Marcelo Sodré Plachevski projetou e desenvolveu um sistema que utiliza a tecnologia de reconhecimento de voz, através de um dispositivo móvel, sensível à voz de qualquer locutor, capaz de gerar um alerta vibratório e luminoso para o surdo quando uma das palavras previamente registradas no dicionário do sistema é pronunciada. O dispositivo desenvolvido na FT-Limeira funciona a distâncias de até cinco metros, em locais internos e externos.
Carmo Gallo Netto * Fotos: Antonio Scarpinetti
Por décadas os métodos utilizados para captar a atenção de um deficiente auditivo ou surdo para iniciar uma interação são sempre os mesmos. Apesar da profusão de tecnologias de comunicação em uso entre as comunidades de deficientes auditivos e surdos, a dificuldade para captar a atenção inicial deles não foi ainda superada com a utilização de novas tecnologias.
Esse cenário motivou Marcelo Sodré Plachevski, graduado em Tecnologia de Informática, a dedicar-se ao mestrado em que projetou e desenvolveu um sistema que utiliza a tecnologia de reconhecimento de voz, através de um dispositivo móvel, sensível à voz de qualquer locutor, capaz de gerar um alerta vibratório e luminoso para o surdo quando uma das palavras previamente registradas no dicionário do sistema é pronunciada. O trabalho foi orientado pelo professor Rangel Arthur, da Divisão de Telecomunicações da Faculdade de Tecnologia da Unicamp, campus de Limeira, atual coordenador do curso de Engenharia de Telecomunicações, e foi coorientado pelo professor Francisco J. Arnold.
O pesquisador lembra que não existe uma tecnologia com reconhecimento de voz voltada para o alerta do deficiente auditivo como a proposta em seu projeto. Ainda hoje ele depende muito de alertas tradicionalmente utilizados. Por essa razão, a ideia que conduziu ao trabalho constitui uma inovação e despertou o interesse da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) de São Paulo, quando o conceito inicial da ideia foi apresentado por ele ainda em fase de concepção.
Ainda no início do desenvolvimento do estudo, Marcelo constatou essa realidade ao visitar a Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade (ReaTech), que acontece anualmente em São Paulo e que reúne todas as tecnologias existentes voltadas para deficiências de forma geral. Na ocasião, ao manter contato com associações de deficientes auditivos e com empresas que trabalham com produtos voltados para a audição, ele confirmou que não existia nada similar ao que pretendia criar.
A ideia
Em linhas gerais, a ideia que orientou a construção do sistema criado pelo pesquisador é simples. O deficiente auditivo mantém, à sua frente ou junto ao corpo, um smartphone que emite um sinal luminoso ou vibração quando uma pessoa próxima pronuncia seu nome. O deficiente fica sabendo que sua atenção está sendo solicitada e dirige então o olhar para o locutor com vistas a estabelecer a comunicação que pode se desenvolver com a utilização de vários recursos, entre eles o emprego da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Os testes mostraram que o sistema funciona a distâncias de até cinco metros, em locais internos e externos e suporta até determinados níveis de ruído, pois quanto mais silencioso o ambiente maior a possibilidade de um reconhecimento adequado.
A importância do trabalho ressalta quando se sabe que a população mundial com algum tipo de deficiência é estimada em um bilhão de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, de acordo com o censo do IBGE, de 2010, 45,6 milhões de pessoas possui algum tipo de deficiência, o que representa 23,9% da população. Desse universo, 9,71 milhões declararam-se com algum tipo de deficiência auditiva. Diante desse quadro o autor da dissertação se perguntou inicialmente o que poderia ser feito para auxiliar essas pessoas e como a tecnologia pode ser utilizada para facilitar suas vidas. Sobre a importância dessas iniciativas ele encontrou apoio no que diz Mary Pat Radabaugh, uma especialista na área de Tecnologia Assistiva: “Para as pessoas sem deficiência, a tecnologia torna as coisas mais fáceis. Para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis”.
A Tecnologia Assistiva constitui uma área interdisciplinar do conhecimento que engloba produtos, metodologias, estratégias e serviços com o objetivo de promover a autonomia e independência de pessoas com deficiências ou necessidades especiais, propiciando-lhes uma melhor qualidade de vida.
Com base nesse conceito Marcelo criou o sistema de Tecnologia Assistiva para Auxílio a Deficientes Auditivos e Surdos (TAADA), idealizado para eliminar a lacuna existente no processo de captação da atenção inicial do deficiente auditivo ou surdo por parte de uma pessoa considerada ouvinte.
Utilizando tecnologia de reconhecimento de voz e palavras selecionadas, em conjunto com um dispositivo móvel, o smartphone, o sistema TAADA atua como interface entre o deficiente auditivo e o ouvinte. A TAADA permite chamar a atenção do deficiente através de alertas sonoros emitidos pelo smartphone ou de sinais luminosos no display do aparelho sempre que alguém chame o deficiente auditivo pelo nome previamente registrado no sistema. O autor detalha que o TAADA utiliza recursos de reconhecimento de voz e palavras do PocketSphinx, através de um front end que atua com ele, agregados em um smartphone com sistema operacional Android. Esse conjunto permite que a palavra falada possa ser reconhecida qualquer que seja o locutor.
O sistema desenvolvido é composto por itens físicos e lógicos. A camada física, também chamada de hardware, é constituída por um smartphone que tem o recurso de vibracall. A camada lógica contem o sistema operacional Android, o sistema de reconhecimento de voz PocketSphinx, dicionário de dados e uma interface de aplicação para utilização pelo usuário.
O autor lembra que o software livre PocketSphinx exigiu alterações e ajustes necessários para ser utilizado no reconhecimento de voz de forma a que pudesse executar as funções previstas. Na versão original o PocketSphinx transforma a fala em texto, que funciona muito bem para a língua inglesa, mas não atende às necessidades do projeto. Com base em uma tabela em que foram elencados os nomes próprios mais comuns foram feitos ensaios para testar a eficiência do sistema. “Vale frisar que o nosso software é livre, gratuito, com código aberto, e estará proximamente disponibilizado na internet”, lembra Rangel.
O docente chama a atenção para o fato de que a maioria dos softwares existentes no mercado o reconhecimento de voz exige treinamento com o locutor para conseguir a conversão do sinal de voz em texto. Como é difícil encontrar um software que identifique qualquer voz, essa foi a dificuldade inicial a ser superada e que levou a restringir o número de palavras a serem usadas, mas que pudessem ser pronunciadas por qualquer locutor tanto em ambientes internos como externos, desde que o ruído não ultrapasse certo número de decibéis.
Marcelo explica que, definido o processo de reconhecimento de voz e a utilização do smartphone como hardware, passou a estudar as possíveis delimitações do projeto. Assim é que houve empenho em que o sistema fosse capaz de reconhecer o que foi dito independentemente de quem o diz, eliminando necessidade de treinamento do locutor e, ainda, que pudesse funcionar sem que o smartphone estivesse ligado à internet, garantindo com isso maior universalização do seu uso. A utilização do smartphone impôs também uma redução do número de palavras a serem reconhecidas. No caso, foi usado um elenco de nomes próprios, considerando que é por eles que o deficiente prefere ser chamado. O sistema capta a voz de qualquer locutor, identifica o nome chamado e previamente cadastrado, e emite o sinal de alerta para o deficiente. Nenhum deficiente auditivo vai mais receber almofadadas dos familiares que lhe solicitam atenção.
Pesquisa
Dissertação: “Sistema de tecnologia assistiva para captar a atenção de deficientes auditivos e surdos”. Autor: Marcelo Sodré Plachevski. Orientador: Rangel Arthur. Coorientador: Francisco J. Arnold. Unidade: Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp/Limeira
Fonte: Jornal Unicamp, Disponível Aqui. Edição de Imagens: Diana Melo