Sempre tive vontade de escrever sobre meus avôs. Para sobrepujar o heroísmo de pessoas que enfrentaram a vida até o fim, sem desistir e se tornaram exemplos.
Suelen Stoll *
Meus dois avôs já falecidos, Rud Willy Stoll e João de Deus Machado da Silva (lado direito da foto ao lado do filho Adilon Saraiva da Silva) tiveram Alzheimer, mas é sobre um deles que relato como o Alzheimer foi, não só por ter sido mais marcante, como também por ter sido de uma forma que, se tivéssemos mais esclarecimento da doença, teríamos lidado melhor com ele, e até mesmo dado um tratamento médico que prolongaria sua vida com mais qualidade, até o fim.
Meu avô paterno João foi diagnosticado em fase já meio avançada da doença. Vovô era um homem forte, de olhos claros e pele bronzeada do sol, amava pescaria e a vida do campo. Trabalhou sempre em fazendas – temos vastos campos para criação de gado e lavouras por aqui. Na sua casa cultivava hortas, amava cuidar das plantas e de todo o tipo de animais. Morava próximo a Cachoeira do Sul – RS, no vale do Piquiri; na zona rural. Era de uma família pobre, quase todos servidores de trabalho braçal. Passou muitas dificuldades, comendo apenas o necessário para viver, morando em lugares sem luz elétrica, com água de poço, um verdadeiro guerreiro à moda antiga que eu admirarei desde sempre.
Eu pouco o visitava, pois a família paterna, infelizmente, não era tão próxima quanto à materna. Mas, quando chegava à sua casa, era bem acolhida, a primeira coisa que ele fazia era cortar um pedacinho de madeira, colocar no meio de uma tampa de garrafa e fazer do modo mais simples um piãozinho para mim e outro para ele, assim brincava comigo. Impossível lembrar dessas coisas sem derramar algumas lágrimas.
Ele gostava tanto de contar histórias e, certa vez, quando eu tinha uns 11 anos, comecei a estranhar seu jeito de falar expressando muito com as mãos, falando as frases pela metade. Lembro que todos diziam que era “coisa de velho”, o que, na verdade já deveria fazer parte da doença, sem que ninguém percebesse, por falta de informação.
A confirmação do Alzheimer veio quando começou a se perder na rua. Então começaram a acompanhá-lo ou senão, não o deixavam sair de casa. Foi assim que decidiram fazer uma cercazinha em volta da casa. Em pouco tempo, ele deixou de reconhecer as pessoas. Foi tudo muito rápido, pois a doença estava evoluindo há anos sem tratamento. Quando falava de mim e do meu pai (eu fui sua única neta menina entre tantos meninos e meu pai único filho homem entre filhas) ele dizia que queria ver: “o guri e a guria”. Meu pai decidiu trazer meus avós para a cidade, embora eles sempre preferissem a vida no campo, era necessário a fim de dar ao meu avô um melhor tratamento.
Dessa época, lembro que quando o via agindo como uma criança de 3 anos, totalmente dependente, confesso, um tanto envergonhada, que não conseguia ficar na sua presença por muito tempo, pois ficava inconformada em vê-lo daquele jeito. Chorava sozinha e evitava ao máximo fazer uma visita a ele nos seus últimos dias acamado. Sinto em não ter sido mais forte e corajosa. Mas não queria vê-lo sofrendo, queria meu avô de volta ao invés de só balbuciando ou gritando.
Hoje, passado o tempo, tenho para mim duas coisas fundamentais: ouvir as histórias de nossos avós, de nossos pais, com atenção, carinho, pois são fonte de riquezas e serão lembranças maravilhosas que teremos como parte de nossa história. A outra coisa fundamental é que devemos ficar atentos com nossos idosos, não só pelo esquecimento que eles podem vir a ter, mas a maneira como eles se expressam também são sinais importantes para conseguirmos um diagnóstico, pois qualquer doença quando diagnosticada cedo pode ter o processo retardado com o tratamento adequado. Aqui, neste caso, não foi somente falta de atenção, mas principalmente falta de informação. Hoje em dia na sociedade há muito mais informações. Que desfrutemos pois, dessas informações que nos esclarecem e nos fazem reconhecer melhor as doenças e lidarmos sem preconceitos, de forma mais tranquila, sem deixar o desespero tomar conta, mas antes, podermos expressar até o fim nosso cuidado e amor.
Abaixo, o poema que fiz ao meu avô João, logo após sua morte:
“Dos piões de minha infância
não deixarei de rodopiar
todas cândidas lembranças
do meu avô vindo me alegrar
entre os seus contos
sempre havia surpresas e risadas
recordo melhor dos encontros
para as pescarias, por ele tão amadas!
quão viva é a memória,
tal que revivo o momento;
no verão, aquelas estradas de chão-batido, a horta…
meu avô, talvez seja tarde demais para falar da coragem que não tive,
para dizer sequer, uma vez:
gostei do senhor; antes de seguir a viagem.”
* Suelen Stoll da Silva, 21 anos, residente de Butiá – RS. E-mail: [email protected]