Aos teus olhos

Aos teus olhos

Esta reflexão, que surge aqui organizada, foi motivada também pelos temas propostos no filme nacional Aos Teus Olhos, apresentado no cine-debate do programa Itaú Viver Mais, no dia 24/04 no shopping Frei Caneca, em São Paulo. O filme nos chama à realidade atual e à responsabilidade que cada um de nós tem perante cada situação, cada pessoa e a sociedade em que vivemos e pela qual somos todos responsáveis.

 

Será que nos damos conta da subjetividade de nossas percepções e avaliações sobre o que se passa ao redor? As relações sociais que estabelecemos, as notícias que lemos ou escutamos, os fatos que presenciamos passam, necessariamente, por um crivo – nossos sentidos, nosso olhar. A partir de crenças, valores – modos de ser e viver – construímos categorias de coisas boas ou más e, assim, classificamos e julgamos as experiências cotidianas.

Na sociedade atual o acesso à informação é total – tudo ‘ao mesmo tempo, agora’- sem descanso, um ruído de fundo constante muitas vezes não percebido, pois já incorporado, faz parte do cotidiano. Ao final do dia todos nos sentimos cansados, sem energia, ‘esgotados’ pelos desafios impostos pelo trabalho, cuidados com a família, e outros afazeres, partes da vida de cada um. Quando se consegue parar e descansar, normalmente, liga-se a TV, se pega o celular, muitas vezes simultaneamente, e lá vamos nós para um ‘outro mundo’ buscando quebrar a rotina, mas que, de modo não perceptível, também nos consome. E o necessário repouso? Ingenuamente, ‘largados’ no sofá ou na cama, pensamos estar descansado… Será?

Temos refletido sobre as dificuldades que muitos têm de se ‘aquietar’ e não se ‘inquietar’. As reflexões que fazemos, há algum tempo, nos alertam para a necessidade de um tempo ‘fora’ do tempo – silêncio, quietude e uma benfazeja solidão – muitas vezes até sem música, que considero extremamente agradável nesses momentos. O envelhecimento me faz mais consciente da necessidade de ‘cuidar’ do espírito e, por isso, estou cada vez mais seletiva, mesmo trabalhando em rede de comunicação, como neste Portal virtual.

Esta reflexão, que surge aqui organizada, foi motivada também pelos temas propostos no filme nacional Aos Teus Olhos – baseado na peça teatral catalã O Princípio de Arquimedes (1) – dirigido por Carolina Jabor e tendo como protagonista o ator Daniel Oliveira, apresentado no cine-debate do programa Itaú Viver Mais, no dia 24/04 no shopping Frei Caneca, em São Paulo.

São 24 horas na vida de um professor de natação, muito querido por todos, que dá aulas para crianças e pré-adolescentes em um clube, mas que se vê exposto e julgado quando um de seus alunos diz à mãe que no vestiário o professor o beijou. A partir deste fato se desenrola a sequência que desvela não a verdade, se é que ela existe, mas um encadeamento de atitudes levianas, negligência, deturpações e precipitação no esclarecimento do caso, desconsiderando o evidente sofrimento prévio da criança, que assume dimensões incontroláveis a partir de um post feito pela mãe do garoto no grupo de WhatsApp do clube.

O filme explora de modo interessante o som de fundo, especialmente da água da piscina, que vai se turvando, distorcendo as imagens – metáfora propícia que permeia o desenrolar da trama colocando em questão: o que se diz, o que se presume e o que de fato aconteceu.

Debate

O final inesperado impactou a todos e para o início do debate foi lançada a questão: Qual sua emoção neste momento?

As emoções como choque, angústia, espanto foram pontos de partida para uma reflexão livre, na qual cada participante expressou sua opinião, segundo o que viu e relatou, opiniões diferentes, mas complementares. Nela surgiram os temas da responsabilidade parental – tanto a partir da relação de conflito já estabelecido entre os pais, tendo a criança como ‘espaço de disputa’ e a cobrança sobre seu desempenho; o pré-julgamento do professor – cujo comportamento ambíguo dá margens para diferentes interpretações – primeiro pela mãe, que influencia o pai, e na sequência, de modo inconsequente, divulga o fato por meio eletrônico para os outros pais do grupo, gerando revolta, e desconsiderando alguns comentários mais moderados, o que leva ao ‘linchamento virtual’ do professor, ou seja, a intimidação e a incitação ao ódio por meio da internet, o que gera, ao final, risco à sua integridade física e segurança.

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Outro ponto que agrava a situação é a negligência na apuração dos reais fatos, tanto por parte do clube como por parte dos pais. Os pais não foram chamados para uma conversa, ou convocada uma reunião entre os professores e pais; de todos os pais com a direção, ou outras providências antes da acusação. Enfim, a sucessão de comentários vai gerando uma situação de crescente pressão contra o professor, que não tem como argumentar e se defender.

Os espectadores lembraram do chamado Caso Escola Base, uma escola particular localizada em São Paulo, que em março de 1994, seus proprietários, a professora e o seu esposo e motorista foram injustamente acusados pela imprensa de abuso sexual contra alguns alunos de quatro anos da escola. Em consequência da revolta da opinião pública, a escola foi obrigada a encerrar suas atividades logo em seguida. O Caso Escola Base envolve o conjunto de acontecimentos ligados a essa acusação, tais como a cobertura parcial por parte da imprensa e a conduta precipitada e muito questionada por parte de um delegado de polícia, responsável pelo caso, que, supostamente, teria agido pressionado pela mídia televisionada e pelas manchetes de jornais. As pessoas acusadas no caso passaram a sofrer de doenças como estresse, fobia e cardiopatia, além de se isolarem da comunidade e perderem seus empregos. Em 1995, eles moveram uma ação por danos morais contra a Fazenda Pública do Estado. Até hoje, o caso é tema de estudos de faculdades e seminários de jornalismo, direito, psicologia, psiquiatria e ciências sociais como exemplo de calúnia, difamação, injúria e danos morais.

Afirma Bosco (2) que ao fazer justiça com as próprias mãos, usando a internet, eles destroem vidas sem dar às pessoas a chance de se defender de acusações, que muitas vezes são frágeis e precipitadas. Com a justificativa de criar um exemplo e apoiar uma causa justa, cometem-se terríveis injustiças nas redes sociais.

Chamou atenção do grupo reunido para o debate outro aspecto que marca a sociedade atual – diante dos conflitos a medicalização surge como caminho de fuga – atitude observada tanto na mãe quanto na diretora do clube – o que pode ‘amortecer’ o conflito, mas não colabora para sua solução.

Observamos que o filme, como outras expressões artísticas, tem um potencial ‘provocador’, o que também vemos em livros, peças teatrais e nas artes plásticas. O que provoca e faz pensar pode agradar ou não, mas o simples fato de nos levar à reflexão e ao debate – com ideias contra ou a favor – é um antídoto contra essa perigosa onda de ‘verdades únicas’ que se espalha nas redes de comunicação. Muito se fala de igualdade, de respeito ao diferente, a pluralidade de ideias, mas não é o que se constata nos meios virtuais, pois às vezes, sob falso perfil, são divulgados fatos distorcidos; outros ‘curtem’ e compartilham as ideias que consideram ‘puras e verdadeiras’, todo o resto não conta ou é motivo de ácidas críticas.

O cine-debate é sempre um espaço de trocas e aprendizagens – ‘mergulhar’ em outras vidas, outros horizontes – refletir, opinar, trocar informações, com respeito verdadeiro, apesar das naturais controvérsias. Como afirma Larrosa (2015) (3) a aceleração fecha a possibilidade de um tempo de parar, pensar, olhar, escutar mais devagar, observando detalhes, suspendendo a tensão e a pressa e “cultivar a atenção e a delicadeza, abrir olhos e os ouvidos […] falar sobre o que nos acontece […] escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”.

A sala de cinema é adequadamente denominada ‘sala de projeção’ e podemos considerá-la, metaforicamente, como uma gruta, um refúgio. Ao assistir um filme o espectador ‘mergulha’ neste espaço desconhecido, e vai “ler” o texto cinematográfico também à luz de suas experiências pessoais, em um tempo/espaço diferenciado. Ao apagar das luzes o real e o imaginário se mesclam e podemos ver projetadas imagens de outros “eus”, possíveis e/ ou imaginados – mistura de delírios e sonhos – que podem trazer à tona memórias conscientes e inconscientes, despertando para novas elaborações de sentidos.

Abre-se uma “brecha” pela qual se esgueiram e misturam o real – experiência no tempo cronológico-físico – e o imaginário – tempo de possibilidades que mescla sons, cores, movimentos, imagens, recordações, numa ciranda alucinatória que nos leva a ultrapassar as armadilhas do real. Somos projetados.

O filme se passa em um tempo fora do tempo quando, em suspensão, nada parece se passar, mas o que nos passa quando somos projetados e nos identificamos com outros “possíveis de mim” vêm à tona no espaço do cine-debate, e o tempo se concretiza e a emoção do visto/vivido vem nas palavras carregadas de sentimentos, não como material pronto e acabado, mas como possibilidades reconstrutivas naquele momento acionadas, e as interligações se fazem entre flashs do projetado, do vivido, do imaginado. A narrativa constrói uma história meio realidade meio ficção, verdade que emerge como possível no presente narrativo – o que nos passa (4).

Aos teus olhos nos chama à realidade atual e à responsabilidade que cada um de nós tem perante cada situação, cada pessoa e a sociedade em que vivemos e pela qual somos todos responsáveis. Vida real!

Notas
(1) O Princípio de Arquimedes. Josep Maria Miro. Ed. Cobogó, 2015. O texto de Miró, traduzido para o português por Luis Artur Nunes, foi vencedor do Prêmio Born de Teatre 2011.
(2) A vítima tem sempre razão? – Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro. Francisco Bosco. São Paulo: Editora Todavia, 2017.
(3) Tremores. Escritos sobre a experiência. J. Larrosa. Belo Horizonte: Autentica 2015.
(4) ‘Cinema e memória: recursos de aprendizagem ao longo da vida’. Brandão, V; Côrte, B. In Fonseca, S.C. (org.). O Envelhecimento Ativo e seus Fundamentos. São Paulo: Portal Edições, 2016, pp. 534-558.

Fotos: Rodrigo Gueiros

 

 

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Docente. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE-PUC/SP). Editora da Revista Longeviver (https://revistalongeviver.com.br) e Coordenadora Pedagógica do Espaço Longeviver. E-mail: [email protected]

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Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Docente. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE-PUC/SP). Editora da Revista Longeviver (https://revistalongeviver.com.br) e Coordenadora Pedagógica do Espaço Longeviver. E-mail: [email protected]

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