A relação de cursos gratuitos para idosos é extensa. O segredo é pesquisar com antecedência e escolher com calma no site da pró-reitoria de cultura e extensão universitária da USP.
Por Manuel de Barro
Inscrição – parte 5.
Meu filho me ajudou a escolher seis cursos: dois na USP-Leste, três na USP-Butantã e um na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Cursos voltados especialmente para a terceira idade, atividades culturais que visavam mais a socialização.
– O senhor vai fazer muitos amigos.
– Amigos de escola não contam. Quantos amigos você mantém do tempo de escola?
– Quer mesmo saber? Tenho todos no meu Facebook.
– Amigos de computador são simulacros… – dei uma boa risada para provocá-lo. – Amigo é olho no olho. Lá no clube…
– Esses amigos que o senhor tem no clube e nada são a mesma coisa.
– Você não conhece meus amigos para julgá-los um nada – ralhei.
– O senhor tem razão, “nada” é muito melhor…
– Não entendi…
– Filho, vai trabalhar. Posso muito bem me virar sozinho.
– Tem certeza?
– Eu já me virava sozinho antes de você nascer.
Saí para caminhar como sempre faço, pois as inscrições eram só a partir das duas da tarde. Voltei para casa com uma sensação de esquecimento, mas essa sensação já me acompanha há muito tempo.
Almoçava e admirava o computador que ganhei do meu filho depois que o laptop antigo, que herdei da minha mulher, recusou-se a ligar.
– Essa porcaria não funciona.
– Pai, deve estar sem bateria.
– Liguei direto na tomada, não sou parvo.
– É mau contato…
– Levanta essa bunda da cadeira e vem me ajudar – berrei.
De má vontade, Maurício conferiu.
– Já era – disse depois de mexer nos fios e espancar todas as teclas. – Queimou alguma placa. Computador não pode ficar parado. Sabe o que o médico falou para o senhor? É a mesma coisa.
– Nunca falei com médico nenhum sobre computador.
– Estou me referindo ao seu cérebro. Se parar de usá-lo corretamente, os circuitos – no caso, seus neurônios – queimam, param de funcionar. Por isso ele indicou as atividades intelectuais.
– Para de falar besteira, Maurício. Meu cérebro não tem nada a ver com esta lata velha. Pode jogar no lixo que não vai fazer falta.
– O senhor precisa de um computador. Vai ficar com o meu, pois preciso mesmo de um novo.
Novo e velho são conceitos relativos. Meu computador novo era o velho do meu filho. O que ele chamava de carroça, para mim era uma das sete maravilhas do mundo. Leve, rápido e moderno. Para ele, pesado, lento e desatualizado. Cada um vê e define o mundo de acordo com seus olhos, sua realidade.
– Seu mundo é você quem faz – dizia meu pai quando bebia.
Pitágoras afirmava que a realidade tinha dez faces distintas. Papai dizia que Pitágoras nunca existiu. Ele, Nostradamus, Sócrates, Cristo e até Shakespeare eram invenções de Platão, um nobre que não tinha o que fazer e criou uma academia para espalhar boatos, o que hoje qualquer um faz por meio da internet.
– Filho, não precisa comprar um novo computador por minha causa. Posso muito bem escrever à mão…
– Pai, hoje ninguém escreve à mão.
Meu filho é do tipo que não entende como hoje alguém possa viver sem e-mail, Facebook, Instagran, Tweet, site ou blog.
– No máximo e-mail – disse para conter seu entusiasmo.
Ensinou-me o básico. Ligar e desligar. Entrar no Google e pesquisar. Salvar um arquivo, escolher um tipo de letra, tamanho, coisas que qualquer criança sabe.
– Não faço a menor questão de saber…
– O senhor precisa ter autonomia e independência.
– Isso eu tenho!
– Para mexer no computador, pai…
No dia da inscrição, depois de caminhar, almoçar e flertar com o computador com a clara intenção de começar a escrever meu diário mensal, seguia com a sensação de esquecimento. Sensação que se tornou comum nos últimos tempos, por isso não entrei em pânico.
Ao esvaziar os bolsos, deparei-me com meu velho canivete suíço. Eureca. Uma sinapse iluminou as teias de aranha do meu velho cérebro. Corri até à casa da vizinha, debrucei-me sobre o muro e passei a lâmina na base de uma touceira de capim limão. Ao me afastar com um punhado de folhas na mão, ouvi uma voz de trovão:
– Portuga filho da puta! Vai roubar da tua mãe. Pega ele, Rabugento. Morde o rabo desse português ladrão.
A doida abriu o portão e o cachorro saiu em disparada. Ameacei-o com o próprio capim limão e ele parou como se estivesse diante de um espantalho. E estava, pois esqueci o boné e meus cabelos estavam de pé.
– Capo esse desgraçado! – disse exibindo o canivete.
A adrenalina subiu e o chá veio a calhar. Tomava, folheava o jornal e me divertia com as lembranças da minha traquinagem. Cochilei. Quando despertei, o jornal estava no chão e o chá havia tombado no meu colo.
Desviei a vista para o teto e tentei lembrar a manchete principal do jornal. Nada. Mas desenvolvi uma técnica que me ajuda a lembrar as manchetes de capa. Faço uma cola. Escrevo na palma da mão palavras chaves sobre cada notícia. Por isso sou o único a levar assunto novo para o clube.
– Manuel, quais são as novidades?
Consulto minha cola e as notícias transbordam. Diferente de alguns colegas que contam sempre as mesmas histórias, como se nada de novo e relevante acontecesse nas suas vidas. É muito chato ouvir histórias repetidas. Tem gente que faz isso com uma frequência assustadora. Morro de medo que aconteça comigo. Na dúvida, quando começo uma história, faço uma pausa estratégica e consulto meus interlocutores:
– Por acaso já contei que vou estudar na USP?
– Porra, Manuel, ninguém aguenta mais esse papo de USP, se toca!
– Vocês todos poderiam estudar na USP, sabiam? Basta ter mais de 60 anos e um mínimo de disposição para sair desse buraco.
Tocou o interfone bem na hora que levantei para tomar banho. Ignorei. Não ia atender a porta com a roupa borrada de chá. Tocou outra vez e me fiz de surdo. Tornou a tocar e tirei o interfone do gancho, irritado.
– Quem é, caralho?
– Manuel, sua besta, sou eu, Saboia, destrava logo o portão!
– Saboia, chegou atrasado para a boia – disse para não perder a rima e a piada.
– Esqueceu nosso compromisso, portuga de uma figa?
– Nosso compromisso? Bebeu?
– Vamos nos matricular na USP, seu cabecinha. Esqueceu, né, mané?
– Cabecinha? Quer ver o cabecinha? – disse levando a mão aos grãos.
– Tô vendo que também esqueceu a fralda…
– Não fala besteira, Saboia, derramei chá.
– Conta outra… por que não vê as mensagens? Cadê seu celular?
– Não vivo grudado naquela porra. Celular para mim é despertador e lugar de despertador é no quarto.
– Manuel, para com essa mania de falar porra, principalmente agora que vamos estudar na USP. Gente fina não gosta disso.
– Não gosta de quê?
– De velho com porra na boca – disse Saboia e riu como um imbecil. – E vai tirar essa roupa mijada porque estamos atrasados.
– Eu entrei na faculdade aos 22 anos, quando dei baixa nas Forças Armadas. Você é quem está atrasado, pois nunca pisou em uma.
– Manuel, isso aqui é Brasil. Quantos dos seus colegas do Centro de Convivência fizeram faculdade? Nenhum. Hoje, é fácil, mas no nosso tempo…
– Meu tempo é hoje, pois ainda não morri. E que história é essa de se interessar por cursos de velhos? – continuei a provocá-lo. Saboia detesta ser chamado de velho. Tem gente que tem horror a essa palavrinha. A culpa é da cultura ocidental que relaciona velho ao que não tem valor, superado, descartável.
– Pelo mesmo motivo que o seu: para ter um certificado da USP.
– Não preciso disso. Formei-me em Economia na Madeira, fiz mestrado em Coimbra e doutorado em Aveiro.
– E onde estão os diplomas que ninguém viu?
– Perderam-se na mudança, mas não preciso provar nada a ninguém…
– Manuel, você está ensaiando mentiras para contar aos colegas da USP. Conheço muito bem esse papo. Se mentir na minha frente vou desmascará-lo.
– Velho não mente. Velho conta histórias. Teve um que foi ao Programa do Jô e contou que possuía mais de 100 diplomas. O gordo babou diante de tamanha sabedoria. Eu só tenho uma graduação, um mestrado e um doutorado…
– Sabe o que descobri, Manuel? Uma pesquisa constatou que idosos mentem tanto quanto crianças e adolescentes. Mais de 50% do que falam é “história”…
– Você fala de idoso como se não fosse sex…
– Sex, Manuel? O que tem a ver o cu com as calças?
– Sex de sexagenário. De velho, pois você já completou 60 anos e, de acordo com o Estatuto do Idoso, com 60 anos, no Brasil, você é oficialmente velho.
– E daí?
– Já providenciou a carteirinha para andar no transporte público sem pagar? Já usou o assento especial com o símbolo do velhinho carcomido de bengala? Pegou o cartão que permite estacionar nas vagas de idosos? Já fez jus ao atendimento preferencial em bancos e nos Correios?
– Manuel, não fiz isso ainda por falta de tempo. Agora para de falar asneira e vai se aprontar. Estamos atrasados.
– Atrasados pra quê?
– Para fazermos a matrícula na USP-Leste, cacete!
– Olha este cacete na boca…
– Manuel, se você não quer ir eu vou sozinho…
– Tá bom, já vou me trocar…
Maurício havia separado um terno que há mais de dez anos eu não usava. Tentei vestir, mas a calça não fechou. A camisa social foi pelo mesmo caminho. O botão do colarinho não encontrava a casa. Vesti uma roupa do dia a dia, botei o boné e calcei um tênis, pois não me reconhecia mais em um sapato bico de pato.
– Manuel, você não tem uma calça? E esse boné? Você não está indo para o clube. Estamos indo para a USP – censurou-me Saboia.
– Meu filho queria que eu colocasse um fato. Será que preciso mesmo ir alinhado? E qual o problema de usar um barrete?
– Não sei que diabos é fato e barrete, mas uma calça é melhor que bermuda, concorda? E não esqueça a fralda!
Mostrei o dedo do meio e entrei para trocar a bermuda por uma calça de sarja.
Moramos na Zona Norte, Vila Nova Cachoeira. Costumo ir a pé até o Metrô, mas Saboia não queria suar, por isso tomamos um ônibus até o Terminal Tucuruvi. Da linha Azul passamos para a Vermelha e seguimos até a Estação Tatuapé e lá embarcamos no trem, Linha 12. Na parada seguinte já estávamos na Estação USP-Leste.
– Chegamos.
– Como assim, chegamos?
– Do Tatuapé para cá são duas paradas, mas o trem não parou na primeira porque está em obras. De qualquer maneira é uma viagem rápida.
– O comboio é realmente muito bom…
– Trem, Manuel, comboio é em Portugal.
– Tem uma placa indicando o campus, vê. Agora é só procurarmos o endereço…
– Acorda, Manuel, já estamos na USP-Leste!
– A estação é dentro da faculdade? Rua Arlindo Béttio, 1000, é aqui?
– Só sei que chegamos!
Fomos barrados por dois seguranças postados na entrada.
– Vão se matricular nos cursos da terceira idade? – perguntou um deles.
– Exato – confirmei ao ver que Saboia perdeu a fala e ficou vermelho até a careca ao ser flagrado no seu disfarce de jovem.
– Documento com foto, por favor – pediu o cidadão.
– Estamos aqui para estudar e não para roubar – protestei.
– Quando os senhores pegarem a carteirinha vão poder passar direto…
– Isto só existe aqui, na USP-Leste, no Jardim Keralux, em Ermelino Matarazzo. Duvido que na USP-Butantã peçam documento com foto. É discriminação.
– Não exagera, Manuel, bandido não tem idade e a maioria das faculdades tem catraca na entrada e segurança com cara de rottweiler.
– Quer apostar que na USP-Butantã não tem?
– Fala baixo…
– As matrículas estão sendo realizadas no auditório vermelho. Basta seguir o caminho de pedras. Boa sorte – desejou o segurança. Seguimos o caminho de pedra e cruzamos com alguns idosos pelo caminho.
– Está havendo trote, Saboia, se prepara!
– Trote?
– Não reparou? Só cruzamos com carecas e mulheres com a cara pintada.
Saboia deu uma gargalhada. Curtia sua entrada triunfal na universidade. Cumprimentava todo mundo. Fiz o contrário. Invoquei meu personagem favorito: o Homem Invisível.
Conforme avançávamos, o barulho se tornava ensurdecedor. Quando cruzamos a porta de vidro, fiquei estarrecido.
– Saboia, esqueceram a porta do asilo aberta!
– Não brinca, Manuel!
Uma mocinha veio ao nosso encontro e nos tratou como crianças perdidas em um playground. Só faltou nos levar no colo para pegar senha.
– Obrigado, querida – disse Saboia, grudento como um pote de mel.
– Tem idade para ser sua neta – alertei-o.
– Deixa de ser chato, Manuel, e aprende a ser simpático.
– Por favor, preencham os formulários e aguardem neste auditório.
– Mas a matrícula é no outro.
– Sim, mas o outro está cheio.
Os velhos se confraternizavam e faziam uma tremenda algazarra.
– Agem como velhos amigos – disse para não perder a piada.
O clima era de festa, de encontro. Enquanto esperávamos, éramos assediados por alunos de graduação, mestrado e doutorado em busca de subsídios para suas pesquisas.
– Acabei de preencher um desses – disse para uma pesquisadora.
– Manuel, isto é outra coisa, o que você preencheu…
– Eu sei, Saboia, não sou parvo.
– Mas parece…
Saboia respondia pesquisas e mais pesquisas. Comecei a ficar angustiado com a demora. Para passar o tempo, consultei as mensagens no celular.
– Merda!
– Quando não é porra é merda – disse Saboia em tom de censura. – Algum problema?
– Morreu a professora Ecléa Bosi…
– Sinto muito… é sua parente?
– Só escuta, Saboia: “Pai, liga antes de sair de casa, a EACH deve ter suspendido as matrículas, a USP decretou luto oficial. Morreu a professora Ecléa Bosi.”
– Quem é Ecléa Bosi?
– Deve ser alguém importante para meu filho achar que fechariam a EACH só porque ela morreu.
– Morrer não é pouca coisa, Manuel. Só se morre uma vez!
– Sério? Reencarnação não vale?
– O que você ia fazer nessa tal de EACH?
– Porra, Saboia, EACH é a USP-Leste. Aqui é a EACH!
– Aqui não tem ninguém de luto… olha a farra que estão fazendo.
– Posso falar com os senhores?
Olhamos ao mesmo tempo para a morena empetecada.
– Pois não? – disse Saboia abrindo seu leque de pavão.
– Os senhores tomam medicamentos, tem problema de pressão?
– Tudo isso, querida, e mais um pouco – confirmou Saboia estendendo a mão para pegar mais uma pesquisa.
– Não – falei antes que ela me estendesse uma pesquisa.
– Não quer responder ou não toma medicamentos?
– Tudo isso, querida, e mais um pouco – disse imitando Saboia e a morena me deu as costas. Alias, era mais bonita de costas…
– O que custa ajudar a moça? – Saboia me questionou assim que a morena se foi.
– Aqui tem pouca luz. Não vou forçar a vista a troco de nada.
– Manuel, para de ser ranzinza, isto é uma pesquisa científica, é muito importante.
– Fique com sua pesquisa que tenho coisa mais importante a fazer.
– O quê?
– Tirar água do joelho.
– O senhor tem problema nos joelhos? Precisa de uma cadeira de rodas? – perguntou uma monitora atenta, preocupada e bem intencionada.
– Não, querida, vou-me-já, entendeu?
Ela corou e se afastou para ajudar uma colega a organizar os velhos em fila. Missão quase impossível.
– Manuel, corre porque já vão nos levar para fazer a matrícula no outro auditório.
– Saboia, os últimos nunca serão os primeiros, bote isso na sua cabeça…
No fundo eu estava nervoso como um vestibulando. Mas agora não havia mais volta. Estávamos a um passo de nos tornar alunos da UnATI. Alunos da USP. Estava tão nervoso que o xixi empacou. Uma vontade louca e o xixi preso como um condenado. Depois continuo.
Leia as partes 1, 2, 3 e 4 desta história
Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer
Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade
Parte III: USP: cursos gratuitos para idosos
Parte IV: USP convoca idosos para cursos gratuitos
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