Assistencialismo Asilar Rotula o Residente como “Coitado”, Incapaz, Improdutivo e “Ocioso”, Revela Pesquisa

O Fazer Institucionalizado: O Cotidiano do Asilamento, foi tema de dissertação de Mestrado em Gerontologia pela PUC-SP, da terapeuta ocupacional Maria Amélia Ximenes, defendida em 2005. Ela buscou compreensões acerca da problemática do fazer na cotidianidade asilar em um asilo localizado em uma cidade de São Paulo, tendo como principal objetivo verificar qual é a realidade da vida cotidiana asilar e de que maneira esta pode interferir no fazer dos residentes, sob a orientação da Profa. Dra. Beltrina Côrte.

 

assistencialismo-asilar-rotula-o-residente-como-coitado-incapaz-improdutivo-e-ocioso-revela-pesquisaEla utilizou como instrumentos de coleta de dados em sua pesquisa de mestrado uma entrevista estruturada aplicada a 5 sujeitos (direção e funcionários), além de observações em campo e relatórios de alunos, os quais eram supervisionados por ela na época. Outros materiais como documentos institucionais e jornais antigos serviram para dar suporte referencial. Os dados foram categorizados e analisados simultaneamente e comparados com a literatura existente.

Maria Amélia Ximenes observou que a instituição investigada guarda algumas características de sua fundação, mantendo como elemento essencial do seu fazer o arrecadar fundos apelando para a prática da caridade. Portanto os fazeres dos residentes só são valorizados quando transformados em renda. O assistencialismo, também sustentado pela instituição, visualiza o residente como “coitado”, incapaz e improdutivo, rotulando-o de “ocioso”. Observou ainda que o ambiente institucional traz aos sentidos a sensação de abandono e tristeza e, junto ao rótulo, a impressão de marasmo. Além do mais, o trabalho voluntário dentro da instituição é feito de modo individualizado e, embora haja uma equipe de profissionais de diversas áreas, não há orientação, nem trabalhos integrados, nem os residentes são consultados sobre seus interesses nas atividades propostas. Tampouco existe um calendário que informe a programação do mês, levando-os ao estado de alienação total e à desorientação temporal.

Essas questões levaram a descobertas sobre os fatores que interferem no fazer dos residentes: a espera da morte, não há investimento em vida, ausência de projetos que a ressignifique; falta de formação dos funcionários e dirigentes sobre o processo de envelhecimento e velhice; regulamentos que impedem a flexibilidade e liberdade, “temperos” saudáveis à vida do residente; rotatividade profissional e suas consequências – a inexperiência profissional, rupturas constantes nos trabalhos e desorganização dos fazeres institucionais -; a falta de autonomia, por levar ao isolamento, à desvalorização do residente e à improdutividade; ambientes e materiais, por relacionarem-se aos quesitos independência, segurança, risco, limite de desempenho e conforto; rotina de horários dos fazeres diários os arrastam paulatinamente à despersonalização, à perda da dignidade e do respeito; e sentimento de não – pertencimento, uma vez que pertencer dá a segurança de conhecer com minúcia o espaço, favorecendo a vontade de conservá-lo e de melhorá-lo, propiciando o fazer. Conhecer esses fatores é ter à mão conceitos para desenvolver um fazer ressignificado cotidianamente em instituições que abrigam velhos.

assistencialismo-asilar-rotula-o-residente-como-coitado-incapaz-improdutivo-e-ocioso-revela-pesquisaJá em sua tese de doutoramento, defendida em 2011 e intitulada “Ócio e Trabalho: redesenhando significados na longevidade”, Maria Amélia Ximenes faz uma análise do conceito de ocupação, pois a comprovação da sua importância para a saúde e o bem-estar é fundamento para um exame cuidadoso da categoria ócio, através de seu resgate histórico e de seus modelos propostos por estudiosos do tema, tornando evidente a sua importância enquanto ocupação significativa para a velhice. Para a pesquisadora, o trabalho se apresenta no mundo longevo, decorrente da necessidade financeira ou pelo prazer de continuar na ativa. A dificuldade de administração do tempo livre, após a aposentadoria, é um dos desafios próprios do envelhecer. Em consequência o tempo e o tédio surgem como males na longevidade. A experiência do ócio é apontada como proposta para o desenvolvimento pessoal dos idosos, pois o redesenho do ócio e o do trabalho emergem como elementos de ressignificação da velhice.

Para conhecermos um pouco mais, entrevistamos Maria Amélia Ximenes. Veja o que ela nos diz:

Por que decidiu fazer mestrado sobre envelhecimento?

Logo que me graduei, optei por trabalhar na área infantil e, com o tempo, fui solicitada a atender os avós destas crianças. Conforme ia me especializando, essa população idosa se tornava mais ativa nos atendimentos clínicos. Mudei para Bauru, fui admitida para a clínica escola de uma Universidade com atendimentos abrangentes. No semestre seguinte, como professora, assumi a área gerontológica do curso de graduação de Terapia Ocupacional. Nesta época estava finalizando a especialização com o tema qualidade de vida e o idoso. Dessa forma o mestrado tornou-se essencial e imprescindível.

Como se decidiu pelo seu tema de pesquisa e como foi o seu desenvolvimento?

Um dos estágios do curso era num asilo e, questões relativas ao fazer do idoso “atormentava” o meu saber cotidiano durante os atendimentos que eu supervisionava. Tive a graça e quem sabe sorte, do meu tema ser aceito e, como os questionamentos faziam parte de uma prática, acredito que o seu desenvolvimento aconteceu com uma certa tranquilidade, pois envolvia uma busca pessoal, dessa forma trazendo um “certo prazer” na pesquisa. Claro que tudo isso favorecido pela excelente orientação e sensibilidade da professora orientadora.?

Que desdobramentos acha que esta pesquisa teve na prática ou ainda terá?

Na prática consegui entender com propriedade o processo de asilamento favorecendo o trabalho com atividades em asilos e, ao mesmo tempo, entrar no doutorado com novo questionamento, desta vez sobre o ócio, trabalho e velhice. Isso acontece com a pesquisa: proporciona perguntas, que à medida que são respondidas, surgem outras.

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Por algum motivo acha que a sociedade ainda não está preparada para implementar, na prática, o que você discute na pesquisa??

Sim, pois envolve o “momento de amadurecimento” de cada pessoa, o quanto ela está pronta para receber estas novas informações provindas de um novo conhecimento. Isso demanda tempo. Acredito que por isso os conhecimentos vindos de uma pesquisa, principalmente no que rege uma prática, demoram a serem usados no cotidiano de uma determinada prática profissional, ou até muitas vezes, não o são. Tenho visto até determinado conhecimento ser usado e, logo após, descartado como ruim, sem que este seja descutido e/ou revisto. Tudo isso acontece por causa do amadurecimento (o tempo Kairós de cada pessoa). No meu entender a pesquisa tem que se tornar parte da vida das pessoas, sendo inserida desde o início da vida escolar, assim haveria uma melhora na qualidade das pesquisas, uma maior participação e, enfim, a sociedade estaria inteiramente preparada para recebê-la e implementá-la.

O que o mestrado e a pesquisa acrescentaram em sua vida pessoal e profissional??

Inicialmente me fez entender que prática profissional e pesquisa caminham sempre juntas. Desta forma, cresci tanto na área prática como na acadêmica e, acima de tudo, dá credibilidade e maior respeitabilidade ao teu trabalho.

Quais os principais desafios que enfrentou durante o desenvolvimento da pesquisa??

O principal foi “por abaixo” antigos conceitos (ditos verdadeiros, enraizados), saber aceitar os novos, entendê-los, trabalhá-los e administrá-los para serem incorporados a nova descoberta. Tudo isso vem permeado de “angústias e brigas pessoais” e causa um certo “sofrimento”.

Quais são seus próximos passos na vida acadêmica a partir deste mestrado? E na vida profissional??

Como já disse anteriormente, o mestrado me levou ao doutorado e, agora que o doutorado acabou estou no momento de reflexão para publicação. Novos questionamentos estão surgindo e novas leituras “aparecem”. Creio que neste momento estou vivendo um fim e um novo começo. De forma gradual e madura o cotidiano profissional naturalmente está mostrando onde estes conhecimentos adquiridos se encaixam.

Sua pesquisa traz uma discussão importante. De que forma acha que ela contribui para a cultura da longevidade??

Tanto o tema do mestrado como o do doutorado “tocam”, de alguma forma ou em algum momento, o envelhescente ou o velho. A longevidade é evidente e estamos participando desse caminho, percebendo que cada vez mais os meios de comunicação destacam o tema. Dessa forma, as minhas pesquisas contribuem para informá-los e, ao mesmo tempo (espero) trazer novas questões para que continuem se informamdo, já que o tema longevidade é infinito em sua essência e sempre haverá novas questões a serem respondidas. Ainda falta um tempo, no meu entender, para que haja uma cultura da longevidade. No momento vivemos uma cultura da juventude. Nós pesquisadores temos uma responsabilidade maior para que essa cultura vire realidade.

O que diria para quem está começando a estudar na área?

Conselho de terapeuta ocupacional: fazer com prazer. Estude e pesquise um tema que você goste, que tenha afinidade. Assim o caminho se tornará menos árduo e a possibilidade de continuar na area é maior. Além do ganho em qualidade na sua vida.

assistencialismo-asilar-rotula-o-residente-como-coitado-incapaz-improdutivo-e-ocioso-revela-pesquisaMaria Amélia Ximenes tem graduação em Terapia Ocupacional, especialização em Psicologia da Saúde (UNESP/Bauru); Mestrado em Gerontologia (PUC/SP) e Doutorado em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC/SP. Atualmente ela é Analista do Seguro Social com formação em Terapia Ocupacional (INSS) e professora do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional da USC/Bauru.

Para entrar em contato com Maria Amélia Ximenes, basta contatá-la através do e-mail: [email protected]

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