A Europa vem enfrentando a maior crise de sua história. O que antes era símbolo máximo do estado de bem-estar social no Reino Unido, hoje é o colapso que assola o sistema de saúde britânico com uma crise que dura há pelo menos 10 anos. Uma questão de ordem política que se agrava considerando não haver nem perspectiva de aumento orçamentário acima da inflação para os próximos quatro anos. Quem sofre com os desajustes de uma política de austeridade caduca? A população que envelhece e sente diariamente as consequências do que podemos chamar de desrespeito e negligência à vida humana.
Não se pode falar que o primeiro-ministro David Cameron não foi alertado para o estado de miséria em que vivem os idosos britânicos abandonados e esquecidos. Um grupo de 60 especialistas ligado à área da saúde pública, entre eles representantes da renomada Associação Médica Britânica e da ONG AgeUK, enviou uma carta aberta à imprensa prevenindo o primeiro-ministro para uma bomba-relógio.
Há, segundo os cálculos do grupo, 2 milhões de idosos no país. Destes, 800 mil estão “sozinhos, isolados e em risco”, sem apoio de serviços públicos ou privados.
Funcionamento do Sistema Local
Conta a reportagem que no Reino Unido, as autoridades locais (subprefeituras e prefeituras) têm obrigação legal de oferecer assistência a pessoas em idade avançada e com diferentes níveis de risco, mas o sistema tem privilegiado cada vez mais quem está em situações de necessidade extrema. Em contrapartida, quem antes tinha direito a auxílio em casos considerados menos graves agora não tem mais.
Então é preciso estar em “situação de necessidade extrema” para se ter auxílio, qualquer que seja ele? Uma afirmação como essa pode levar às pessoas que estão em estado de completa fragilidade, muitas vezes, a escolhas confusas e perigosas. É o risco que bate à porta.
O Estado britânico já foi mais “generoso”, lembra Elizabeth Feltoe, consultora de políticas sociais da AgeUK. Ela afirmou: “Como as autoridades locais têm menos recursos, os serviços estão sendo encolhidos, com mais cortes desde o ano passado”.
Se os cortes são necessários porque não se promovem medidas inteligentes, alternativas, possibilidades que não exponham a população idosa (que cresce a cada dia) a uma situação indigna e sem perspectiva?
Assistência Atual
Um exemplo trazido pela reportagem conta que as visitas de assistentes sociais às casas dos idosos, que vivem sozinhos, não passa de 15 minutos (leia mais abaixo). O máximo que os cuidadores conseguem fazer é esquentar comida e ajudá-los a trocar de roupas – gerando frustração tanto dos profissionais da área como dos idosos, que reclamam por serem “invisíveis” a quem deveria lhes dar atenção.
É mais cômodo direcionar a verba pública para eventos de grande repercussão, fazer alarde com ações faraônicas que olhar cuidar e escutar quem sofre em silêncio e que chega até a triste situação de invisibilidade. Isto pode levar qualquer indivíduo a atitudes desesperadoras e tudo por uma chance de olhar.
Segundo Elizabeth, apesar das subprefeituras e prefeituras terem autonomia para decidir o tamanho da fatia do orçamento dedicada à assistência social e ao cuidado com idosos, o aperto nas contas fala mais alto priorizando a vontade política local.
Consequência
Como resultado, o Reino Unido tem hoje áreas em que o auxílio aos idosos é considerado satisfatório, enquanto em outros é problemático. “É uma loteria do código postal”, conta Elizabeth, “em que dois idosos são vizinhos, mas podem receber assistência em níveis bastante diferentes.”
Mantendo a retórica da “era da austeridade” com previsão de mais cortes pelos próximos três anos, o premiê David Cameron, preparou uma nova diretriz para o setor, que ainda precisa de aprovação no Parlamento. As entidades esperam que o documento simplifique e torne clara a legislação de acesso à assistência social no país.
A consultora da AgeUK afirma: “É preciso que o sistema seja sustentável. Se toda a legislação sobre o assunto está separada em diferentes artigos, fica difícil para as pessoas entenderem a que elas têm direito. Elas precisam de informação e aconselhamento, porque se não planejarem antes e precisarem de assistência para ontem, como no caso de um derrame, por exemplo, elas dificilmente vão conseguir o que precisam.”
O Caso de Sue – Relato dos Vizinhos
No caso apresentado a seguir, a matéria traz o relato de três vizinhos de uma artista aposentada [chamada de Sue nesta reportagem] que se desesperaram no ano passado com a maneira que ela, já idosa e com Alzheimer, foi tratada pelo governo. O relato ao Website Opera Mundi foi feito sob condição de anonimato.
O caso ocorreu em Oxford, uma das cidades mais ricas do Reino Unido. Sue, com cerca de 80 anos, morava sozinha e sem apoio da família, que a abandonou. Acabou dependendo de seus vizinhos para sobreviver e de visitas esporádicas do serviço social.
As visitas das assistentes sociais, segundo relatos dos vizinhos, duravam apenas 10 minutos – o suficiente apenas para que Sue tomasse seus remédios. Ela já mostrava seus primeiros sinais de Alzheimer. Esquecia o nome das pessoas e colocava roupas de trás para frente e já não podia mais fazer suas próprias compras.
Sem o devido apoio do Estado, que aplica formulários de diagnóstico bastante criticados pela falta de detalhamento, Sue foi ‘empurrada’ para o conceito-chave do governo conservador de Cameron: a chamada The Big Society, ou Grande Sociedade, uma construção da campanha eleitoral que convoca os britânicos a buscar o voluntariado para tapar os buracos deixados pela política de austeridade.
‘O atendimento do governo não era nada satisfatório. As assistentes sociais, que faziam rodízio, apareciam sem hora marcada e algumas mal falavam inglês’, contou uma das vizinhas, que riu ao ser perguntada se o conceito de Big Society funcionava. ‘O Estado terceiriza uma empresa, que paga salário mínimo para essas visitas apressadas. O sistema é inflexível e fragmentado. No final das contas, ninguém assume a responsabilidade quando alguma coisa dá errado e muito dinheiro é jogado fora.’
Depois de dois anos vivendo em condições precárias, incapaz de cozinhar e dependendo da boa vontade dos vizinhos, Sue tropeçou e caiu ao sair de casa. Foi levada a um hospital e, em seguida, a um retiro do governo considerado pelos vizinhos ‘bastante impessoal’. ‘Ela foi tratada injustamente, sem qualquer qualidade de vida’, explicou uma das vizinhas. ‘No hospital e no retiro ela é ajudada corretamente, mas por que nada foi feito antes, quando ela ainda estava em casa?’
A Reclamação Formal e um Desabafo
Os vizinhos fizeram uma reclamação formal ao governo pelo tratamento dado a Sue. Os serviços não foram grátis. Quando ela estava em casa, a idosa pagava 70 libras esterlinas por semana. Quando foi para o hospital, seu tratamento custou mil libras por semana. E agora, no retiro, ela paga 600 libras por mês, que saem de suas economias.
Uma das vizinhas desabafou: “Veja como não faz sentido. Se o atendimento em casa fosse feito como deveria, ela poderia ter passado mais tempo em casa e, certamente, não teria ido parar no hospital. O retiro era inevitável – mas poderia ter sido adiado. E bastante dinheiro poderia ter sido economizado”.
Que fique claro que os relatos da triste, complexa e difícil situação no Reino Unido podem ser encontrados em qualquer parte do mundo onde haja políticas irresponsáveis, austeras e cegas para as necessidades da população.
Referências
ALMEIDA, R. (2012). Na “era da austeridade”, idosos britânicos são as primeiras vítimas dos cortes de gastos. Disponível Aqui. Acesso em 20/02/2012.