Dona Dulcita Campos Moraes

Dona Dulcita Campos Moraes é pianista, professora aposentada, participa do Coral e do Clube da Terceira Idade da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo. Ministra aulas de música como voluntária, há 6 anos, para as crianças da pastoral da Igreja Nossa Senhora Aparecida de Moema. É viúva, tem 6 filhos (três homens e três mulheres); 14 netos e 4 bisnetos. Eu não a conhecia, mas tivemos uma conversa descontraída ao telefone e combinamos a entrevista.

Marisa Feriancic

 

Quando cheguei em seu apartamento, o cafezinho, o suco e os biscoitinhos já estavam preparados num canto da sala, e ela mostrou-se disposta e sorridente, embora me confidenciasse, mais tarde, que estava apreensiva com a minha chegada. Pensou que pudesse ficar envergonhada.

Eu expliquei, novamente, que o objetivo do Portal do Envelhecimento é a pesquisa e o estudo e, no espaço – A Voz do Idoso – temos, como objetivo complementar, mostrar os diferentes modos de viver o processo de envelhecimento, e não, simplesmente, expor a vida alheia. Enfatizei que ela poderia ficar tranqüila, e que só seria publicado aquilo que ela achasse conveniente. Mostrando-se mais tranqüila, disse que não queria que sua idade fosse publicada, e continuou:

Não revelo a minha idade, mas posso afirmar que tenho mais de 85 anos. Não importa a idade que eu tenho, importa quem eu sou e o que eu faço.

Após o acordo de não ter a idade revelada, Dona Dulcita conta sua história.

Não conto minha idade para ninguém, sempre brinquei com essa história, mas posso te dizer que tenho mais de 85 anos. Sou Dulcita Campos Moraes, mas assino Dulcita Campos.Quando meus filhos nasceram meu marido não colocou o meu sobrenome nos filhos, isso me chateou, então não assino o sobrenome dele.

Origem do nome

Meu pai não gostava de apelidos, e dizia que se colocasse meu nome de Dulce iriam me chamar de Dulcita, então ele já colocava Dulcita. Minha mãe contava outra história. Ela dizia que ele teve uma namorada com o nome de Dulcita, por isso escolheu esse nome. Eu fiquei sem saber a verdade até hoje.

Nasci em 3 novembro, mas ninguém sabe a minha idade e nem quero que saibam. Tenho muitas atividades e estou bem de saúde, faço tratamento com um bom geriatra, apesar de tomar muitos remédios. Quando preciso trocar alguma medicação, e sobram remédios, faço doações para alguma instituição, pois sempre tem alguém que precisa, sempre serve para alguém. Remédios são muito caros, não se deve jogar fora.

A infância

Meu pai se chamava Olímpio Campos e minha mãe, Corina de Lima Campos.Meu pai era da divisa de Minas com a Bahia, e minha mãe era mineira. Eles se casaram, foram morar em Barretos e tiveram 5 filhos, só eu de mulher. Meus dois irmãos mais novos estão vivos, os dois mais velhos já morreram. Meu irmão mais velho morreu há 10 anos.

Minha mãe costurava, cuidava da casa e dos filhos. Ela era muito falante, alegre. Meu pai era quieto, sério, pouco falava. Eu me lembro de uma cena, de quando era pequena. Eu me sentava à mesa para jantar e meu pai dizia:

– Não sei porque essa menina passa tanto perfume para vir jantar.

Eu respondia:

– Papai, eu tomo banho e me perfumo.

Era sempre a mesma história ele falava que eu punha perfume demais. Meu pai era uma pessoa muito boa, muito correta, sempre trabalhou muito.

O colégio interno

Depois de alguns anos de casados, meus pais se mudaram para São Paulo, nessa época eu tinha 7 anos. Aos 8 anos, eles me colocaram num colégio interno – Colégio Minerva -, que ficava na rua da Liberdade, que era de um tio avó – o Senhor Silvestre de Lima. Nas primeiras noites eu chorava de saudade de casa, sofri muito, tinha muita saudade da minha mãe. Nessa época comecei a estudar piano, e estudei durante todo o tempo que fiquei no colégio Minerva.

Aos 12 anos, terminei o colégio. Meu pai comprou um cartório em Olímpia, e mudamos todos para lá, onde fiz um curso preparatório para o curso normal, prestei concurso e passei em 11° lugar. Fui novamente para o colégio interno em Jabuticabal – Escola Normal Livre -, anexa ao Colégio Santo André, onde eram feitas as práticas de ensino. Fiquei nesse colégio até os 18 anos, de onde saí formada professora.

Eu era a única filha mulher e meu pai me mandou 2 vezes para o colégio interno. Quando saí para o mundo aos 18 anos, vi que as coisas eram bem diferentes. Convivi pouco com a minha família, e nunca entendi porque meu pai fez isso, mas sei que não me fez bem.

Não posso falar mal da escola, e o internato era muito bom. Algumas freiras eram belgas e outras francesas e com isso aprendi bem o francês. Elas conversavam com a gente em francês e tínhamos que ler um livro por mês nesta língua, que poderia ser uma romance água com açúcar. Saí de lá falando francês correntemente, e lembro-me até hoje da madre Geni, da madre Francisca e da Marriete.

No meu quarto tinha várias camas, e cada menina tinha seu criado-mudo para guardar as roupas. Eu me levantava às 6:00 horas da manhã, rezava 3 ave-marias ,arrumava a cama, tomava café e ia para a missa.Todos os dias a mesma coisa. Só saia do colégio nas férias, quando eu ia para a casa dos meus pais, não lembro de ir para casa nos feriados, era só estudar. Eu via pouco meus pais, eles quase não me visitavam.

Na verdade, eu não queria fazer o curso normal, só queria estudar piano. Eu tinha uma amiga que era professora de piano em Olímpia, mas ela ganhava pouco. Um dia meu pai me falou:

– Eu não quero influenciar na sua vida, mas quantas alunas sua amiga tem?

Eu respondi:

– Só tem oito.

E ele me disse:

– É isso minha filha, é melhor você fazer o curso normal, para você ter um ordenado todo mês. Não pode só estudar piano.

Sempre gostei de piano. As freiras achavam que eu tocava bem e, então, comecei a lecionar piano para algumas meninas do colégio, e essas aulas eram revertidas em descontos nas mensalidades.

Fiz boas amizades no colégio, mas algumas amigas já morreram. Apesar das freiras serem rígidas eu me dava bem com elas, e quando a madre superiora passava no corredor nós parávamos e fazíamos reverência. Depois de muitos anos de casada, uma freira da minha época do colégio me ligou e disse:

– Dulcita, eu tenho um peso na consciência, eu não preparei vocês para o mundo.

Quando me formei, aos 18 anos, trabalhei como professora substituta. Depois fiz um concurso, passei bem classificada e ganhei uma sala de aula num Grupo Escolar em Guarací. De Guarací até Olímpia demorava duas horas.

Fui para Guarací sozinha e fiquei novamente longe da minha família. Eu era novinha, tinha acabado de me formar. Fui morar numa pensão com umas amigas, e só ia para a casa de meus pais nos finais de semana. Como não queria ficar sem meu piano, coloquei-o num caminhão e levei para a pensão e lá arrumaram um lugar para eu guardar. Tinha gente que nunca tinha visto piano naquela cidade. Meu piano era alemão, foi a primeira marca que entrou no Brasil. Sempre que tinha alguma festa ou evento importante, eu punha o piano num caminhão e levava comigo. Organizei muitas festas em Guarací. Numa dessas festas, quando foram colocar meu piano no caminhão, na porta da minha casa, o piano virou e caiu. Meu pai mandou consertar, mas eles trocaram as teclas originais de marfim por teclas de plástico branco. Parecia uma dentadura. Fiquei muito chateada.

Eu era festeira, sempre cantava e dançava nessas festas, mas nunca me apeguei em nenhum rapaz por lá. Depois de 2 anos que eu estava em Guarací, faleceu uma professora em Olímpia e a vaga ficou para mim, então voltei como professora efetiva e fui morar novamente com meus pais.Tive alguns namoricos nessa época, masnada sério.

Eu tinha uma amiga, a Maria Olímpia, que namorava um fazendeiro muito rico. Quando ele ia para Olímpia levava um amigo junto, que viria a ser meu marido. O nome da cidade de Olímpia, foi em homenagem à ela. Meu marido se chamava Moacyr Bueno de Moraes e nasceu em 1912. O pai dele tinha uma fazenda em Severinía, perto de Olímpia. Quando ele estava se preparando para fazer o curso de engenharia, teve que parar e tomar conta da fazenda do pai. Eles estavam quase perdendo a fazenda, porque ela estava sendo mal administrada.

O namoro

Todo domingo tinha a domingueira em Olímpia, com uma orquestra que tocava no clube, aonde íamos com as amigas, ou com os pais, para dançar. O Moacyr foi levado nessa domingueira por um conhecido nosso, um advogado. Nós dançamos e percebi que ele não sabia dançar direito, mas não me incomodei. Depois que ele me foi apresentado, esse advogado veio me pedir desculpa dizendo:

– Dulcita desculpa, o rapaz não dança muito bem.

Eu respondi que não fazia mal, que ele tinha uma prosa muito boa e que tinha gostado dele.

Chegou a época do carnaval e fui para o clube dançar, era costume fazer os cordões carnavalescos. Eu estava dançando e observei-o parado, olhando para os lados. Fiz sinal para ele vir dançar com a gente. Ele entrou no “cordão” e começamos a conversar. Namoramos pouco mais de ano e casamos.

O casamento

Casamos em 1936 e continuamos morando em Olímpia. Meu marido era contador, e fazia as avaliações das fazendas que o Banco do Brasil comprava. Meu primeiro filho nasceu em 1941, em Olímpia.

Em 1953 viemos para São Paulo, e alugamos uma casa na Vila Mariana, onde nasceram os outros filhos. Depois mudamos para um apartamento na rua Major Quedinho, que era antigo, mas gostoso e bem espaçoso. Nessa época meu marido trabalhava na diretoria na Secretaria da Fazenda.

Nessa época, eu já estava aposentada e próximo ao apartamento tinha uma creche de menores, e uma freira tomava conta. Eu me ofereci para formar um coral com essas crianças, um trabalho sem remuneração. Eu não tinha piano, então comprei um órgão usado e comecei a dar aulas para as crianças, 2 vezes por semana.

Dulcita, em 1956

Depois de muitos anos, tivemos uma casa própria. Compramos um terreno, construímos uma casa no Planalto Paulista e fomos morar lá e, assim, fomos criando os filhos. Meus filhos são maravilhosos e me tratam muito bem. Eu vivo a vida deles e dos netos. Minha filha e meu filho mais velho moram no exterior.

A profissão

Quando vim para São Paulo, fui lecionar na Escola Estadual Almirante Barroso no Jabaquara, onde lecionei com professora primária, e organizei muitas festas, sempre em torno da música. Em 1960, fiquei sabendo através de uma amiga que iria abrir um concurso de música no Canto Coral do Estado de São Paulo. Meu marido achou que era besteira, que eu não passaria nas provas, mas, mesmo assim, fui me preparar com uma vizinha que era professora de música. Fiz o concurso, passei, e fiquei 10 anos no Coral de música do Estado de São Paulo. Preparei alunos no Almirante Barroso, no Marechal Theodoro e outras escolas. Trabalhei muitos anos com o maestro Fabiano Lozano e depois com o Aricó Junior.

Viuvez

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Fiquei viúva em julho de 1974. Meu marido teve um enfarto. Um dia antes deste fato, ele saiu da Secretaria da Fazenda, onde trabalhava, despediu-se das pessoas, e no sábado teve um enfarto e morreu.

Depois que fiquei viúva, alguns ex -namorados me ligaram, mas eu não quis saber de mais ninguém. Na época do colégio era só flerte, não dava para namorar. Tomava-se banho de camisola. Quando eu entrei no colégio já estava acabando essa fase de tomar banho de camisola.

Meu marido não era muito carinhoso, mas eu vivi muito bem e não me arrependo de nada. Como eu tive um pai que era assim, acho que identifiquei nele o meu marido. Minha mãe era mais afetiva. Eu não me lembro de sentar no colo do meu pai, mas sei que ele gostava da gente e era um bom pai. Quando meu marido morreu, meu pai estava doente e falou para mim:

– Dulcita porque Deus não me levou em vez dele?

O trabalho voluntário

Desde o ano de 2000, faço um trabalho voluntário na Pastoral do Menor da Igreja Nossa Senhora Aparecida, de Moema. Todas as terças-feiras eu ensino música para as crianças, mas este ano eu ainda não consegui formar o coral porque só tenho 7 crianças, e preciso no mínimo de 12. São crianças de 7 a 12 anos, que vão para a escola na parte da manhã, e a tarde fazem atividades na pastoral, ficando lá das 14:00 às 16:30 horas. Lá tomam lanche e recebem reforço escolar. Todos que ajudam na pastoral são voluntários, e eu ajudo no lanche, ensino regras de comportamento e música. Quando comecei na pastoral, pedi para meus amigos e filhos, e eles me ajudaram a comprar os instrumentos musicais.

Comprei tambores, tamborins, chocalho, pandeiro, triângulo e bumbo; só instrumento de percussão. Quando as crianças chegam, eu faço um teste de aptidão, mando bater palmas, andar, bater o pé, e assim vou selecionando os instrumentos que eles podem tocar. Eu os acompanho no meu órgão, que levei para a igreja. Atendo crianças até 12 anos, porque depois disso é mais difícil lidar com elas. Este ano tem poucas crianças abaixo de 10 anos. Desde que eu estou lá, já formei varias bandas, que já tocaram no Pão de Açúcar e outros lugares. As crianças gostam de música e eu ensino as mais fáceis, incluindo uma que eu adaptei para apresentar a nossa banda, quando ela toca em algum evento.

É assim:

Dona Dulcita canta a música:

Alerta, vamos saudar…

aqui vem a banda do menino Jesus.

Contentes,

Anunciar …

Que ela agora vai tocar.

Ela pertence a pastoral do menor

Da igreja de Moema.

E canta com animação

Valsa, fox e outras canções.

Tim-tim-tim , faz o sininho,

Ta- ta- tá , faz o tamborim,

Tum –tum- tum, faz o tambor

Nheco- nheco faz o chocalho.

Aqui está a banda.

E aí todos eles tocam juntos. É muito bonito.

Dona Dulcita ainda tem tempo de fazer tricô para a igreja, e mostrou-me um lindo sapatinho de bebê que estava tricotando.

A igreja fornece a lã e eu faço o tricô. Não sei assistir televisão sem fazer nada.

Sobre o envelhecimento

Eu acho normal envelhecer assim, e todas as minhas amigas tem uma vida agitada como eu. Dou graças ao meu pai por não ficar só com o piano, pois trabalhei, tenho minha aposentadoria e a aposentadoria do meu marido. Tenho uns filhos que são uns anjos, e que não me deixam faltar nada. Não penso que eu sou velha, faço o que tenho vontade, o que dá para eu fazer, não forço muito. Minhas atividades são feitas com alegria porque são as coisas que gosto. Penso que ficar só sentada, deve ser ruim.

Outro dia li que tem um hotel para a terceira idade, então falei para minha filha que eu poderia ir para lá, só que eu levaria o meu piano e poderia reunir as pessoas para cantar e tocar. Eu sou festeira, gosto de organizar festas. Minha filha não gostou muito, e falou que primeiro tenho que ver direito como funciona o local e se posso continuar com as minhas atividades.

Minha agenda está cheia. Nas terças-feiras eu vou à Pastoral das 14:00 as 16:30; nas quartas e sextas vou à Associação dos Funcionários Públicos. Eu não posso parar, se parar a cabeça fica ruim, tenho que ter atividade. Estou no Coral dos Funcionários Públicos do Estado há 10 anos, que é composto por pessoas idosas, quase todas aposentadas.

Quando meu marido morreu, eu parei de freqüentar a associação, mas minhas amigas sugeriram que eu voltasse, e me associei novamente. Quando tem festas na associação, o nosso coral se apresenta. Eu vou lá todas as quartas e sextas – feiras, das 11:00 as 13: horas, e nas quartas-feiras também freqüento o Clube da Amizade da Associação. No início, formei uma banda com o pessoal da terceira idade, mas com o tempo a banda se desfez.

A associação fica no centro da cidade, perto da praça da Sé, e ainda consigo ir sozinha, graças a Deus. Eu pego o ônibus perto de casa, vou até a Estação Santa Cruz, e de Metrô até a Praça da Sé. Da Praça da Sé até a Associação é perto, eu vou a pé. Nesses dias eu almoço na associação, que tem refeitório, mas às vezes eu e minhas amigas vamos almoçar em algum restaurante perto da Sé. Tenho uma turminha boa lá e, de vez em quando, nos reunimos aos domingos. São amizades antigas de quase dez anos, as idades variam, mas todas têm mais de 50 anos. Minha vida é assim, na Associação, na casa de amigos e casa dos filhos.

Meus filhos têm casa na praia e às vezes vou para lá. Minha vida é para os filhos e netos. Mas também gosto das minhas atividades. Eu vou ficar em casa fazendo o que? Deixa-me dar um pouco do que tenho ainda. Minha vida é essa, e adoro fazer serviço voluntário. Meu marido sempre falava: se alguém souber de um lugar para trabalhar sem ganhar nada, pode chamar a mamãe. Quero trabalhar com coisas que eu gosto, que me dão prazer.

Dona Dulcita no Natal de 1991

Estou bem, mas acho que tomo muito remédio. Ao todo, tive 8 filhos; um aborto e um natimorto. Tomo um remédio para bexiga que me faz bem, ele evitou que eu fizesse uma cirurgia. Às vezes tenho um pouco de tosse, e que me incomoda há anos, durante o dia a tosse melhora e à noite ela vem. Eu não dormia bem e o meu médico mandou preparar uma fórmula para eu dormir, e agora durmo bem. Vou para a cama faço minhas orações, pego um livro e fico lendo, assim todos os dias. Não gosto de assistir novelas o tempo todo, gosto muito de ler Assino o Estado de São Paulo, leio o jornal todos os dias e faço as palavras cruzadas. Levanto, tomo café e leio as primeiras manchetes do jornal. Depois eu saio para fazer minhas atividades. Se tiver mais alguma notícia no jornal que me interesso eu leio mais tarde.

Tenho uma dor esporádica no braço, mas acho que não é reumatismo. Só fiz uma cirurgia na vida, foi apendicite. Hoje estou com um pouco de dor na cervical, mas como meu neto vem me buscar para o aniversário do meu bisneto não posso ter dor. Meus filhos me acolhem de toda forma e, graças a Deus, eu tenho meu salário.

Dona Dulcita tem uma pessoa que a ajuda há 6 anos, e que lhe faz companhia á noite, de segunda a sábado. Dois dias por semana a ajuda nos afazeres da casa, já que nos outros dias trabalha em outras casas.

Até um tempinho atrás eu fazia a comida, agora não faço mais. Quando estou em casa, vou buscar almoço aqui perto. Tem uma senhora que fornece refeições, mas não entrega, então ou eu ou a menina que trabalha comigo vai pegar.

Quando perguntei se dona Dulcita tocava piano em casa ela me respondeu que raramente o faz. Disse que não tem vontade e que também pode atrapalhar os vizinhos.

Ela continuou:

Eu tocava de ouvido, ouvia uma música e já tirava no piano, tinha muita facilidade. Quando tem festa na associação eu sempre acompanho ao piano.

Neste momento, Dona Dulcita levantou-se do sofá sentou ao piano e disse: vou tocar uma musica para você, toco essa musica desde que eu tinha 14 anos.

Com grande desenvoltura, sentou-se ao piano e tocou maravilhosamente “La Cumparsita“. Fiquei muito emocionada, e não desliguei o gravador…

Nesse momento contou que essa era a música que ela tocava na época que estava no colégio interno. E completa:

Eu só tinha 14 anos, chorava muito de saudade da minha mãe.Só pensava na minha casa. Não sei porque meu pai me colocou naquele colégio. Tive um professor de piano, que também era compositor, chamado Vicente de Lima, que usava o nome ao contrário: Amil Etnenciv. Ele me dizia que poucas pessoas dominam o piano como eu. Quando era pequena, ajoelhava no chão e dedilhava nos objetos, e minha mãe dizia que eu já queria tocar piano.

A religião

A religião é muito importante para mim. Quando estou triste eu me apego com Deus, e quando estou alegre, agradeço a alegria que eu tenho. Aprendi religião no colégio, e minha mãe também ensinou um pouco, mas eu não soube transmitir para meus filhos. Minha filha ia comigo a missa e não gostava, passava mal. Quando estou triste eu rezo, me faz bem. As minhas tristezas são preocupações com os filhos, e rezo muito por eles. Tenho uma filha casada, que mora nos Estados Unidos há mais de 10 anos, e que se mudou para lá quando o marido foi transferido.

A morte

Eu peço a Deus que não me dê uma morte repentina, pois quero receber o sacramento da extrema-unção. Sempre peço isso a Deus. Não tenho medo de morrer, estamos aqui hoje e amanhã podemos não estar mais. Eu quero me preparar para sair daqui e, por enquanto, eu ainda não estou preparada.

Uma Mensagem:

Acho que o essencial é você estar de bem com a sua consciência. Se alguma coisa me atrapalha, eu procuro tirar aquilo e ficar bem. Eu tenho uma vida boa, não posso me queixar. Meus filhos são excelentes, os netos também, e os mais ligados são os filhos da minha filha porque ficaram mais perto de mim. Hoje meu filho mais velho tem 65 anos e minha filha mais nova tem 49 e, Graças a Deus ,estão todos aí e bem. Gostei muito de conversar com você, me identifiquei com você. Adorei a sua entrevista, você é muito simpática, muito bonita e muito agradável.

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