Já parou para pensar que idosos e crianças tem seus dias comemorados no mesmo mês, e não é à toa que outubro junta essas duas fases da vida? Outubro nos faz lembrar que o amanhã é feito hoje e que o futuro sempre carrega o ontem.
O roupeiro deste apartamento, com suas janelas, exala o frescor do ar das montanhas e encanta por sua organização. Também pudera. O que esperar de alguém cujo coração transborda de bondade e compaixão e demonstra nos pequenos gestos a grandeza de sua alma. Edna é caprichosa não apenas com o roupeiro, o seu capricho é com a vida que, certamente tem lá suas grandes dificuldades.
Ao final do dia, tudo está um brinco e ela, amorosamente pega o saquinho plástico com os restos de comida que iriam para o lixo e que no caminho de sua casa encontrará um canto qualquer para ser largado à espera dos tantos vira-latas que perambulam pela cidade.
Na pandemia, ela está lá no seu lar e eu estou aqui num esforço sobre-humano para manter vigente sua organização impecável.
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Dia de trocar os lençóis e depois de minutos com o roupeiro aberto apenas na entrega do encanto da organização que sei que nunca terei, desperto para a realidade dos afazeres domésticos que de tão exaustivos, garantiram uma perda de peso que faz tempo que desejava alcançar. Começo então a procurar um lençol para minha cama sentindo uma certa tensão já que a procura poderia pôr um fim na arrumação. Bato os olhos num tecido de florzinhas miúdas com o qual logo me identifico.
É este que quero. Com cuidado tiro o lençol do saco plástico e em um rápido instante sou transportada à minha adolescência estampada ali no meio das pequenas flores e na dobra com desenhos de bonequinhas.

Começo a arrumar a cama com um contentamento que me coloca de frente com aquela que fui.
Percebe como ainda nos parecemos? Esta alegria toda por causa do lençol que sempre usei não te parece coisa de menina?
Verdade, acho que estava precisando disso, não é fácil ser uma quase velha. Muita responsabilidade, muito ainda a conquistar e o corpo todo parece estar travando. Enquanto você rebola eu aqui tento destravar para poder caminhar.
O importante é que nesta noite você irá dormir no meu lençol e ao te ver nele deitada poderei sentir um estranho contentamento em ver a quase velha que serei. Ficarei feliz em saber que todas minhas crises existenciais irão me levar a caminhos repletos de afetos e compaixão. Olhe para mim, consegue me ver aqui no meu lençol?
De mãos dadas vamos juntas construir a velhice, já que pelo jeito eu e você continuamos e seremos sempre a mesma. Acho que estaremos juntas dormindo no lençol de bonequinhas floridas e ao acordarmos será outubro e você certamente sabe que este é um mês especial já que comemoramos a própria construção da vida.
Já parou para pensar que idosos e crianças tem seus dias comemorados no mesmo mês, e não é à toa que outubro junta essas duas fases da vida. Outubro nos faz lembrar que o amanhã é feito hoje e que o futuro sempre carrega o ontem.
Bem sabemos que idoso não é criança mas é feito dela. Criança não é idoso mas constrói no viver descompromissado o velho que um dia será.
Neste mês, ao acordarmos poderemos celebrar o mês das crianças e dos velhos, o mês daquele que um dia foi e que amanhã, certamente será.
Vamos esticar o lençol, nós duas juntas. Nosso futuro nos espera e certamente não nos perderemos.
Aliás, já guardou o lençol lavado no roupeiro cujo encanto adentra quem somos? A vida precisa de uma certa ordem.
Edna, Edna, sabe lá o que seu esmero causa?
O Blog Poética da Velhice deseja a seus leitores um outubro que deslize seus dias no fluído da vida e que a Arte possa encantar cada momento vivido.
Acompanhe a programação de outubro do Faça Memórias no site: www.facamemoriasnomuseu.com.br
Foto destaque de Juan Pablo Serrano Arenas de Pexels
