No forno, cresce um bolo de nozes. O cheiro se espalha pela casa. Cheiro antigo de Natal. A receita vem de minha avó, mãe de meu pai. Uma italiana grisalha, as grisalhas receitas lembradas de cor, de coração, típicas do lugarejo onde nasceu, Salerno. Senhora ciente de seus talentos domésticos. Realmente não conheço ninguém que a tenha igualado, da máquina de costura ao fogão.
Mauisa Annunziata *
No Natal, tento repeti-la. Honro-a com o bolo e a tradição. O cheiro parece o mesmo. Mas na casa dessa avó, esse perfume era apenas um, entre os olores que o Natal exalava. O do cabrito, que eu sempre me recusei a comer (até hoje) já que tinha me divertido com ele dias antes no quintal. O da pasta de salsinha e aliche… Chega, que não resisto.
Fora a lembrança saborosa e a honra merecida, o tal bolo pouco representa.
Hoje, o que assusta e me faz pensar, é uma furadeira elétrica! Tive de comprar uma. Uma conquista, sim. Hoje penduro eu mesma o que tiver de ser pendurado.
É certo que se a coisa exige duas buchas, eu terei que colocar ao menos três. Não sou hábil em fazer buracos, acertar a distância entre os furos. Por isso cada coisa pendurada em minhas paredes esconde as tentativas anteriores. Mesmo que eu retire a bucha e o parafuso, o buraco fica.
Como a tábua cheia de furos do menino que tentava sanar suas “falhas” de comportamento. Retirava um prego a cada boa ação que praticava. Mas os furos testemunhavam na madeira sua história pregressa. História edificante para educar meninos. Não quero conhecer o autor. Lembrá-la testemunha uma face da educação que sofri: o erro não tem volta. Só fui resgatá-lo com muita, muita criatividade.
Fazer um bolo acalanta minha necessidade de conservação. Usar a furadeira significa mudança, adaptação a um tempo, a uma situação. Conquista.
O bolo me assegura: pertenço a um grupo. A furadeira demonstra o caminho novo que estou traçando, sozinha. A duros furos. Os furos na minha história, que tento mascarar com minha eficiência. Desisti da mulher em mim que pede a um homem, um amigo, ou mesmo ao filho:
“- Por favor, você penduraria dois quadros para mim? Dá pra você trazer a furadeira?”
Essa imagem foi minguando, minguando até tornar-se raquítica, doentia. Significa que nos tempos atuais, pequenos favores, que poderiam aproximar as pessoas diante de uma tarefa e um café, não têm mais espaço. Não é grata uma solicitação desse tipo. É difícil o encontro, não é necessário. Time is money. Só é bem visto o pedido, se envolver um profissional, um custo. Sem encontros, ou com um encontro de negócios. Para este sempre há um jeito.
A furadeira representa muito. Representa uma desistência de minha parte. Sinaliza um tempo, uma tendência de comportamento. Eu desisti de pedir, preciso ser mais e mais independente. Mesmo com a sensação de falta abaixo do esterno, junto do coração. Mais um furo na tábua, pois o prego já tiro de letra.
A furadeira representa a individualização cada vez maior nos grupos, nas famílias. O sentimento “nós” se faz no convívio. O convívio se rarefaz. Constrói-se o vazio que “fazer-tudo-por-sua-conta” não preenche. Falta AR, amAR.
Usar a furadeira é presenciar o ruído do rígido contra o rígido. Uma penetração à força. Estupro de paredes. Mais de uma estocada. E o silêncio. Fez-se o furo.
Pendurar coisas, enfeitar as paredes com um conversê paralelo, amacia a relação entre os homens e o concreto com a doçura de um bolo:
“- Esta bucha serve? Você quer o martelo agora? Eu seguro a escada pra você. Quando isso terminar a gente toma um café. Come uma fatia de bolo de nozes. Fiz lembrando o espírito de Natal. Quer?”
Enquanto penso, o bolo fica pronto!
O furo idem.
* Mauisa Annunziata é pedagoga, especializada em Criatividade, com formação em Fenomenologia na Coordenação de Grupos. Poeta e cronista. E-mail: [email protected]