Gerontolescente, portanto, é mais um termo criado para substituir a palavra idoso ou velho, esta por sua vez é associada pela maioria das pessoas a algo negativo, mas todas essas expressões não mudam o principal: o sujeito a que refere.
Com a correria do dia a dia, deixo de realizar muitas atividades as quais praticava há alguns anos, porém dedico a primeira hora do meu dia à atividade física. Acordo às 7h00 da manhã e permaneço na academia que frequento por 1 hora. Lá fiz amizade com um casal de velhos muito simpáticos, que vão rigorosamente, todos os dias, exceto às sextas feiras que, segundo eles, são dedicadas para tomar o café da manhã com a filha e o neto. Todos os respeitam muito e percebo que isso não se deve apenas por serem mais velhos, mas também por serem simpáticos e sempre mostrarem gratidão e prazer em viver, por isso são admirados por todos.
Em uma de minhas conversas com a senhora, ela me contou que tenta manter uma vida saudável porque gosta de cuidar não apenas do seu físico, mas também da sua mente. Disse-me, ainda, que tenho sorte por ter nascido em um período no qual temos acesso a tantas informações que nos proporcionam qualidade de vida em âmbito biopsicossocial.
Dentre todas essas nomenclaturas temos ainda o conceito “Gerontolescência”, termo este criado pelo médico e presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC), Alexandre Kalache, um dos mais nomeados geriatras do país. Segundo Kalache, esse termo estará nos dicionários daqui a alguns anos assim como temos hoje a definição do termo “adolescência”. Define a expressão como “uma população de 60 anos ou mais que vive mais e melhor, com orgulho da idade e que quer ser produtiva”.
Se levarmos em consideração essas definições, podemos dizer que a maioria de nós conhece algum gerontolescente, eu mesma, além dos meus colegas de academia, tenho duas tias, irmãs do meu falecido avô, e as considero gerontolescentes. Têm mais de 60 anos e são totalmente produtivas, preferem ir à missa, à festa de aniversário da sobrinha, à casa de uma amiga ou ao baile do que ir a um médico. Aliás, vão sim ao médico, mas sempre em busca de prevenção e não em busca de doenças. Recebem-me cheias de disposição e não têm preguiça alguma de fazerem um bolo para tomarmos o café da tarde, não possuem falta de vontade e nem trazem a desculpa de que estão velhas demais para aprenderem a utilizar o whatsapp, o facebook e tantas outras redes sociais. Aproveitam a vida a cada segundo que passa, cheias de disposição, energia e sabedoria, esta última, consequência dos longos anos vividos e, simplesmente, ignoram as marcas do tempo e as limitações naturais que a vida lhes trouxe.
Dessa forma, o casal que citei no início deste texto pode ser chamado como você preferir: idoso, velho, o casal da terceira idade, gerontolescente… mas nada disso muda quem eles são como seres humanos e, o principal: ter uma velhice como a deles está muito além do que ter uma vida cheia de atividades como ter um trabalho, realizar esportes ou viajar. Não é necessário ter aonde ir todos os dias, mas sim ter disposição, energia e criatividade para fazer o seu dia se tornar produtivo. É ter em mente que passar dos 60 anos não é motivo para os filhos cuidarem de você ou voltar a ser tratado como uma criança.
Chegar aos 60 com qualidade de vida vai além de fazer parte de uma geração que se preocupa com o bem estar e vida saudável. Está na capacidade de envelhecer e não deixar de viver como antes. Está na capacidade de ter gratidão e amor pela vida, de simplesmente querer viver e existir. E já dizia Platão: “Devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice”, e é justamente nisso que o gerontolescente difere dos demais: vive e utiliza intensamente a liberdade e a sabedoria que conquistou ao longo da vida.
Referências
ILC. “Envelhecimento ativo: um marco político em resposta à revolução da longeividade”. 1ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Centro Internacional de Longevidade Brasil. 2015.