O AT é o profissional que caminha junto, que entra na casa, que frequenta a praça e que ajuda a resgatar os laços da pessoa idosa com a sua própria cidade.
O envelhecimento, embora seja um processo biológico natural, é atravessado por dimensões subjetivas, sociais e culturais que muitas vezes empurram o sujeito para o isolamento. No cenário atual, onde o aumento da expectativa de vida é uma conquista, surge o desafio: como viver esses anos a mais com sentido e pertencimento? É nesse intervalo entre a clínica tradicional e a vida cotidiana que o Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento (AT) se revela uma ferramenta indispensável.
O Acompanhamento Terapêutico é, segundo Maíra Humberto Peixeiro, coordenadora e docente do curso online ao vivo: Acompanhamento Terapêutico no envelhecimento – um dispositivo clínico, uma prática clínica em saúde mental que tem como objetivo tratar o sofrimento psíquico que pode surgir no processo de envelhecimento, que pode decorrer do isolamento, da solidão, de perdas de pessoas importantes, de doenças que debilitam e que dificultam a manutenção da autonomia, entre outros fatores.
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Daí a importância de uma instrumentação teórico-clínica, como o curso de AT proposto, possibilitando enfrentar as dores e delícias do envelhecer com delicadeza e criatividade. O curso fornece subsídios para quem deseja iniciar ou refinar sua prática como AT, assim como profissionais que almejam se apropriar do instrumental do AT para suas práticas de cuidado no envelhecimento.
Pois, diferente da psicoterapia convencional, que ocorre entre quatro paredes, o AT acontece na “polis”. O AT é o profissional que caminha junto, que entra na casa, que frequenta a praça e que ajuda a resgatar os laços da pessoa idosa com a sua própria cidade.
Maíra Humberto Peixeiro aponta que o acompanhamento terapêutico no envelhecimento é demandado sobretudo em situações de crise, desencadeadas pela percepção da “entrada na velhice”, especialmente da velhice avançada, que configura um momento que exige intenso trabalho psíquico. Segundo ela, é muito comum que uma queda, uma doença, a perda de pessoas próximas de mesma geração, a constatação da fragilidade do corpo, sinalizem a chegada desse momento de vida e apontem para a possibilidade de uma dependência vindoura e para a proximidade da finitude, desconstruindo nossa ilusão de imortalidade.
Além disso, no envelhecimento, é comum que o espaço geográfico do indivíduo comece a encolher. Por medo de quedas, luto por amigos ou barreiras arquitetônicas, o mundo de muitas pessoas idosas acaba restrito ao quarto ou à sala de estar. O AT atua justamente na expansão desse território, transformando o medo em circulação e a passividade em protagonismo.
Aliás, um dos maiores sofrimentos na velhice não é o declínio físico, mas a perda da voz e da autonomia. Muitas vezes, a família, na tentativa de proteger, acaba “infantilizando” a pessoa idosa, decidindo por ela e anulando seus desejos.
O acompanhamento terapêutico funciona como um suporte, permitindo a pessoa idosa lidar melhor com desejos internos e demandas externas. Ou seja, o profissional não faz pelo idoso, mas com o idoso. Seja no auxílio para gerenciar as próprias finanças, na escolha de uma atividade cultural ou na mediação de conflitos familiares, o objetivo é sempre preservar a singularidade do sujeito. O AT olha para a pessoa, não para o diagnóstico de demência ou a limitação de mobilidade.
O AT tem sido um recurso inovador e fundamental na atenção às demandas dos mais velhos. Entre as funções do acompanhante estão: o estabelecimento de vínculo; a escuta; a construção de leituras clínicas; o enlaçamento com o campo social; a circulação pela cidade; a criação de redes de cuidado que articulem diferentes profissionais, organizações e recursos comunitários na construção de territórios de existência mais digna e plena para as pessoas idosas acompanhadas.
O AT no manejo de quadros demenciais e depressivos
Em casos de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, o acompanhamento terapêutico assume um papel estratégico. O profissional utiliza o ambiente e a rotina para criar estímulos cognitivos e afetivos que mantêm a pessoa idosa conectada à realidade pelo maior tempo possível. Ele ajuda a combater o isolamento, um dos principais aceleradores do declínio cognitivo; ajuda a família a compreender as mudanças de comportamento, diminuindo a sobrecarga do cuidador; utiliza objetos, fotos e trajetos urbanos para fortalecer a história de vida do sujeito.
O AT não busca a “cura” da velhice, pois a velhice não é doença. Ele busca a produção de saúde mental dentro das possibilidades de cada um e do contexto. É sobre encontrar novos prazeres, reinterpretar perdas e garantir que a pessoa idosa continue sendo a autora da sua própria biografia, independentemente da idade cronológica.
É, na realidade, uma questão de direitos humanos. Portanto, investir em Acompanhamento Terapêutico é, acima de tudo, uma postura ética e política. É reconhecer que a pessoa idosa tem o direito de ocupar os espaços públicos e de ter sua subjetividade respeitada. Em uma sociedade que cultua a juventude e a produtividade, o AT é um ato de resistência que afirma: toda vida merece ser vivida com companhia, escuta e dignidade.
Maíra Peixeiro considera fundamental que dispositivos como o Acompanhamento Terapêutico ganhem espaço como recurso de intervenção clínica, compondo tanto a formação de profissionais que exercem essa prática como também, no âmbito de organizações públicas e privadas, constituindo uma ferramenta ética para a construção de referências que compõem a rede de saúde mental voltadas para essa população.
Serviço
Curso online ao vivo: Acompanhamento Terapêutico no envelhecimento – um dispositivo clínico
Módulo 1: Introdução ao dispositivo clínico do AT
Módulo 2: Fundamentos do AT: clínica, escuta, transferência e território
Módulo 3: Processo subjetivo e envelhecimento
Módulo 4: A prática do AT no envelhecimento: famílias e instituições
Datas: às terças-feiras, iniciando no dia 24/02 com encerramento no dia 30/06
Horário: 19h30 às 22h
Carga horária: 45 horas
Vagas: limitadas
Público alvo: Pessoas com interesse em saúde mental e na clínica do envelhecimento, com graduação completa ou em andamento (não é necessário ser da área da psicologia)
Aulas online síncronas: o que permite a participação dos alunos nas aulas teóricas, e nas discussões clínicas, parte fundamental do curso. Em circunstâncias eventuais, quando o aluno não puder participar da aula, pode justificar a falta e assistir a gravação. As gravações ficarão disponíveis por uma semana depois da data da aula.
Dúvidas: Mande um e-mail ou uma mensagem no whatsapp: cursos@portaldoenvelhecimento.com.br | 11 97384‑1820
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