A escritora Adélia Prado nasceu em dezembro de 1935 em Divinópolis, interior de Minas Gerais. Vive na cidade até hoje. “Adoro lugares pequenos. Divinópolis é a minha Macondo”, afirma, citando a cidade que o Nobel de Literatura, o colombiano Gabriel Garcia Márques, criou em Cem Anos de Solidão. A autora brasileira publicou seu primeiro livro de poesias, Bagagem, em 1976, já mulher madura. Tem sua obra traduzida para o inglês e o espanhol e experimentou grande sucesso com a adaptação de textos para o teatro, como o espetáculo Dona Doida, protagonizado pela atriz Fernanda Montenegro, nos anos 80.
Adélia começou a escrever os primeiros versos depois da morte de sua mãe, quando tinha 15 anos e terminava o ginásio. A religião e o cotidiano são temas recorrentes em seu trabalho. Muito antes de se consagrar como escritora – ganhou o Prêmio Jabuti em 1978, com poesias do volume Coração Disparado -, formou-se professora primária e exerceu o magistério por vinte anos. Está casada desde o final da década de 1950 com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil, e é mãe de cinco filhos.
A vida familiar não impediu de perseguir uma carreira literária e de seguir adiante em sua formação intelectual. Inicio a faculdade de Filosofia já com quatro crianças em casa. Formou-se em 1973, um ano depois da morte de seu pai. É nessa época que passa a escrever torrencialmente e sua vida começa a mudar, contando com uma mãozinha muito especial: a de Carlos Drummond de Andrade.
A história foi assim: Adélia mandou originais de novas composições ao também poeta e crítico literário Afonso Romano de Sant`Anna, que mostrou o trabalho a Drummond, que sugeriu ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira a publicação dos poemas de Adélia. Assim surgiu Bobagem, o livro. O poeta mineiro ainda deu uma mãozinha extra, com uma crônica no Jornal do Brasil enaltecendo a novidade literária que surgia. E a novidade era a autora que havia lido a prosa do escritor de Itabira pela primeira vez na juventude e depois ficou fã de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Uma autora que descobriu, um dia, ter encontrado uma voz própria.
Além de poesia e prosa, Adélia escreveu peças de teatro, dirigiu montagens de um grupo amador e trabalhou em duas ocasiões, na Secretaria de Educação e Cultura de Divinópolis passou por uma depressão que gerou um jejum de livros de vários anos, quebrando em 1994, com a publicação de O Homem da Mão Seca, prosa iniciada em 1987. recentemente, a autora lançou Quero a Minha Mãe (2005) e Quando Eu Era Pequena (2006), sua primeira incursão na literatura infantil, que mistura lembranças com ficção, ambos pela Editora Record.
Tam Magazine – A senhora escreveu seus primeiros versos após a morte de sua mãe. Foi uma perda que despertou sua vocação literária?
Adélia Prado – Acredito que cada pessoa tem o seu momento de encontro com a vocação, a hora em que tem certeza: esta atividade me dá prazer, alegria, isto é o que quero fazer na vida. Tal coisa é mais que ofício, carreira, profissão, porque confere sentido, significado à existência. Mas a experiência de uma escrita torrencial, prazerosa, veio muito tempo depois da morte de minha mãe. Foi aos 40 anos que publiquei meu primeiro livro, Bagagem, já então segura de que era porta.
Tam Magazine – Porque um escritor escolhe dar seu recado pela poesia e outro, pela prosa?
Adélia Prado – Não é escolha do autor. É como um cantor que tem voz de barítono e quer cantar no registro do baixo ou do tenor. Há autores que escrevem prosa e poesia, mas só devem faze-lo por intuição própria “coisa” a ser expressa. Nunca por seu arbítrio, pois resulta sempre em desastre.
Tam Magazine – O que mais influenciou sua obra e o que mais a inspirou para escrever?
Adélia Prado – O que me inspira é a vida e suas múltiplas alegrias e aflições, a fé, a dúvida, a rotina maravilhosa, o cotidiano. Esta foi e será a fonte do meu texto.
Tam Magazine – Houve um tempo em que a literatura ensinava a viver. A senhora acredita no poder das letras de mudar o mundo e as pessoas? Afinal, por que e para quem escrever?
Adélia Prado – a literatura é expressão pura, ela não serve para nada, no sentido de que não posso nem devo usá-la como instrumento para ideologias políticas, filosóficas ou religiosas. Um bom texto é como uma rosa no pé, um gato, uma cachoeira, um corpo; é expressão pura. Pode decorrer de sua contemplação, uma descoberta, uma conversão. Afinal, a arte é um espelho. Podemos levar um susto com o que vemos.
Tam Magazine – A literatura, e em especial o poesia, podem sobreviver em um mundo cada vez mais acelerado, individualista e materialista?
Adélia Prado – Não só podem como sobrevivem. E mais que isto, vivem. Há esperança.
Tam Magazine – Por que a senhora prefere viver em Divinópolis enquanto a maioria dos escritores e intelectuais optam por morar em cidades grandes?
Adélia Prado – Gosto de lugares pequenos. Divinópolis é minha Macondo. Quase toda a minha família mora aqui. E o mundo ficou pequeno. Tudo está quase à distância de um grito.
Tam Magazine – Escrever é uma necessidade? Qual é seu próximo projeto literário?
Adélia Prado – Toda vocação é uma necessidade. Agora estou organizando um novo livro de poesia.
Tam Magazine – A senhora deve ter uma opinião sobre sua obra. Qual avaliação faz? Destacaria algum livro em particular?
Adélia Prado – não destaco, porque cada um deles é melhor de sua espécie que consegui escrever. Não tenho distanciamento para avaliar-me, mas garanto-lhe: qualquer de meus livros é melhor que eu.
Tam Magazine – Para escritor e poeta é preciso ter uma grande vivência?
Adélia Prado – O que é uma grande vivência? Uma relação mística? Uma tragédia? Um ato heróico? O escritor escreve a condição humana, que tem por hábito ser cotidiana. Pode-se falar assombrosamente sobre a vida mais redes e banal, porque viver já é absurdo o suficiente, fonte de inesgotável perplexidade. O natural é de supremo interesse para a arte. “Admirar-se do que é natural é o dom do filósofo”. Me parece ser uma constatação de Ortega y Casset, não tenho certeza. Eu acrescentaria: do filósofo e de qualquer artista, no caso aqui, do poeta.
Tam Magazine – Como a senhora reage à opinião dos críticos literários?
Adélia Prado – Escuto com atenção o que dizem. Às vezes se equivocam. Eu mesma sou extremamente rigorosa comigo. Mas é uma pena que tenhamos tantos resenhistas e tão poucos críticos.
Tam Magazine – A senhora gostaria de se tornar uma imortal da Academia Brasileira de Letras?
Adélia Prado – Não. Me falta vocação. E sigo São Paulo, que ensina: “Agir contra a convicção é pecado”.
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Fonte: TAM Magazine. Ano 3, Nº 31, p.41-44. Setembro de 2006.