), o cine Rosário, a escola de dança do professor Patrizi.

(fonte: Acesse Aqui).

[2] Francis Albert Sinatra nasceu na pequena cidade de Hoboken, no estado de New Jersey, em 12 de Dezembro de 1915. Ele é considerado o cantor americano mais popular de todos os tempos, com a música ”New York, New York’‘. Frank Sinatra morreu em 14 de Maio de 1998.

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