Idosos: vítimas e agentes do crime

Os idosos envolvidos com a violência, sejam com vítimas ou como agentes, são cada vez mais visíveis na mídia brasileira. O monitoramento feito pela Equipe Portal no último mês mostra as tendências dessa violência e os discursos produzidos sobre ela. Um dado interessante é que como agentes, os idosos começam a se destacar na estatística de abuso de crianças. Como vítimas.

 

 

Violência doméstica

Campina Grande – Segundo a última contagem populacional realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 371 mil habitantes. Ainda de acordo com o órgão, aproximadamente 8,8% desse total possuem acima dos 60 anos de idade, o que corresponde a 32,8 mil pessoas. Além de enfrentarem diariamente as dificuldades impostas pelo tempo de vida, as entidades que acompanham os idosos campinenses têm se deparado com outro problema grave que atinge muitas dessas pessoas: o abandono e os maus-tratos dos filhos e parentes.

De acordo com informações da imprensa local, em um ano e meio, apenas na Curadoria do Idoso do município, responsável por receber denúncias e adotar medidas para coibir os casos, 120 procedimentos investigativos foram instaurados. Esse número ainda pode ser acrescido com os 252 casos acompanhados por equipes da Gerência Municipal do Idoso no mesmo período, somando 372. Os números são alarmantes, considerando-se que a maior parte dos casos permanece no silêncio imposto por familiares e nem sequer chegam ao conhecimento dos órgãos de fiscalização.

São denúncias de maus-tratos, lesões físicas e psicológicas, abandono, negligência e de cárcere privado. No entanto, conforme as entidades que realizam o monitoramento dos casos tem sido cada vez mais comum as situações em que os idosos são vítimas de exploração financeira, praticada pelos próprios familiares ou por terceiros, designados para administrar os bens das vítimas.

Em um desses casos, registrado no ano passado, no bairro da Catingueira, uma aposentada (que teve o nome preservado pelas equipes de assistentes sociais) acabou não resistindo aos maus-tratos e ao cárcere privado, e dois dias depois de ser libertada e levada para um dos hospitais da cidade, morreu por falência múltipla de órgãos. O filho dela era alcoólatra e ‘administrava’ a aposentadoria.

O problema, de acordo com o promotor do cidadão Luís Nicomedes, é fruto da desagregação familiar e de desentendimentos registrados no passado entre as vítimas e os filhos, ou parentes. “Hoje, temos duas grandes preocupações, que se referem ao desvio de proventos recebidos pelas pessoas da terceira idade, que geralmente são aposentadas; e a questão do abandono de idosos, que também tem sido visível em nosso município”, enfatizou o promotor.

Ainda segundo Nicomedes, na maioria dos casos, os desvios e até a retenção dos proventos dos idosos acontecem em famílias desestruturadas financeiramente, mas há casos, porém, que pessoas se aproveitam de aposentados que recebem grandes valores para explorar as vítimas. “Temos casos de problemas com idosos recebendo benefícios de R$ 6 mil, que fogem do padrão daquelas famílias sem estrutura econômica”, asseverou o promotor.

No município, os casos vão parar quase sempre nas equipes da Gerência do Idoso da Secretaria de Assistência Social (Semas). Através do programa Conviver, assistentes sociais, psicólogas e enfermeiras desenvolvem uma série de atividades de acompanhamento aos idosos vítimas de abandono ou quaisquer tipos de violência. Atualmente cerca de mil deles estão cadastrados e participam de atividades que têm por objetivo retirá-los de situações conflituosas ou de risco social.

Pernambuco – No município de Barreiros, na Zona da Mata de Pernambuco, um homem de 26 anos, sob efeito de crack, agrediu seus pais: o aposentado Pedro Francisco da Silva, de 65 anos, e a doméstica Severina Maria da Silva, de 66 anos. Ele foi preso. Ele estava armado com uma faca e ainda quebrou vários objetos da residência.

São Paulo – Uma idosa de 83 anos foi mantida refém por um ladrão em casa, região do Campo Belo, zona sul da capital, lugar onde é comum ter idosos morando sozinhos em casas antigas. O jardineiro entrou na residência aproveitando-se da confiança da moradora, para quem ele já havia prestado serviços de jardinagem. Segundo dados da PM, o jardineiro chegou a sufocar a idosa, com um pano na boca da vítima, para impedi-la de gritar por socorro. O jardineiro foi autuado em flagrante por roubo e encaminhado ao CDP 2 de Guarulhos.

Assassinato

Rio – Um caseiro e mais quatro presos confessaram ter assassinado o casal Humberto Cardoso Chaves, de 74 anos, e a mulher dele, Lenice, de 72, por espancamento, em Camboinhas, região oceânica de Niterói. Os criminosos teriam dito que entraram na casa uma hora antes para aguardar o casal chegar de uma festa. As vítimas estacionaram o carro na garagem, mas assim que entraram na casa foram surpreendidas pelos homens, que estavam armados com um porrete. Crime foi planejado meses antes por um amigo do casal. De acordo com o laudo do IML (Instituto Médico Legal) de Tribobó, em São Gonçalo, Humberto Chaves morreu de “esganadura”. Já Lenice Chaves, a mulher dele, sofreu “traumatismo”, mas também teve “sinais de esganadura”, além de ter várias lesões de defesa nos braços. O caseiro estava desaparecido desde que o ex-diretor de Furnas Humberto Cardoso Chaves e a esposa dele Lenice foram encontrados mortos, dentro de casa. Depois do crime, dos três empregados do casal, apenas uma mulher foi trabalhar.

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Bahia – Um homem de 34 anos foi preso pela polícia de Vitória da Conquista sob a acusação de haver estuprado e assassinado a aposentada Adelita Rosa de Jesus, 74. A idosa, que morava sozinha, foi encontrada morta no sofá da casa, com sinais de espancamento e indícios de violência sexual. Após ouvir a família da idosa, a equipe do delegado Fabiano Aurich chegou ao acusado em seu local de trabalho, uma reformadora de baús para caminhões. O criminoso conhecia a vítima e a família dela. Há mais de um ano, era contratado para dormir na casa, algumas vezes, com o intuito de fornecer segurança a senhora. No dia do crime, o acusado teria ido à casa da vítima para, segundo ele, receber R$ 10 que lhe era devido pelos serviços prestados. “Ele nos contou que, ao chegar à residência, foi convidado para entrar e chegou a tomar café com a vítima”, declarou à imprensa o delegado que atuou o rapaz. Em determinado momento, após tentar beijar a vítima, Silva disse que foi mordido nos lábios e chamado de bêbado. “Nesse momento eu dei um soco nela. Ela caiu e bateu a cabeça no chão com muita força. Dei uma gravata no pescoço e a violentei”, contou o acusado em depoimento.

Falta de estrutura social

Quixadá – A falta de abrigos públicos provoca situações de risco para crianças, adolescentes e idosos em Quixadá. Segmentos sociais e famílias carentes a reivindicarem a implantação de abrigos especiais na maior cidade do Sertão Central. Muitos idosos, abandonados pelas famílias, contam com a caridade dos vizinhos para sobreviver. O quadro é praticamente igual nas maiores cidades da região. Uma aposentada de 67 anos vive a duplicidade desse drama. Além da idade, estava sofrendo maltrato dentro de casa. O companheiro com o qual resolveu se unir após a morte do marido faz cinco anos, passou a agredi-la. O relacionamento se desgastou e ele voltou a consumir bebida alcoólica. Ela afirma não ter filhos e nem parentes próximos.

Franca – Um aposentado de 74 anos, usuário de maconha, foi enganado ao comprar maconha e ao reclamar com os traficantes foi agredido. Segundo declarações dadas à imprensa, o idoso descobriu que em vez de maconha, os traficantes haviam lhe vendido esterco de vaca. Revoltado o aposentado retornou ao local da compra para exigir seus direitos de consumidor. O problema é que os dois vendedores que estavam no local não gostaram da reclamação e agrediram o idoso a chutes e socos. Machucado, o aposentado foi até o 3 Distrito Policial de Franca e narrou o ocorrido ao delegado de plantão que o encaminhou para exames que comprovaram a violência. Foi então registrada a queixa de agressão e encaminhada cópia da ocorrência para a DISE (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes) para apurar ainda o crime de tráfico de drogas.

Como agentes, os idosos começam a se destacar na estatística de abuso de crianças

Casos de pessoas acima de 60 anos (idosas, pelo critério do IBGE), avós e bisavós – agentes de crime, começam a se destacar nas estatísticas de abusos a crianças e adolescentes. Sempre houve abuso por parte dos idosos, só que agora esse tipo de violência aparece nas estatísticas porque mais pessoas estão tomando iniciativa de fazer denúncias. A Rede Criança, por exemplo, recebe denúncias encaminhadas pelas varas de infância, varas criminais, conselhos tutelares e mais recentemente de hospitais e das pessoas envolvidas com as vítimas.

Em Lençóis Paulista (SP) – Um idoso de 70 anos é acusado de abusar sexualmente de uma menina de 9 anos. O nome dele não foi divulgado. Ele é advogado. No inquérito policial, conduzido pelo delegado Marcos Jefferson da Silva, além da mãe da criança, de alguns familiares e da própria vítima, também foram ouvidas a atual mulher do acusado, suas duas filhas e uma amiga da família.

Para entender o caso – A mãe de uma menina de 9 anos procurou a polícia de Lençóis Paulista para denunciar que sua filha estava sendo vítima de abusos sexuais e ameaças há cerca de um ano. O acusado pelos crimes seria um advogado de 70 anos, que possui uma chácara ao lado de onde a família morava. A mãe só teria tomado conhecimento da violência praticada contra a filha, quando seu sobrinho surpreendeu o irmão da menina, de apenas sete anos, em cima dela, em atitudes sexuais. Diante do fato, e pressionado pela família, o menino acabou confessando que estava fazendo o mesmo que o advogado fazia com sua irmã. A mãe da menina levou ela até uma médica pediatra, que constatou a violência sexual. Em seguida, a polícia foi acionada e solicitou a realização de exames no IML de Bauru. O resultado do laudo constatou que o hímen da garota havia sido rompido já há algum tempo.

Com base nos depoimentos e na prova material, o delegado solicitou a prisão temporária do acusado por trinta dias, que foi deferida pelo juiz. Contudo, o idoso não foi localizado. A mãe da menina afirmou que, em momento algum, desconfiou dos abusos cometidos contra a filha. Segundo ela, o acusado levava seus filhos para passear de carro, nadar em sua chácara e brincar com seus netos.

Para evitar que a menina o denunciasse, o advogado dava a ela e a seu irmão doces, balas e dinheiro. Além disso, ele ameaçava a menina dizendo que, se ela falasse para alguém o que havia acontecido, ele iria trancá-la no banheiro e deixá-la passar fome e sede até que ela morresse. Em algumas oportunidades, a menina chegou a reclamar de dores na barriga e na região genital e a apresentar sangramentos. Mas a mãe alegou que pensou tratar-se do início da menstruação, já que a garota está com o corpo em formação.

Santana de Parnaíba (SP) – Um homem de 73 anos foi preso em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, sob a acusação de abusar de crianças. Em sua casa, a polícia apreendeu um álbum de fotos pornôs com garotas e garotos.

Mato Grosso – Outro homem, de 77 anos, foi pego em fragrante pela polícia violentando uma menina de 12 anos. O fato ocorreu em Santo Antônio do Leverger, pequena cidade de Mato Grosso.

Maranhão – O professor e ex-secretário de Educação de Açailândia, cidade de 100 mil habitantes do Maranhão, foi preso sob a acusação de abusar de sua neta de três anos. Ele também já foi presidente da Academia Açailandense de Letras de Açailândia, trabalhava como diretor de uma escola estadual do município. A denúncia contra Francisco Vieira foi feita pela avó materna da menina, e a ocorrência de violência sexual confirmada em exame de corpo de delito e entrevista psicológica com a criança. A avó da criança procurou o Conselho Tutelar porque ouvia com frequência da neta, reclamações de dores causadas durante brincadeiras com o avô, nos dias em que ia visitá-lo.

Argentina – Um homem de 74 anos, conhecido como “El Chacal de Corrientes”, foi detido por estuprar suas três filhas por mais de 15 anos e violar três dos sete filhos fruto destes abusos, na província argentina de Corrientes (nordeste). Isto é, o idoso não só abusou sexualmente de suas três filhas, como também de duas filhas-netas, de 12 e 15 anos, e de um irmão delas, de 5 anos de idade, segundo a denúncia apresentada por uma das vítimas, de 29 anos. Na Argentina o caso foi comparado pela imprensa ao do austríaco Josef Fritzl, chamado de “O monstro de Amstetten”, de 73 anos, condenado em março à prisão perpétua pelo assassinato de um dos sete filhos-netos que teve com sua filha, a qual manteve em cativeiro por 24 anos em um porão. A mulher que denunciou Pedro Aniceto Vallejos em Corrientes disse que era estuprada por seu padrasto desde os 12 anos e que teve sete filhos com ele: duas meninas e cinco meninos. A mulher foi à delegacia para denunciar os abusos de seu padrasto, mas quando falou sobre o assunto com suas filhas maiores, elas e um de seus irmãos confessaram que eram vítimas também do mesmo homem. A família, de origem muito humilde, é formada pelas três jovens abusadas, sua mãe de 70 anos, o idoso, e os 14 filhos das três mulheres.

Tráfico de drogas

Santa Catarina – Em julho, uma idosa de 73 anos foi presa em flagrante portando 37 pedras de crack, que ela disse ser para consumo próprio, por tráfico de drogas em Barra Velha, litoral Norte de Santa Catarina. Mais conhecida como “Vó da Pedra”. O serviço de inteligência da Polícia Militar em Barra Velha estava investigando a casa da mulher como ponto de venda de crack. Também foram presos outras quatro pessoas. A idosa, que mora no bairro São Cristóvão, disse à polícia que a droga chegava de Curitiba (PR) através de um namorado dela.

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