Cláudio Guimarães dos Santos, da velhice à “Definições Fundamentais”

“Percebi, já há muito tempo, que sou uma “metamorfose ambulante”, um “ser estranho” – não sei se cisne ou se “patinho feio” -, mas o fato é que nasci para fazer pontes entre diferentes áreas da vida e do conhecimento.

Beltrina Côrte

 

claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisE eu o faço com meu sangue, com minha carne, com minha alma. Dou a cara para bater. A transdisciplinaridade circula nas minhas fibras nervosas e… pronto!”.

Cláudio Guimarães dos Santos nasceu em São Paulo, em 12 de abril de 1960. Além de poeta e pai do Gabriel, é médico, mestre em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da USP e doutor em Linguística pela Université de Toulouse-Le Mirail (França). É, também, ensaísta, além de colaborador de diferentes veículos de comunicação, entre os quais a Folha de S. Paulo (Seção “Tendências/Debates”). Pode-se ter acesso a uma parte dessa produção literária Aqui 

claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisComo artista plástico Cláudio já participou, em São Paulo, de exposições no MAC, no MAM, na Pinacoteca e no MIS. Exemplos dessa produção (desenhos, pinturas, esculturas e objetos) podem ser encontrados Aqui 

Durante sua passagem pela ECA, escreveu e dirigiu o filme “O Atentador” (longa-metragem em Super-8).

Como médico (formado pela Escola Paulista de Medicina), atuou na área do diagnóstico e do tratamento de disfunções cognitivas (especialmente daquelas relacionadas à linguagem e à memória). Criou e coordenou, em São Paulo, a Unidade de Reabilitação Neuropsicológica/URN. Realizou, ainda, investigações nos campos da psicoterapia, da semiótica e da filosofia da mente, sempre com um enfoque transdisciplinar.

Como professor e pesquisador, trabalhou no Instituto de Estudos Avançados/USP, na Faculdade de Medicina/USP, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP, na UNIFESP, entre outras instituições brasileiras. No exterior, atuou como pesquisador, docente e conferencista em diversos países, notadamente na França, nos Estados Unidos, no Canadá, no México e no Uruguai. Cláudio Guimarães dos Santos é também autor de artigos científicos, de ensaios como o “Envelhecimento, Memória e Psicoterapia” (Revista Kairós/PUC-SP) e do livro “Tópicos em Neurociência Cognitiva e Reabilitação Neuropsicológica”.

Desde 2010 Cláudio é diplomata de carreira e já serviu no Consulado-Geral em Frankfurt e na Embaixada em Montevidéu. Que tal conhecê-lo um pouco mais?

claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisBELTRINA (PORTAL) – Cláudio, eu conheci você em 2001, durante uma palestra intitulada “Desafios da longevidade: agonia ou êxtase”, na PUC-SP, na qual você assinalava que “a pior maneira de se enfrentar os desafios da longevidade é negar a existência das grandes dificuldades que lhe são inerentes”. Essa palestra tinha como base, em grande medida, a sua experiência no acompanhamento, tratamento e reabilitação de pacientes idosos. De lá para cá mudou alguma coisa?

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – A minha convicção em relação a essa percepção somente aumentou de lá para cá. Negar as inegáveis dificuldades que acompanham o processo de envelhecimento – incluindo a eventual discriminação da parte das pessoas mais jovens -, é uma receita certa para envelhecer mal e tristemente. É inacreditável, mas a velhice é, ainda, assunto tabu, mesmo entre os profissionais que mais se dedicam a esse tema.

PORTAL – Três anos depois, convidado de novo pela PUC-SP, além de fazer mais perguntas do que dar respostas, você nos lembrava que a idade mais avançada acaba propiciando uma excelente – senão derradeira – oportunidade para que o indivíduo se debruce sobre questões que dizem respeito ao mistério da existência e ao sentido da vida.

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – Esse é o outro lado da questão. O lado por assim dizer luminoso e, sem dúvida, o mais relevante. Um conhecido – mas sábio – “chavão” aplica-se aqui perfeitamente: há sempre portas que se fecham e outras que se abrem. O problema, infelizmente, é que as pessoas, em geral, preferem lamentar os fechamentos e ignorar – ou mesmo desprezar – as aberturas. Muitos se esquecem, por exemplo, de que a busca filosófico-religiosa pelo sentido da vida somente pode começar – de verdade – depois de certa idade, depois que o indivíduo viveu, sofreu, chorou, amou, odiou, sorriu, gozou, lutou, ganhou, perdeu, enlouqueceu, feriu, arrependeu-se, etc.

Como escreveu o meu “duplamente colega” – poeta e diplomata – Vinicius de Moraes: “Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu (…) Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não.” Dante Alighieri, também, no Canto III da “Divina Comédia”, condena, pela boca do poeta Virgílio, as pessoas que, no mundo, não deixaram nenhum traço, que gastaram a vida de modo displicente, insensato e “sem sal”.

Somente o distanciamento proporcionado pelos anos é capaz de tornar possível a contemplação serena da vida, bem como o respeito reverente pela inevitabilidade redentora da morte, que é – queiramos ou não – a referência para a constituição de qualquer percepção madura acerca do mistério da existência.

PORTAL – Dez anos se passaram e o Cláudio que assinava como médico, artista plástico, mestre em Artes, doutor em Linguística, psicoterapeuta, professor de pós-graduação, autor de trabalhos científicos e de ensaios filosóficos, volta à cena brasileira como diplomata de carreira e poeta, lançando a coletânea “Definições Fundamentais”. Que reviravolta foi essa? Conte-nos como se deu essa mudança em sua vida…

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – Como dizem lá nas Minas Gerais: fui indo, fui indo e fui “fondo”… No que se refere ao Itamaraty, aconteceu mais ou menos o seguinte. Eu alimentava, há tempos, um interesse muito grande em construir uma ponte heurística entre a teoria psicológica, de um lado, e a práxis diplomática, de outro. Num belo dia, descobri por acaso – sempre o acaso… – que o concurso (dificílimo…) para a carreira diplomática não tinha limite de idade. Depois disso, foi só combinar essa informação com o interesse que mencionei acima e com o desejo que eu também tinha, na época, de “dar um tempo” na minha atividade clínica, gozando, quem sabe, uma “pausa sabática” em alguma universidade nos Estados Unidos ou na Europa.

Resultado: como eu já era bilíngue em francês, fluente em inglês, e dominava razoavelmente o espanhol (os três idiomas estrangeiros requeridos no concurso), “abeberei-me” dos outros conhecimentos necessários – Economia, Direito Internacional, História, Geografia, Política Internacional, etc.. – e…. tarará-tarará-tarará…. fui parar nos “bancos escolares” do Instituto Rio Branco, com colegas muitíssimo mais jovens, justamente eu, que passara os últimos 20 anos da minha vida como o “Senhor Professor-Doutor”. Foi uma experiência riquíssima, posso assegurar a você, embora algumas vezes aborrecida e até cansativa. Uma espécie de “big brother diplomático”.

Desde então, já trabalhei no Consulado-Geral em Frankfurt e na Embaixada em Montevidéu, cidade, aliás, na qual aconteceu a primeira noite de autógrafos do “Definições Fundamentais” e onde nasceu meu (primeiro) filho, Gabriel, que está, agora, com 5 meses.

claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisPORTAL – Então, a melhor maneira para lidar com o envelhecimento é “renovar, contínua e corajosamente, o interesse pela vida”?

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – Estou certo disso. Não é fácil, eu sei. É necessário ter muita coragem. Existe, de fato, muito preconceito com relação aos idosos, como eu já disse. É preciso, contudo, em minha opinião, seguir os únicos fios condutores capazes de conduzir a algum grau de felicidade nesta Terra: a curiosidade e o desejo de satisfação intelectual. Não podemos nos esquecer de que somos seres semióticos: precisamos de respostas e, mais ainda, de perguntas, de boas perguntas. Sem isso viramos apenas “caniços irracionais”, que deambulam pela vida comprando bobagens e dizendo banalidades. Coragem, portanto, é o grande segredo (de polichinelo, no fundo…). Trata-se, todavia, de um “algo” que não se dá nem se compra, que ou se tem ou não se tem. É duro, mas é assim.

Acho que cabe, aqui, reproduzir um trecho do discurso que proferi na minha despedida da Embaixada em Montevidéu, no final de julho, pouco antes de retornar ao Brasil:

É preciso, no fim das contas, abrir mão da tal da “segurança”. Cada minuto que celebramos e que gozamos a vida é, também, um tributo prestado silenciosamente à morte. (…)

Transmutamo-nos – seja na carne, seja no espírito – sem cessar, e, apesar disso, por algum tipo de benção que nos ilude e que nos acalma, acreditamos sermos sempre as mesmas pessoas. Vivemos num mundo onde reina a impermanência absoluta, mas nele buscamos, tolamente, a estabilidade. Frustramo-nos, por isso, a cada instante.

Daí que é tolice viver sem refletir e refletir sem agir. E ninguém age sem coragem.

PORTAL – A edição de “Definições Fundamentais” está em português e conta com uma Apresentação do Embaixador Rubens Ricupero. Contém, ainda, alguns poemas que foram traduzidos para o espanhol. Como os uruguaios receberam a obra? A primeira noite de autógrafos do livro ocorreu em Montevidéu, certo?

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – A Apresentação do Embaixador Ricupero – pessoa que muito estimo e admiro – comoveu-me e honrou-me. A recepção em Montevidéu foi bastante boa. Tanto da parte da imprensa (saiu, inclusive, uma matéria no jornal El Pais: Acesse Aqui , como da parte dos que tiveram acesso à obra. O meu livro, aliás, no dia do lançamento na Embaixada do Brasil, foi distribuído gratuitamente, a convidados e representantes do Corpo Diplomático residente em Montevidéu, “em troca” de uma contribuição voluntária, que foi doada integralmente a uma instituição uruguaia que se ocupa de crianças com problemas neurológicos.

claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisPORTAL – Nesse seu processo interdisciplinar e de contínua renovação, onde e como você se inspira para criar os poemas? Para escrever, por exemplo, que “O tempo são passadas lentas,
são lascas de esquecimento,
são sobras de uns poucos instantes que sempre se repetem sem nunca perderem o seu frescor… O mito somos todos nós que cortejamos o dia como se o carpíssemos… A morte são sinfonias magníficas tocadas para ninguém”?

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – Se há um nome para o meu projeto existencial (se é que isso de fato existe…), esse nome é transdisciplinaridade. Percebi, já há muito tempo, que sou uma “metamorfose ambulante”, um “ser estranho” – não sei se cisne ou se “patinho feio” -, mas o fato é que nasci para fazer pontes entre diferentes áreas da vida e do conhecimento. E eu o faço com meu sangue, com minha carne, com minha alma. Dou a cara para bater. A transdisciplinaridade circula nas minhas fibras nervosas e… pronto!

É disso que vem a minha inspiração. Se você me perguntar se sou mais poeta do que artista plástico, ou mais cientista do que filósofo, ou mais médico do que diplomata, direi a você que não sei. Sinceramente. Só sei que vou sempre ao fim e ao fundo de tudo, com uma entrega absoluta, pois esse é o único jeito que conheço de viver a vida com a dignidade que me confere a pertinência ao gênero humano.

É politicamente incorreto, atualmente, falar bem do “ser humano”. Muitos preferem, em vez disso, fazer elogios aos macacos, aos cães, aos rabanetes ou aos gafanhotos. Penso precisamente o contrário: sou humano, nada me é estranho e muito me orgulho das virtudes e dos defeitos da nossa saga arrojada por este “cantinho do universo”.

Você me pergunta de onde vem a minha inspiração. Não vejo, no momento, melhor maneira de responder a isso do que reproduzir, aqui, um trecho do prefácio (“Ante-Scriptum”) que escrevi para o “Definições Fundamentais”:

(…) A poesia, o registro mais sublime do discurso, o conhecimento na sua mais alta voltagem, a forma de arte par excellence, nasce e cresce com o poeta, é parte dele como sua carne, exala dele como seu odor, escorre dele como seu suor, como seu sangue, como seu sêmen. O verdadeiro poeta – já o disse Fernando Pessoa – é um fingidor que não pode deixar de dizer a verdade, ainda que seja a sua verdade.

Escrevem-se (e reescrevem-se) os poemas ao longo de toda uma vida, pela decantação de engramas incompletos, de fragmentos quase esquecidos de seres, de lugares, de histórias, de imagens, de melodias e, sobretudo, de outros poemas, que são plasmados em epifanias carregadas de sentido, da mesma forma que o artesão habilidoso, na superfície de um minúsculo grão de arroz, é capaz de traçar um número improvável de signos.

Herdeiro de antiquíssima tradição, que é sempre mais densa, cada poeta é obrigado a percorrer uma rota sagrada – que é, também, sempre mais longa -, rumo ao “ar rarefeito das origens”, rumo ao “início do começo do princípio”, a fim de encontrar a própria voz, o próprio tom, a própria “embocadura”.

Ao fazê-lo, ele não apenas luta – como Jacó lutou com o Anjo do Senhor -, mas, sobretudo, conversa com os mestres que o precederam, balançando-se entre o “já dito” e o “por dizer” e observando, sonolento, do seu recuo no “banco do jardim”, a procissão monótona das pessoas, dos modismos, dos acontecimentos.

Se for bem sucedido nesse agon – que também é symposium -, descobrirá de que modo proferir o seu “canto de todos os cantos” para que soe único e inconfundível, ou seja, para que soe próprio. Combinará, no atanor que empunha como lira, o legado necessário do passado com a gratuidade imprevisível do futuro. Retirará da cartola, que é a sua marca de profeta-hierofante-demiurgo, o “coelho branco” do poema, que irá conduzi-lo – e aos seus leitores – a vastos mundos de maravilhas e de espelhos, isso – é claro – se já não for tarde, muito tarde, muito tarde… (…)

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claudio-guimaraes-dos-santos-da-velhice-a-definicoes-fundamentaisPORTAL – O envelhecimento e a longevidade, no final das contas, viraram poesia, Cláudio?

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – Estão virando – alquímica e continuamente – estão virando. Poesia é síntese e a vida – quando cumprida de forma maiúscula – é poesia que se faz e que se refaz continuamente, nas corcovas do tempo, avançando em direção ao porto seguro da eternidade, ou seja, do “não-tempo”. Escrevi, certa feita, que a biografia de cada um é feita de irrelevâncias que se mostraram, depois, cheias de significado. A poesia, para mim, é o extrato concentrado de todas essas “irrelevâncias significativas”, que são sempre polissêmicas e necessariamente ambíguas. É isso. Pelo menos, por enquanto. Tudo pode mudar. Tudo neste mundo é possível.

PORTAL – Para concluir…

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS – que, para concluir, caberia transcrever um dos poemas da MINHA coletânea, cujo título é “Poema dos Tempos Futuros”:

POEMA DOS TEMPOS FUTUROS

Até ontem, a minha rota estava certa

E exatamente calculada.

Colhi, por isso,

Projetos inconclusos,

Gozos inesperados,

Amigos que partiram de uma vez,

Outros, novos, que chegaram,

Sucessos previstos por ninguém,

Vários becos sem saída,

Livros fantásticos que li,

Dores que pensei não suportar,

Vitórias que foram tristes,

Derrotas que me alegraram,

Gente boa que encontrei,

Gente má que já esqueci,

Escritos dos quais me orgulho,

E os muitos que destruí,

Música sacra, música profana,

A vida imprevisível como o vento,

Que sopra somente onde quer.

Meu futuro, porém, será diferente.

Não deixarei espaço para o acaso.

Já tenho tudo planejado:

Ele será o que os deuses quiserem.

Em tempo

A noite de autógrafos da coletânea de poemas – “Definições Fundamentais” -, terá lugar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (SP) no próximo dia 13 de agosto. O livro já está à venda no site da Livraria Cultura, em São Paulo.

Legenda das fotos

Foto 1: Cláudio Guimarães dos Santos, sua mulher, Amanda (com o Gabriel) e o Embaixador do Brasil no Uruguai, João Carlos de Souza-Gomes.

Foto 2: Cláudio Guimarães dos Santos declamando o poema “Responso de São Gabriel” (que escreveu para seu filho) durante cerimônia na Embaixada do Brasil em Montevidéu.

Foto 3: Cláudio Guimarães dos Santos, em pé, declamando o poema “Ciudad Vieja” para os presentes à noite de autógrafos; na mesa sua mulher, Amanda (com o Gabriel), e o Embaixador do Brasil no Uruguai, João Carlos de Souza-Gomes.

Foto 4: No primeiro plano, Amanda (ainda grávida), o Embaixador do Brasil no Uruguai, João Carlos de Souza-Gomes, e o Excelentíssimo Senhor Presidente do Uruguai, José Mujica. No segundo plano, Cláudio.

Foto 5: Capa do livro que está sendo lançado

Foto destaque: Cláudio, Amanda, Gabriel e o livro

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