Dez anos depois, genoma ainda é um labirinto

Antes do sequenciamento do genoma humano, acreditava-se que o código decifrado da vida abriria as portas para a cura de inúmeras doenças. Não demorou muito para se descobrir, do outro lado, um labirinto de novos enigmas e poucas respostas.

Alexandre Gonçalves 

 

As surpresas começaram com o número de genes que codificam proteínas – substâncias responsáveis pelo trabalho pesado nas células, como coordenar reações químicas e atuar como elemento estrutural.

Um raciocínio simplista propunha: se uma minhoca tem 19 mil genes, o patrimônio humano deveria beirar os 100 mil. Caso contrário, seria impossível explicar tanta complexidade. Certo?

Errado. O ser humano tem apenas 21 mil genes que codificam proteínas, número comparável ao repertório de camundongos e chimpanzés. Sem dúvida, o segredo da espécie humana não está no número de letras químicas que guardam a receita da vida, mas no modo como essas letras são lidas.

A evolução proporcionou mecanismos sofisticados para que a mesma região do DNA seja traduzida de diversas formas, com finalidades diferentes. Por enquanto, os pesquisadores ainda tateiam os mecanismos que tornam os genes tão versáteis. Engatinhamos no proteoma – a descrição das proteínas que os genes são capazes de fabricar.

Além disso, apenas 1,5% do genoma codifica proteínas. O resto chegou a ser rotulado como “DNA lixo”. Em tese, não guardaria dados relevantes. Hoje, os cientistas sabem que o “lixo” – reabilitado com o nome de DNA não codificante – exerce um papel fundamental e, até agora, pouco compreendido no metabolismo celular. Surge assim outro labirinto de perguntas.

“É como escalar uma montanha”, compara Sergio Verjovski Almeida, do Instituto de Química da USP. “Muitas vezes, quando você chega ao topo, avista outro cume mais alto para subir.” Almeida pesquisa o genoma do câncer. Estuda, por exemplo, o papel do DNA não codificante em tumores.

A história da proteína p53, descoberta em 1979, mostra como a complexidade não conhece limites. De início, ela foi vista apenas como um supressor tumoral. Na última década, pesquisadores descobriram que a p53 se liga a regiões do genoma para controlar a transcrição de substâncias que coordenam o crescimento celular. Hoje sabemos que ela interfere em milhares de posições do DNA. Também interage com inúmeras proteínas que alteram seu comportamento original.

O gene responsável pela produção da p53 pode ser lido de nove formas, fabricando versões da proteína com funções tão diferentes como garantir a fertilidade ou promover o desenvolvimento do embrião. A cada semana, surgem artigos sobre novas facetas da p53. E ela constitui apenas uma peça de um quebra-cabeça com milhares.

Para entender sistemas tão complexos, biólogos buscaram ajuda na computação. Segundo um levantamento realizado pela revista científica Nature, quando o genoma humano foi anunciado, em 2000, havia 8 bilhões de letras químicas armazenadas nos três principais bancos de dados do mundo. Hoje, as mesmas instituições – nos EUA, Japão e Europa – guardam 270 bilhões de pares de bases de DNA.

Não é fácil processar tanta informação. Mesmo assim, o maior desafio ainda é extrair conhecimento dos dados e terapias dos conhecimentos. Em 1989, Francis Collins, que mais tarde coordenaria o Projeto Genoma Humano, identificou o gene alvo das mutações que causam a fibrose cística, doença grave que compromete vários órgãos e leva à morte prematura.

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Em um artigo de março deste ano, Collins afirma que a descoberta custou US$ 50 milhões e vários anos de trabalho. Atualmente, bastariam poucos dias, alguns milhares de dólares e um estudante de pós-graduação competente. Vinte anos de pesquisa baratearam o sequenciamento, mas não trouxeram a cura da fibrose cística.

Também existem boas notícias. Pelo menos quatro medicamentos para câncer nasceram de pesquisas relacionadas ao Projeto Genoma. Iniciativas como o Atlas Genômico do Câncer, que reúne 20 mil projetos para mapear mutações relacionadas a tumores e apontou candidatos interessantes para terapias.

O geneticista José Pedro Fonseca, que passou um ano no Instituto J. Craig Venter, nos Estados Unidos, recorda o princípio conhecido como “primeira lei da tecnologia” para descrever o impacto do genoma humano na história. “Como em outras áreas, os resultados foram superestimados no curto prazo, mas se mostrarão subestimados no longo.”

Brasil precisa criar massa crítica de pesquisa

Se o país quer se tornar protagonista no campo da genômica, deve aumentar o número de pesquisadores que atuam na área. Essa é a opinião do biólogo Fernando Reinach, colunista do Estado e um dos coordenadores do projeto que decifrou o genoma da bactéria Xylella fastidiosa e introduziu brasileiros nas técnicas de sequenciamento.

– Aparentemente, as farmacêuticas investem pouco em pesquisas com o genoma. Por quê?

As grandes indústrias preferem apostar em propostas de terapias que estão em um estágio mais avançado de desenvolvimento. Atualmente, elas enfrentam um problema: possuem poucos remédios prontos para serem lançados no mercado. Os estudos com o genoma ainda estão na fase de pesquisa básica. Se elas apostam em um projeto que vai levar 10 ou 20 anos para virar um produto, o que vão vender até lá?

– Como você avalia a participação do Brasil nos esforços para interpretar o genoma humano?

Há pesquisadores trabalhando nessa área. Mas são poucos. Precisaria haver muito mais para aumentar as chances de as pesquisas se transformarem em terapias. Funciona como um funil. Nos Estados Unidos, há centenas de cientistas nas universidades realizando pesquisa básica. Eventualmente, algumas dezenas descobrem coisas interessantes e criam pequenas empresas de biotecnologia para viabilizar novas terapias. Quem descobre uma alternativa promissora vende a tecnologia (por um ótimo preço) para uma multinacional farmacêutica que produzirá o medicamento. No Brasil, há pouca gente na universidade fazendo pesquisa básica. Logo, quase ninguém deixa a academia para desenvolver uma boa ideia. Por fim, a maior parte da indústria farmacêutica nacional possui pouco capital para realizar os testes clínicos e lançar um novo produto no mercado.

– Além da medicina personalizada, quais frutos podemos esperar dos estudos com o genoma?

Somos o resultado de uma interação entre nosso patrimônio genético e nossas circunstâncias pessoais. O genoma vai desvendar uma das parcelas dessa equação, revelando algo sobre o nosso futuro. Além disso, a medicina tradicional também vai tirar proveito das pesquisas com o genoma.

– Quais as implicações éticas?

Informações sobre o genoma poderão revelar que uma pessoa tem predisposição para determinadas doenças, com graves consequências pessoais e sociais, como o impacto em cláusulas de seguros de saúde ou em decisões trabalhistas. Contudo, os dilemas éticos poderão ser resolvidos com uma regulamentação sensata.

Fonte: O Estado de SP, 27/6, extraído do JC e-mail 4040, de 28 de Junho de 2010. Acesse Aqui 

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