Não sei bem quando me veio a ideia de ser padre, provavelmente aos sete ou oito anos, quando meu primo João partiu para o Seminário e eu me tornei coroinha. Ainda que minha mãe apoiasse minha opção, ela não interferiu na escolha, afinal era eu, entre quatro irmãs, o único filho homem. Meu pai não acreditava muito e só dizia: Se você não se acostumar pode voltar, sem problema!
Waldir Bíscaro *
O engraçado é que eu nunca havia ligado a ideia de ser padre com a de não poder casar, pois eu, entre os colegas do Grupo Escolar e os outros coroinhas, era o mais namorador. Lembro-me de quando ficou definida a data da partida, minha última namoradinha passava férias em São Paulo e eu fiquei feliz por não ter de me despedir dela; ia ser muito triste me separar daquela loirinha. Nunca mais a vi.
Para quem me perguntasse por que queria ser padre, sempre respondia que se tratava de uma carreira muito difícil, que exigia quatorze anos de estudos e que por isso era a carreira de maior valor, além do mais, eu gostava mesmo de estudar e ponto final. Na verdade, era o prestígio de que gozavam os padres no meu bairro que devia ter despertado meu interesse, eles eram as únicas lideranças presentes naquela comunidade.
Ao final do ano letivo, no Grupo Escolar em 44, ganhei de presente um livro: “As Aventuras de Noni”. Era a história de um garoto que morava na Islândia e que, em breve, iria para um colégio interno na França. Li o tal livro com tamanha vontade e me identifiquei tanto com aquele garoto de terra tão estranha que até curti antecipadamente a dor da separação.
No dia anterior à partida havia me despedido dos parentes. Tinha muito apego a meus tios e primos e, principalmente, a meu avô e, a cada abraço, uma inundação de lágrimas.
Enfim chegou o dia da partida, 14 de janeiro 1945, um belo domingo. Após a missa das sete, um bocado de pessoas desceu a rua Martinico Prado e se dirigiu à estação da Mogiana localizada entre a Vila Tibério e a cidade. Os padres nunca tinham ouvido falar em “marketing”, aliás, ninguém, naquele tempo, tinha ouvido falar, mas aquela forma de marcar a despedida dos futuros seminaristas tinha tudo de uma jogada de marketing.
Na estação já estavam minha mãe e minha irmã caçula, chorando, claro. Era grande a emoção e eu também chorei. Meu pai me acompanharia até Guatapará, metade do percurso. Nesta viagem, ia comigo outro rapazinho mais velho que eu, filho de portugueses. Duas semanas mais tarde, outros três colegas também partiriam para Rio Claro. A turminha de Ribeirão formava um bloco de seis, contando com o Zé Antonio que havia se mudado para São Paulo e fora o primeiro a chegar ao seminário.
Todo novato, ao chegar, era apresentado a um veterano que, durante o primeiro mês, se encarregava do papel de tutor. Esse veterano era chamado de “pai” do novato. Quase sempre a primeira atividade do “pai” era levar o novato a conhecer os diversos espaços do colégio, especialmente a chácara com seu curral, o apiário, os cinco mil pés de laranja e os três campos de futebol.
O encarregado de ser meu pai foi exatamente meu primo João e, por conta disso, logo me senti em casa.
O duro foi a primeira noite, na grande sala de estudos. Era a primeira vez que enfrentava o silêncio. Todo o mundo lendo ou estudando. Bateu-me uma saudade imensa e quase chorei, mas era questão de honra não chorar.
Meu primo me deu o “Almanaque do Tico-Tico” que eu nunca tinha lido. Eu que só conhecia os personagens do Gibi, Capitão Marwel, Titan, Tocha Humana e Centelha, Flash Gordon; daí pra frente passei a conviver com Reco-Reco, Bolão e Azeitona, além de Mister Brown e dona Faustina, todos personagens do Tico-Tico.
Os primeiros dias no seminário foram de adaptação e sem traumas, era tempo de férias e os novatos tinham aulas de etiqueta e regulamentos do colégio.
Lembro-me do primeiro fora que dei. Quando estava a caminho dos campos de futebol, ia conosco o Zé Antonio que, para mostrar sua familiaridade no ambiente, disse que aos domingos jogava futebol no campo dos menores; foi então que falei: ô Zé, você nunca jogou merda nenhuma… nem acabei de falar e meu primo: Olha, aqui não se fala palavrão!
Que pena!
Em Rio Claro, passei cinco anos sem voltar pra casa. No primeiro ano, não houve uma noite sequer sem que eu sonhasse com minha terra. Visitas? No meio do ano, vinha minha mãe com uma das irmãs e no início do ano seguinte, o meu pai.
O sacrifício compensou. Aprendi latim, grego, teoria literária. Li a história de Roma, em latim, li as Catilinárias de Cícero, a “Ars Poética” de Horácio, a Eneida de Virgilio… e outros mais. Tempo perdido, cultura inútil? Com certeza, não. Cultura humanística era a base de uma educação pra valer.
* Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: [email protected]