Com certeza a tese de doutorado desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) exigiu esforço intelectual, fôlego, além de discutir questões complexas que envolvem inúmeras relações. Estudar o estado e os comportamentos de saúde, a duração do sono e o sentimento de felicidade de idosos de Campinas e de outras três regiões do Estado de São Paulo pode nos levar a algumas conclusões ou suspeitas.
Como é difícil avaliar a “felicidade”! Algo que para um integra tanto e para o outro praticamente nada. A pesquisa apontou que “no quesito felicidade, 77,2% dos idosos de Campinas disseram sentir-se felizes”. A primeira vista o número me pareceu muito alto, logo pensei: quais seriam as perguntas que levaram essas pessoas a este estado quase nirvânico?
Bem, dúvidas a parte, o estudo revelou que “a saúde foi o aspecto que mais pesou no sentimento de felicidade de homens e mulheres acima de 60 anos”. Daí foi inevitável a reflexão: boa saúde nos torna vivos por mais tempo. E vivos por mais tempo nos torna infalíveis e, sendo infalíveis somos invadidos por um enorme sentimento de felicidade, já que estamos vivos. Por quanto tempo? Não importa, apenas o hoje está em questão.
O sono também foi estudado, melhor ainda, a relação da duração do sono com a qualidade de vida em saúde. Nada mais pertinente e apropriado para a vida agitada que levamos. Um sono de qualidade envolve um dia melhor, uma vida saudável e possível.
A tese de doutorado defendida no programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp “Qualidade de vida em saúde e bem-estar subjetivo em idosos. Um estudo de base populacional” da educadora física Margareth Guimarães Lima e orientadora Marilisa Berti de Azevedo Barros, professora e médica epidemiologista, resultou em artigos, ou seja, recortes da própria tese.
Exercício, tabaco e álcool
Avaliando o consumo de bebida alcoólica e o tabagismo como comportamentos relacionados à saúde, o estudo com os idosos revelou que “71% dos entrevistados não praticavam atividade física no lazer, 12% eram fumantes e 25% ingeriam bebida alcoólica ao menos uma vez por semana.
Dentre “os idosos que praticavam atividade física no lazer, a caminhada era o exercício mais praticado (79%).” Para o tabagismo, verificou-se o maior percentual de fumantes no sexo masculino com 60 a 69 anos, empregados e com renda menor do que um salário mínimo.
Quanto à ingestão de bebidas alcoólicas, a prevalência foi maior entre os homens com idade entre 60 a 69 anos, com maior nível de escolaridade e com nenhuma das morbidades incluídas no checklist do inquérito.
Margareth explica que a prática de atividade física associa-se a melhores condições de saúde nas oito dimensões avaliadas pelo teste utilizado, principalmente nos aspectos físicos e capacidade funcional do idoso. (…) Os idosos que ingeriram bebida alcoólica moderadamente, pelo menos uma vez por semana, apresentaram melhores condições de saúde. Já os fumantes apresentaram o pior estado de saúde em escalas do componente mental – depressão e ansiedade.
O resultado não causa surpresa, comprova-se constantemente que a prática regular de atividade física melhora a condição de saúde tanto física como mental. E os fumantes, só para variar, continuam sendo os suicidas de plantão.
Duração do sono
Até bem pouco tempo, um sono de boa qualidade e em quantidade adequada, parecia bobagem para muitos e assunto pouco discutido nas rodas científicas. Hoje, percebe-se o quanto ‘um bom sono’ reflete satisfatoriamente na vida de qualquer pessoa. “Segundo alguns estudos, além de atuar na restauração diária, melhora o humor e pode prevenir acidentes em decorrência de ser benéfico para a memória e a concentração. (…) O excesso ou a privação do sono associam-se à pior saúde do idoso”.
De acordo com os resultados, 56% dos idosos mantêm um padrão de sono entre sete a oito horas, sendo que 20,5% e 23,3% dos idosos dormem seis horas ou menos e nove horas ou mais, respectivamente. A pesquisa detectou que a duração do sono diferente de sete a oito horas se associa a um pior estado de saúde, de maneira um pouco diferente entre os sexos.
Felicidade
Finalmente a comunidade científica lembrou a importância de se estudar o sentimento de felicidade, um dos grandes indicadores de bem-estar e que envolve tantas discussões na área das humanidades.
A pesquisa apontou que “35,4% dos idosos se sentiam felizes o tempo todo; 41,8% se sentiam felizes a maior parte do tempo; 14,5%, em alguma parte do tempo; e 7,2%, em pequena parte do tempo. Entre os idosos que responderam que não se sentem felizes o tempo todo estão os viúvos, os obesos, os que dormem mal e com um padrão de sono superior a dez horas”. Será que esses itens compõem um ideal de felicidade?
Já entre os “35,4% de idosos que responderam que se sentem felizes o tempo todo, a pesquisa mostrou que estas pessoas trabalham, ingerem bebida alcoólica ocasionalmente, praticam pelo menos alguma atividade física, consomem frutas, legumes e verduras todos os dias e têm uma percepção da própria saúde como excelente ou muito boa”. Difícil entender esses resultados. Como acreditar numa felicidade ligada a trabalho, ao consumo eventual de bebida, atividade física e alimentação? Felicidade parece muito mais e ao mesmo tempo muito menos, são partes, momentos, fragmentos de alguma coisa indecifrável.
Mas para Margareth, “o sentimento de felicidade pode motivar o engajamento em comportamentos mais saudáveis. Independentemente da situação socioeconômica ou cultural, o fator saúde é o que mais pesou no sentimento de felicidade para o idoso de Campinas”.
Ou para Marilisa Berti, orientadora das pesquisas ,“o uso de um indicador como este permite que se avalie o atendimento da meta final que as ações de saúde procuram: o bem-estar das pessoas e da população. E a pesquisa mostra que o sentimento de felicidade está fortemente relacionado com o sentir-se saudável. Desta forma, este indicador é importante para direcionar as políticas públicas de saúde”.
Talvez elas estejam certas, talvez a saída seja pensar num sentimento de felicidade mais objetivo e palpável e um pouco menos sofredor na nossa incessante busca.
Referências
MONTALTI, E. (2012). Tese avalia bem-estar, sono e saúde de idosos. Disponível Aqui. Acesso em 01/04/2012.