É uma leitura libertadora na medida em que desmistifica a nossa tão desejada onipotência e desvela a liberdade possível na fragilidade que nos constitui e nos acompanha desde o nosso nascimento, apesar de nossas resistências em assumi-la. Através de relatos poéticos e refinados sobre fatos simples e complexos, o livro, em forma de diário nos convida a enxergar de dentro pra fora. E lá se vai mais uma venda que cai e não nos faz falta. Ana de Amsterdam, do Brasil, da Índia… Ana do mundo.
Isabella Quadros *
A ARTE é assim, em maiúsculas sempre – ligação direta com o inconsciente, com o que não conhecemos de nós e do mundo e que atravessa épocas e gerações, comunicando, tocando, ressignificando. A literatura é uma das minhas vias favoritas de acesso, chegando quase sempre em doses surpreendentes e prazerosas como no livro: Ana de Amsterdam, escrito por Ana Cássia Rebelo, “uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português”, segundo O PÚBLICO.
O título, uma música de Chico Buarque de Holanda, me fisgou na prateleira da livraria, prenunciando a potência poética que estava por vir. Ana fala de dor, descreve o seu dia-a- dia e a sua relação com a depressão. Françoise Dolto dizia que não há sofrimento maior do que aquilo que é silenciado e parece-me que Ana acredita nisso e o expia através de uma lente corajosa para enxergar-se e relatar os mais profundos sentimentos com honestidade admirável e muita sensibilidade.
É uma leitura libertadora na medida em que desmistifica a nossa tão desejada onipotência e desvela a liberdade possível na fragilidade que nos constitui e nos acompanha desde o nosso nascimento, apesar de nossas resistências em assumi-la. Através de relatos poéticos e refinados sobre fatos simples e complexos, o livro, em forma de diário (os textos foram selecionados a partir de um blog escrito pela autora), nos convida a enxergar de dentro pra fora. E lá se vai mais uma venda que cai e não nos faz falta. Ana de Amsterdam, do Brasil, da Índia… Ana do mundo. Ana em nós. Mais uma beleza (sem photoshop) que a ARTE nos proporciona.
Sinopse
Ana de Amsterdam é a mais fina prosa da portuguesa Ana Cássia Rebelo, que ocupa um lugar entre a tradição e inovação ao relatar o cotidiano feminino em um diário íntimo. Ana Cássia Rebelo é uma mulher com suas horas bastante ocupadas, dividindo seu tempo entre o emprego como advogada numa repartição, os três filhos ainda pequenos e um casamento já desgastado. Nessa rotina, que oscila sempre entre o tédio da segurança e o desejo do inesperado, Ana encontra lugar para escrever. E foi assim que surgiu, em 2006, o blog Ana de Amsterdam, em que ela ia registrando esse movimento pendular entre pequenas vitórias e grandes angústias. Das postagens do blog, imensamente literárias apesar de intrinsecamente efêmeras, o jornalista e crítico português João Pedro Jorge pôde organizar uma obra que funciona como diário íntimo, em que os pequenos textos são datados, e vão desenhando uma personagem rica, um tanto misteriosa, capaz de confundir o leitor entre uma doçura maternal e uma rascante agressividade.Com um histórico depressivo, muito inteligente e sensível, o que vemos na sucessão dos dias dessa narrativa fragmentada é o retrato subjetivo da chamada mulher moderna, esse ser quase indefinível. Ana sente desejo e nega-o, ama os filhos, mas se sente sobrecarregada, se apega à vida por detalhes, e encontra o sentido perdido no cotidiano doloroso em um pôr do sol bonito numa cidade indiana. Com parte da família em Goa, essa terra misteriosa em que a Índia fala a língua portuguesa, Ana desenha no país distante a possibilidade de descobertas como antigos navegadores buscavam especiarias. A mesma busca se dá por uma sexualidade crua, em que não há tabus, e a frigidez, a masturbação, o desejo doente são temas tratados corriqueiramente, conceitualmente e na linguagem limpa, crua, direta. O resultado desse conjunto coeso de pequenas narrativas é um livro escrito em uma prosa brilhante, que se a filia a nomes como Sylvia Plath e Virginia Woolf, no que todas têm de prosadoras poderosas e marcantes também finca o pé em certa tradição nacional portuguesa, e o conjunto de fragmentos do livro lembra o Livro do desassossego, de seu conterrâneo mais ilustre. Que o leitor se embrenhe nessa prosa primorosa. Que descubra a literatura contemporânea portuguesa, e que, atentamente, descubra o poder da narrativa feminina. “Uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português. As suas palavras não desiludem a expectativa gerada.” O PÚBLICO
* Quadros, psicoterapeuta junguiana, mestre em Gerontologia pela PUC-SP, sócio-diretora na empresa Angatu – Integração de Desenvolvimento Humano e colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected]