Dona Célia Saks, 83 anos

Nós éramos em 5 irmãos, 3 mulheres e 2 homens. Eu era a caçula. Nasci no dia 9 de julho de 1925. Estudei no Caetano de Campos. Entrei na escola cedo. Fiz o jardim da infância, depois o antigo curso primário e ginásio. Terminei o ginásio em 1943. Naquela época, o estudo era muito bom. Tínhamos francês, inglês, latim, português, física, química e história natural.
Tive uma ótima formação, mas não continuei os estudos, eu queria mesmo era trabalhar.

Marisa Feriancic

 

O Natal de 1948

Conheci Samuel na véspera de Natal do ano de 1948. Foi uma história de muito amor. Foi um encontro interessante.

Célia Saks

No dia 24 de dezembro de 1948, meus pais e eu, fomos passar o Natal na casa de minha irmã. Só eu era solteira nessa época, todos meus irmãos já haviam casado. Quando voltamos para casa, minha mãe notou que faltava um pacote de presente. Ela não sabia se tinha ficado no táxi ou na casa de minha irmã. Mamãe pediu que eu ligasse para a casa de minha irmã para saber do presente.

Disquei o número do telefone da minha irmã, e quando atenderam, percebi que tinha discado o número errado; era um bem parecido. O rapaz que atendeu, disse que era engano e começou a puxar uma prosa comigo. Brincamos um pouco com a situação e depois desligamos.

Disquei novamente e deu o número errado outra vez, novamente ele atendeu. Continuamos a prosa e combinamos de nos conhecer. Ele voltou a me ligar e combinamos um encontro. No dia 27 de dezembro fomos nos encontrar no Parque da Água Branca (São Paulo).

Eu tinha 23 anos e Samuel 30 anos. Ele já era advogado formado, já trabalhava na profissão. Eu trabalhava com meu pai na Avenida Libero Badaró, no escritório da bolsa de mercadoria. Eu trabalhava na área de contabilidade.

Quando Samuel me viu, me achou muita criança. Eu já tinha 23 anos, mas tinha aparência de criança. Ele disse: você é muito criança, vamos que eu te levo para casa. Ele já tinha automóvel, me levou embora para minha casa.

Célia no carro de Samuel

Ele me ligou novamente e saímos para conversar. No terceiro encontro, início de janeiro de 1949, ele me contou que tinha sido casado e que estava separado há 5 anos, mas que não tinha filhos. Aí começou a encrenca com meu pai.

Contei para meu pai sobre o Samuel, disse que gostava muito dele, mas meu pai não aprovava o namoro. Nos dois meses que se seguiram, meu pai não deu sossego. Não aceitava nosso relacionamento. Nessa época Samuel saiu de férias e foi para a Argentina. Ficou lá durante um mês, me escrevia todos os dias e eu sempre respondia.

Tenho todas as cartas dele guardadas até hoje.

Uma vez chegou uma carta dizendo que ele não estava mais recebendo notícias minhas e que se achasse que eu não queria continuar nosso relacionamento ele respeitaria, mas não achava nada errado com a gente.

Nessa carta ele pedia que eu enviasse a carta resposta ao Rio de Janeiro. Eu encaminhei a carta para o Rio de janeiro, e o amigo dele enviou para São Paulo. Na verdade, ele já estava em São Paulo, mas não me avisou.

Quando recebeu a carta, me mandou um buquê de flores. Eu telefonei para o escritório dele, e começamos a sair novamente.

Contei ao meu pai, mas ele não aceitava.

Após 4 meses, meu pai me tirou do trabalho para eu não encontrar mais com Samuel. Mandou-me para Lindóia, para Botucatu, e o Samuel me ligava todos os dias. Depois me mandou para o Rio de Janeiro, e o Samuel foi atrás. Fiquei na casa de uma prima no Rio de Janeiro, e ela recebeu o Samuel sem problema algum. Não teve jeito, meu pai não conseguiu nos afastar.

Célia Saks

Casamento

Meu pai fazia tudo para nos separar, falava com todo mundo, pedia ajuda. Depois de muita confusão, casei com Samuel Saks em 1951, casei com muito amor. Mais tarde surgiu uma lei que permitia que eu usasse o nome dele, ele fez questão disso.

Meu pai alegava que ele era separado. Ainda não existia separação legal. Só me casei oficialmente em 1992.

Samuel fez uma jantar e convidou um casal de amigos, a mãe dele, a irmã e o cunhado, para comemorar a nossa união. No dia seguinte eu saí de casa.

Na noite do dia 16 de fevereiro de 1951, fomos para a Argentina em Lua de Mel.

O amor era tanto que eu nunca me arrependi. Não existe felicidade completa, depois de 47 anos de casados a vida muda, mas fomos muito felizes. Eu nunca deixei de freqüentar a casa dos meus pais, mas meu marido não entrava lá, não era aceito.

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Em 1953, quando nasceu meu filho, meu pai resolveu aceitá-lo, e fez as pazes com Samuel. Em 1955 nasceu minha filha. Meu pai faleceu em 1960, minha mãe morreu de velhice em 1972.

Quando me casei, morei 20 anos no Bosque da saúde, era uma chácara muito gostosa. Depois mudei para a Oscar Freire, onde morei 35 anos. Há 3 anos estou aqui nas Perdizes (SP). Minha filha também mora neste prédio.

O apartamento da Oscar Freire era muito grande, gostava de lá, mas não tenho saudade. O Samuel faleceu nesse apartamento, em 1999.

Tenho saudade da chácara do Bosque da saúde, pois foi lá que meus filhos nasceram.

Minha irmã mais velha foi uma mãe para mim. Ela faleceu em 1988. Eu estava sempre perto dela. As outras irmãs faleceram em datas muito próximas. Uma em dezembro de 2007 e a outra em janeiro de 2008. Em 20 dias perdi duas irmãs.

Eu nunca tive vontade de casar outra vez, essa coisa de evitar filho complicava a vida da gente. Eu adorava abraçar meu marido, ficar junto dele, mas hoje, não consigo imaginar um homem junto a mim. Uma companhia para sair, passear, ir ao restaurante, tudo bem. Poderia ser um amigo. Mas não sei se existe esse tipo de amizade hoje em dia.

Eu não me sinto só, tenho minhas netas que sempre estão aqui.

A saúde

Quando minha irmã morreu, fiquei preocupada. Fiz vários exames e os resultados foram normais.
Atualmente tenho diabetes, mas está controlada. Minha sobrinha é minha médica, ela é endocrinologista e me controla muito bem.

Eu vou visitar meu cunhado, ele está muito esquecido. Está com 88 anos. Ele está muito bem cuidado, mas é um motivo para eu sair um pouco de casa.

Eu dirijo ainda, tenho meu carro e posso ir onde quiser, mas já não tenho muita vontade. Antigamente ia muito para Campos de Jordão. Agora vou menos. Uso o carro mais para ir ao Banco ou para fazer uma visita.

Informática

Meu computador também me faz companhia.

Fiz um curso de informática, e gosto do computador para distrair, gosto de jogar paciência. Faço muitas coisas ainda. Gosto de fazer tricô, crochê, de cozinhar, de costurar. Ainda faço minhas calças compridas. Tenho curso de alta costura, fiz muitas roupas para mim. Gosto muito de cozinhar, principalmente doces.

Envelhecimento

Sou diabética há 20 anos, sou boazinha para doenças, sigo direitinho a dieta. Hoje eu fiz suspiro e fios de ovos, e só comi um suspiro.

Acho que na velhice temos altos e baixos, mas os aborrecimentos naturais da vida dão um desgaste muito grande. Por exemplo, com 80 anos, vender um apartamento, fazer mudança, mudar de casa não foi fácil. Mas agora estou bem instalada, gosto do lugar, e estou satisfeita com meu apartamento.

Célia Saks

Minha saúde está boa, o que posso esperar mais da vida? Não vejo vantagem em viver muito mais. Para quê? Para tomar lugar de outra pessoa?

Os prazeres, eu tenho, quando entro na cozinha ou quando faço uma costura. Mas não é sempre que tenho vontade. Se minha filha pede para fazer uma costura ou uma almofada eu faço, mas não tenho hora certa. Só quando me dá vontade.

Não posso me queixar da vida, mas a gente vai acabando dia após dia.

O tempo vai passando muito rápido e o que você usufrui desse tempo?

Não vejo satisfação no uso desse tempo.

Não sei, talvez falte um gosto maior pela vida.

Eu fazia tricô e todos achavam bem feito, eu não. O Doutor Maia me falava que deve ter faltado incentivo na minha juventude. Faltou alguém que me animasse, que me valorizasse mais. Talvez seja isso. Uma conseqüência da educação.

Eu não posso me queixar, tenho pena das pessoas mais velhas que não têm saúde, é mais difícil.

Eu me cuido direitinho. Tomo meu remédio para diabetes, tomo cálcio, Ginko Biloba, lecitina de soja e o necessário para ficar bem, mas mesmo assim eu acho a velhice uma tragédia… grega!

Os estímulos vão se esvaindo.

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