Muito idosos são abandonados em unidades de abrigo por terem rompido o vínculo familiar. Dados do Governo do Estado revelam que o número de denúncias de violência contra os idosos aumentou cerca de 10% na comparação entre 2005 e 2006.
(Foto: Patrícia Araújo/Especial para O POVO)
A aposentada F.A.O. (identidade preservada), 93, vive um drama familiar. Os maus-tratos(agressões verbais e pressão psicológica) impostos pela neta e pelo filho começaram em março de 2006, por causa de uma disputa pelo dinheiro da pensão e da aposentadoria. Em janeiro, um limite foi quebrado: a aposentada foi vítima de agressão física, teve o braço ferido e deu queixa de agressão no 3º Distrito Policial (Otávio Bonfim). O caso descrito acima é mais um exemplo do aumento da violência contra o idoso em Fortaleza, seja ela física ou psicológica.
Levantamento feito pelo Alô Idoso, programa da Secretaria da Controladoria e Ouvidoria voltado ao atendimento do idoso, revela que, em 2006, foram encaminhadas 873 denúncias ao programa, um crescimento de cerca de 10%, se comparado a 2005, quando foram registradas 797 ocorrências. A maioria das denúncias são referentes à negligência (recusa ou à omissão de cuidados devidos e necessários aos idosos), maus-tratos e posse indevida de cartão de benefícios. Os casos de agressão e abandono vêm na seqüência.
Quando acionado, o Alô Idoso registra a denúncia e a encaminha para o Serviço Especial de Defesa do Idoso (Sedi), que entra em contato com a Secretaria Executiva Regional (SER) do bairro. Uma equipe de assistentes sociais da SER vai até o local e faz um diagnóstico da situação. O relatório é enviado ao Sedi. A família, então, é chamada para uma tentativa de conciliação. Dependendo do grau da violência, o Ministério Público é acionado. Segundo uma das atendentes do Sedi, Daniele Teobaldo, há casos em que a Polícia tem de intervir, retirando o agressor da residência da vítima.
A presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Idoso (Cedi/CE), Vejuse Alencar, afirma que três fatores podem explicar o crescimento da violência: a cultura de não valorização do idoso, as dificuldades financeiras e a falta de apoio ao idoso por parte do poder público.
“Historicamente, o idoso não foi visto como uma pessoa que contribua com a família. Depois que ele se aposenta, há uma visão de que ele não tem mais função social. Tanto faz estar com dinheiro como não estar. A família não percebe que está realizando uma violência, herdada de uma cultura passada. Isso é feito de maneira inconsciente”, explica.
Essa atitude de desvalorização do idoso, acrescenta Alencar, desencadeia outras, como o desejo de posse do cartão de benefícios. O fato é reforçado pelas dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias. “‘Vamos tirar de quem tem e que recebe no prazo’, pensam os familiares. O idoso, então, acha que tem de entregar o dinheiro para o filho. O idoso consciente, por sua vez, sabe que o dinheiro é dele e não tem de repassar. Os que se recusam não tem respaldo, não tem quem faça alguma coisa por eles”, argumenta.
Segundo Vejuse Alencar, falta uma delegacia específica para atender os casos de violência contra idosos. Essa iniciativa já existe, ressalta, no Ministério Público Estadual (MPE). As denúncias de maus tratos e outras agressões a idosos são encaminhados para seis varas específicas.
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Fonte: Jornal O Povo, 12/02/2007. Disponível Aqui