Senhora Olívia Alves, 81 anos - Portal do Envelhecimento e Longeviver
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Senhora Olívia Alves, 81 anos

A senhora Olívia Alves nasceu em Piraju, município do estado de São Paulo, que em tupi-guarani significa peixe-dourado. Tem 5 filhos, 15 netos e 5 bisnetos. Filha de João Domingues Barbosa e Maria de Paula, nasceu numa fazenda onde seus pais trabalhavam. A cidade era um ponto de passagem de viajantes que aos poucos perceberam a fertilidade do solo e foram se estabelecendo no local. Atualmente, dona Olívia mora em Saltinho do Paranapanema, bairro pertencente ao município de Campina do Monte Alegre – SP.

Marisa M. Feriancic

 

Embora em seu registro conste o ano de 1921, dona Olívia diz que a data oficial é 07 de outubro de 1925. Ela conta que fez seu registro de nascimento pela primeira vez quando foi se casar. Nessa época ela tinha 17 anos e precisou aumentar a idade. Uma de suas netas, Natália, conhecendo meu trabalho no Portal, falou-me com orgulho da avó e ofereceu-me o telefone para o contato. Dona Olívia vem todo mês para São Paulo fazer acompanhamento médico e fica hospedada na residência de sua filha Marilena. Nesse clima familiar amoroso e aconchegante dona Olívia me conta sua história.

A infância

Perdi meus pais muito cedo. Morava com meus pais e meus irmãos na fazenda do senhor Evaristo, em Piraju, onde meus pais trabalhavam. No café da manhã ele comia farinha e tomava café puro. Acho que aquilo fez mal e ele teve um problema de estômago. Quando eu tinha oito anos meu pai fez uma cirurgia do estômago. Após a cirurgia, quando o enfermeiro foi tirar ele da maca e colocar na cama, derrubou meu pai no chão. Os pontos se abriram, ele teve que retornar para a mesa de cirurgia e não resistiu. Era um homem muito trabalhador. Minha mãe estava grávida do meu irmão Tião quando o meu pai morreu. Após um pouco mais de um ano da morte de meu pai, minha mãe faleceu de febre amarela. Foi uma época de epidemia de febre amarela na região, eram tantas as pessoas mortas que o transporte era feito de caminhão. Ela tinha ido ao cemitério visitar meu pai e chegou com muita dor de cabeça. Pediu um chá, minha avó fez o chá e deu para ela com uma aspirina. Ela dormiu e naquele sono ela morreu. Ficou muito amarelada.

Sem pai e sem mãe, ficamos aos cuidados de uma avó materna. Era eu e mais 4 irmãos. O mais velho, Otávio, faleceu num acidente de cavalo. Júlio desapareceu com 9 anos. Olivino mora em Ourinhos e, Tião, com 73 anos, mora comigo. Tião sofreu um acidente de trem onde ocorreram muitas mortes e ele foi um dos poucos sobreviventes. Ficou 6 meses em coma na UTI no Hospital de Dracena, mas ele ficou bem.

Quando meu pai faleceu, minha mãe é que ficou fazendo o serviço dele na roça. Quando minha mãe morreu quem ficou no lugar foi minha avó Francisca. Ela trabalhava muito, cuidava de tudo sozinha. Ela era rígida, muito exigente, muito dura, mas muito boa também. Eu apanhava café para a fazenda, e ela ficava fiscalizando. Eu com uma peneira e ela com outra. Não podia ficar nenhum resíduo diferente. Na colheita do algodão era a mesma coisa. Ela dizia: “o homem põe com as duas mãos dentro de casa, se a mulher não for cuidadosa, com um dedinho só, ela joga tudo fora”. Ela nos ensinou muita coisa. Todas as palavras dela tinham uma verdade. Ela me ensinou a costurar na máquina de mão. Eu desmanchava a roupa do mais velho e aproveitava o pano para fazer roupa para o mais novo. Um dia fiz uma calça para meu irmão, com a vista costurada ao contrário, ela fez eu desmanchar tudo e fazer novamente. Não podia puxar a linha. Tinha que tirar os fios com a agulha, ponto por ponto, para não estragar o tecido. Eu achava ruim, mas fazia. A palavra dela era lei. Meu avô já havia falecido.Minha avó viveu bastante. Morreu perto dos cem anos e estava bem lúcida. Ela fazia de tudo. Trabalhava na roça, cuidava da gente, costurava.

O patrão da fazenda deixava a gente usar o algodão dos botões que não abriam. Os meninos tiravam a semente do algodão, minha avó punha numa engenhoca e enrolava os fios do algodão. Ela tecia o pano com os fios num tear, tingia e costurava roupas para nós. Para meus irmãos ela tingia de azul, para mim ela tingia de vermelho. As minhas blusas ela deixava na cor natural do algodão. Ela também fazia os nossos chinelos. Duas vezes por mês o fazendeiro matava um boi e dividia com os empregados. Ela tirava o couro, raspava o pelo e deixava secar. Fazia a gente pisar no couro e modelava o pé da gente, riscava e cortava com o canivete. Trançava o couro, fazia umas tiras e amarrava na sola. Ficava como sandálias tipo havaiana. Esse era o chinelo que a gente usava. Minha avó era casada com um viúvo que tinha 4 filhos, ela teve 5 filhos com ele, e ainda ficou com os cinco netos para criar. Ela cuidou dos filhos dele como se fosse dela. Eu também ajudei a criar meus irmãos.

No sábado e domingo que ela não trabalhava na roça da fazenda, ela fazia biscoito de polvilho para a fazenda e a metade era dela. Fazia broas de cará e pão também. Enchia os balaios para nós comermos. Minha avó trabalhava muito e nunca deixou faltar nada. A comida nossa estava sempre segura. Ela foi mãe, avó e uma bisavó exemplar. Minha avó era muito compreensiva e dava tempo de brincar também. Lembro-me de um lugar que eu e minhas amigas brincávamos, perto de uma ponte. Brincávamos de fazer comida, mas era comida de verdade, fazia arroz, fritava ovo e comia lá mesmo.Ela fazia bonecas de pano para a gente brincar. Chegou a fazer bonecas para as minhas filhas e para as crianças dos vizinhos. Ela repreendia, mas nunca bateu na gente. O que eu aprendi com minha avó eu ensinei para os meus filhos e eles passaram para os meus netos. Tenho uma carta da minha neta Carol onde ela fala do carinho que tem por mim e como eu servi de exemplo para ela.

Tio Júlio, irmão de minha mãe, achava que era muito trabalho para minha vó Francisca, sozinha, cuidar de todos nós. Ele resolveu que eu ficaria com os meus padrinhos, meu irmão Olivino iria morar com o Senhor Pedro Silva e Tião com um sujeito chamado Horácio, que o maltratava muito. Mais tarde, quando eu me casei, Tião veio morar comigo.

Como meus padrinhos não tiveram filhos, eles adotavam as pessoas. Os homens eles punham para trabalhar na roça. Eu pegava o cavalo, ia buscar as vacas e levava para a mangueira. Acordava bem cedo, tomava café com leite e tirava o leite das vacas. Depois do almoço, punha coalho para fazer o queijo e ainda ajudava na casa. Tinha um monjolo onde eu socava o milho e fazia a farinha. Limpava o arroz, abanava o café, enfim, tinha ocupação o dia inteiro e só sobrava o domingo para ouvir uma moda de viola. Tinha uma outra moça que morava com a madrinha, chamada Malvina que dava aula só para os homens. Eu queria muito estudar, mas a madrinha dizia que mulher não precisava estudar, que isso só serviria para mandar bilhete para o namorado. Não tinha chance de estudar. Nossa diversão era ir numa festa religiosa e missa que acontecia uma vez ao mês ali na fazenda.

O casamento

Casei muito cedo. Foi um casamento arranjado, mas a gente aceitava numa boa. Fazia pouco tempo que eu conhecia o João Francisco, meu marido. Conheci ele numa festa de roça. A primeira vez que ele veio conversar comigo meu irmão Olivino afugentou ele. Logo depois ele foi à casa da minha madrinha Helena. Nem chegamos a namorar, naquela época não podia. Era só olhar. Os pais dele já tinham falecido e ele morava com um tio.Um dia meu irmão adotivo, Pedro, disse:

– Olívia você vai casar. Já arrumaram um noivo para você.

No dia seguinte João foi pedir para minha madrinha se ele podia casar comigo e minha madrinha consentiu. Quem marcou o casamento foi minha madrinha e ele. Naquele tempo era assim. Falei para o João Francisco: eu só caso com você se puder levar minha avó e meu irmão Tião comigo. Ele concordou e nós casamos. Eu tinha dezessete anos e ele dezenove. No dia do casamento fomos todos a cavalo. Cavalgamos 17 km até a igreja. Nós e os convidados. Enrolei o vestido de noiva e pus sobre o cavalo. Depois do casamento fomos direto para casa porque não teve nenhuma recepção. Fomos morar numa casinha de sapê na beira da estrada, no bairro dos Bento, perto de Piraju. Era um terreno pequeno da família dele. Plantávamos um pouco de tudo: milho, algodão, feijão e vivíamos da venda desses produtos.

Minha primeira filha, Cida, era bebê ainda e eu estava grávida da minha segunda filha, que se chamaria Lena. Todos tinham saído de casa, e eu resolvi sair também. Peguei a nenê e fui até a casa de uma amiga. Eu nunca saía. De repente alguém veio me chamar dizendo que minha casa estava pegando fogo. A casa ficava na beira da estrada e era comum os caminhantes descansarem próximo dali. Alguém deve ter acendido algum fogo para se aquecer e o fogo se alastrou. Peguei minha filha e saí correndo. Quando cheguei o fogo tomava conta de tudo. As galinhas morreram, o cheiro era horrível. Nós fazíamos compras uma vez por ano. Tínhamos latões de querosene para usar no lampião, e eles começaram a explodir. Só se via as labaredas. Quando meu marido chegou estava tudo destruído. Um vizinho tentou apagar o fogo jogando água e incendiou mais ainda. Queimou tudo. Não sobrou nada. Aconteceu uma coisa interessante, a nossa bíblia não queimou. Ela estava guardada dentro de uma mala de couro, o couro ficou todo retorcido e a bíblia ficou inteira. Não sei como isso aconteceu. Mais tarde, fomos morar em Macuco, distrito de Cerqueira César onde nasceu a Lena e dois anos depois, o Isaias.

Tempos depois, um conhecido nosso, que era corretor, arrumou um pequeno lote de terra para vender em Ouro Verde – SP. Demos uma entrada e combinamos de pagar o restante em parcelas. Minha avó ficou na casa de uma tia e nós mudamos com as crianças para lá. Logo que chegamos, começamos a plantar. Plantamos muito café e banana. Estávamos animados quando apareceu o dono, tomou o terreno da gente e perdemos tudo. Tivemos que começar novamente. Alugamos uma casa maior para morarmos e ao mesmo tempo oferecendo pensão para algumas pessoas. Nessa casa , nasceu Therezinha. Alguns anos mais tarde, mudamos novamente para outra casa, oferecendo mais cômodos para alugar para os pensionistas. Nessa casa nasceu meu caçula, Zé Carlos.

Alugamos um casarão velho, com 5 quartos e começamos a dar pensão para os professores que se hospedavam naquela região. Alugávamos quartos e servíamos refeições. As crianças estavam maiores e me ajudavam. Fornecíamos marmitas também. Eu cozinhava e cuidava de tudo.Tinha uma pessoa que me ajudava a lavar as roupas, era muito sacrifício porque era água de poço. Depois de um tempo meu marido resolveu vir para São Paulo e eu fiquei com as crianças. Ele disse que assim que arrumasse um emprego iria buscar a gente, ele demorou muito para dar notícias e depois retornou.

Anos mais tarde, depois de juntar algum dinheiro, viemos para a cidade de Dracena. Vim primeiro com Guida e as crianças e o João veio depois, pois trabalhava num cartório em outra cidade. Alugamos uma pensão chamada “São Salvador” e em seguida a pensão “Popular” onde nos estabelecemos. Tínhamos quartos para hóspedes e servíamos refeições para grandes firmas. De lá mudamos para o Ambassador Hotel e depois para o Palace Hotel, onde trabalhávamos mais como empregados do que como sócios, onde a sociedade não deu certo e nós acabamos ficando com muitas dívidas.

Novos rumos

Depois de um certo tempo, meu marido veio novamente para São Paulo e, em 1964, saí do interior com meus cinco filhos e vim para São Paulo também. O Senhor Ezequiel um caminhoneiro conhecido nosso foi quem nos trouxe. Meu irmão, Tião, veio junto. Eu vim com 3 filhos na cabine e os outros 2 vieram em cima do caminhão. Aluguei uma casinha, no meio do mato, na Vila Leopoldina e ficamos 6 meses sem nada. Foi muito sofrido. Cozinhava em 2 tijolos. Não tinha móvel, nem camas. Não tinha nada. Fui comprando aos poucos. Comprei um fogão, depois os colchões, e assim fui equipando a casa.

Depois de um ano que eu estava em São Paulo meu marido apareceu lá em casa. Ele me encontrou através do meu compadre Antonio. Disse que demorou a arrumar serviço e não tinha condições de trazer a gente e cuidar do nosso sustento. Ele quis morar com a gente e ficou lá em casa. Todos nós trabalhávamos. Eu e meus filhos. Eu tinha dois empregos: um na limpadora e outro na metalúrgica. Sabia administrar meus gastos e meu dinheiro sempre rendeu muito. Meu marido virou o banco da gente e começou a administrar o nosso dinheiro. Até ali quem administrava tudo era eu. Meu irmão, eu e os filhos entregávamos todo dinheiro para ele. Ele dizia que iria comprar uma casa para nós. Fazíamos uma economia danada. Naquele tempo a mulher tinha que trabalhar fora, lavar, passar, engomar colarinho, fazer comidinha especial, etc. Nessa época ele trabalhava de vigia numa escola e a diretora arrumou uma vaga para ele estudar. Algum tempo depois ele conseguiu emprego de auxiliar num cartório.

Uma senhora, a Dona Carolina, queria vender uma casa, na Vila Leopoldina, e podia receber o dinheiro aos poucos. Ela comentou com o padre Vicente, e ele me emprestou o dinheiro sem juros. Aceitei o empréstimo quando ele me falou:

– Dona Olívia, hoje a senhora paga 50 de aluguel. Então a senhora vai pagar 25 para mim e 25 para dona Carolina. Sua despesa vai ser a mesma. Fiz o negócio. Fui morar na frente da casa e Dona Carolina ficou morando nos fundos.

O Senhor João, dono da casa, me passou a escritura mesmo antes de eu terminar de pagar. Quando faltava somente uma prestação ele faleceu e logo em seguida dona Carolina também faleceu. Eles não tinham herdeiros e a casa já estava no meu nome. Já possuía a escritura, mas mesmo assim fiquei preocupada. Graças a Deus que eu era bem preparada para a vida.

Era sócia do sindicado dos metalúrgicos e fiquei sócia do Sindicato da Frente Nacional do Trabalho, os advogados eram muito bons e me alertaram para tomar cuidado. Se aparecesse alguém para pegar alguma coisa da casa, eu deveria anotar e pedir documentação. Eles não tinham filhos, e nunca recebiam visitas de parentes. Quando eles morreram, apareceu um monte de gente fazendo reivindicações. Chovia gente querendo coisas. Após alguns anos que morávamos nessa casa, o meu casamento já não ia tão bem, descobri que meu marido tinha uma outra pessoa. Conversamos em família sobre essa vida dupla dele. Daí, ele tomou a decisão de sair de casa e foi morar com essa pessoa. Nessa época, já morávamos em São Paulo há uns 11 anos.

Meu ex-marido tem contato com os filhos, mas nunca foi à minha casa. Às vezes a gente se encontra em reunião de finais de ano. No começo eu fiquei bem chateada, depois passou. A gente supera. Está tudo bem. Nunca mais quis ter ninguém. Namorado tira a liberdade da gente. Gosto das minhas contas certinhas. Só sei que eu guardo e quando vou comprar, eu compro à vista. Eu troquei há pouco tempo minha máquina de lavar roupas que estava muito antiga. Outro dia vendi uma engenhoca de cana, fiz um dinheiro e com um pouco mais eu fui lá e comprei a máquina. Eu que administro minha vida e meu dinheiro. Não quero homem mandando na minha vida. Estou muito bem, quero muito bem a meus filhos, meus netos, bisnetos e toda minha família.

Reconstruí minha vida

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Em 1982, meus filhos já estavam todos casados, estava aposentada e então resolvi sair de São Paulo. Tinha vontade de morar num sítio e fui procurar um lugar em Saltinho do Paranapanema, onde moro até hoje. Fica há 10 km de Angatuba. Meu irmão sempre saía de São Paulo e ia pescar nessa região com um vizinho nosso. Um dia fui com eles e enquanto eles pescavam, fui procurar um terreno e encontrei um pedacinho de terra que eu gostei. Falei com o proprietário, perguntei o preço e logo fechei negócio. Paguei em parcelas e deu tudo certo. Construí minha vida novamente.

A gente que é da roça gosta de plantar. Quando cheguei no sitio comecei a fazer uma horta; plantei milho, banana, mandioca, couve e várias frutas. Fiz uma granja também. Hoje tenho umas 100 galinhas. Vendo frangos e ovos. Construímos um tanque de peixes para o nosso consumo. Tem pacu, tem piava, etc. Criamos abelhas e vendemos o mel puro nos vidros e o mel com a cera. Meu irmão Tião cuida bem dessa parte. Ele me ajuda bastante.

De líder comunitária e vice-prefeita

Durante muitos anos eu fiz parte da associação de bairros, o onde era a segunda tesoureira. Consegui dinheiro para comprar tecidos, máquinas de costura, organizava oficinas de costura e fazia compras para o asilo. Já tive muitos aborrecimentos por causa disto, mas a gente luta pelo bem do povo. Consegui muito melhoramento, com muita luta. Cheguei até a me candidatar à vice-prefeita.

Nós tínhamos uma horta comunitária na região e um dia fui ver o arado e descobri que um rancheiro tinha pegado metade do arado e cercado para fazer uma piscina para a casa dele. Fiquei muito brava, peguei o carro e fui à prefeitura. Cheguei lá e contei para o prefeito de Angatuba o que estava acontecendo. Na mesma hora ele falou que mandaria 3 ajudantes de caminhão para derrubar a cerca. Ele confiava na gente. Ele cuidava muito bem da saúde e do ensino na nossa região.

Há uns 15 anos perdi uma grande amiga, a dona Alice, por aborrecimentos. Eu e Alice trabalhávamos no sindicato e estávamos requisitando telefone para a região. Um sobrinho dela estava ajudando. Depois de tanta papelada e tanto trabalho, foi negado nosso pedido. Nesse dia passamos o dia inteiro cuidando de conseguir a assinatura. Ela ficou muito nervosa e voltou chorando o caminho todo até em casa. Chegando em casa ela foi preparar uma sopa e pediu que eu jantasse com ela. Jantamos e logo mais eu fui para minha casa.

Tinha uma menina que morava comigo. Ela chegou à noite da escola e me disse que alguém havia falecido. Pois tinha visto um carro da funerária. Eu achei estranho porque não tinha ninguém doente na região. Mandei ela verificar e ela voltou dizendo que tinha sido dona Alice. Ela usava marca-passo. Acho que foi muito nervoso que ela passou. Fiquei muito aborrecida porque ela era uma grande amiga.

Conseguimos muito para a região. Fomos várias vezes pedir água até que eles resolveram fazer um poço artesiano. Depois do poço pronto, surgiram problemas de esgoto. Faziam as fossas, não mediam direito a distância dos poços e ocorria contaminação. Um dia fomos reclamar e conseguimos tudo. Esgoto, Água, Luz e também telefone. Conseguimos estradas também. Hoje as estradas parecem tapetes.

Uma época consegui alugar uma casa e arrumamos um médico para atender a população. Puxei água, esgoto. Era uma espécie de ambulatório. Quando estava tudo arrumado, trocou o prefeito e ficamos sem nada. A nossa região passou para o município de Campininha e eles alegaram que não precisávamos de médico aqui, que todo atendimento poderia ser feito em Angatuba. Queriam acabar com os postinhos de saúde também, eu não deixei. Fui reclamar porque foi construído com o dinheiro da associação.

Tínhamos parque infantil na cidade, escorregador, feito pela associação. Tiraram tudo e deram para os rancheiros. Fizeram um campo de futebol no lugar, sem autorização da associação. Esse terreno era nosso. Fiz um abaixo assinado, fui na secretaria de saúde, e provei que era adquirido pela associação. Apesar das lutas não conseguimos mais refazer a Associação do Bairro.

Receita de solidariedade: muito trabalho

Nunca parei de trabalhar. Continuo trabalhando e ajudando, sempre que alguém precisa eu estou lá. Se tiver uma pessoa doente eu vou à uma fazenda vizinha, pego um boizinho, fazemos um bingo, organizamos festas, e arrecadamos dinheiro e damos para a família que precisa. Em casa eu não tenho quase tempo de fazer nada. Tenho uma menina que me ajuda nos serviços domésticos.

Fazemos as festas no barracão da igreja. Têm muitas pessoas que ajudam. O padre também ajuda. Quando precisamos usamos o dinheiro. Todos os finais de festas fazemos a contagem do dinheiro para ver quanto arrecadamos. Outro dia fizemos uma festinha para arrecadar dinheiro para 2 famílias. Conseguimos arrecadar oitocentos reais para cada família, para ajudar na compra de remédios e outras despesas. Sempre que alguém necessita de auxílio, as famílias cooperam. Toda semana tem uma festinha. Não falta mão de obra também. É uma comunidade unida. Quando eu dirigia o carro, socorria a todos. Eu sempre recebia chamadas para levar pessoas ao hospital, tirar documentos ou resolver problemas no fórum. Conheço todos no fórum. Hoje não dirijo mais, mas empresto o carro quando alguém precisa, meu irmão ainda dirige. As pessoas daqui são muito boas. Uns ajudam os outros. Eu sempre ensinei meus filhos: você não pode ter orgulho, não precisa ter dinheiro no bolso, mas precisa ter amigos. Os amigos são coisas valiosas. Amizade é tudo na vida da gente. O contato com pessoas é importante. A gente precisa de dinheiro sim. Precisamos pagar as contas, mas não é o principal.

Eu gosto de ajudar as pessoas. Quando eu paro para pensar eu acho que para mim o dinheiro sempre rendeu. Dinheiro na minha mão faz milagre. Quando estou em São Paulo, na casa da minha filha, e passa um vendedor de balas, eu compro. Eu penso assim: só o ato dele já faz dó para a gente. Eles já merecem uma ajuda. O que custa comprar uma balinha para ajudar? Caminharam no sol. É dureza. Tem senhor que vende pamonha perto da minha casa, eu não posso comer porque tenho diabetes, mas eu compro para ajudar. Dou de presente. Ele anda mais de 30 quilômetros de bicicleta para vender as pamonhas e eu fico com pena dele. Não me sinto bem se não fizer assim. Uma vizinha tem 14 filhos, ela foi comprar um tênis lá na região, e pagou caro. E falei para ela. Deixe que eu trago de São Paulo, é mais barato. Depois disso, todos começaram a me pedir coisas. Hoje tenho uma lojinha. Eles encomendam e eu levo. Eles me pagam como podem. Tenho um lucrinho pequeno, só para pagar a viagem. Quando eu levo calças compridas, não sobra nenhuma. A calça que eu vendo por 30,00 reais, lá custa 60,00 reais. Minhas filhas ficam bravas, acham que eu trabalho muito ainda.

A saúde

Minha saúde está boa. Tenho algumas coisinhas, mas me sinto bem e estou sempre em atividade. Tive uma vida muito corrida, mas com muita saúde. Só fui procurar médico depois dos meus cinqüenta anos. Fiz cirurgia da vesícula, da tireóide, depois tive uma embolia, mas tenho sorte, tudo que vem, eu rebato. Tive uma infecção urinária, curei, estou bem não tenho nada sério. Venho uma vez por mês para São Paulo fazer exames médicos. Minha filha cuida muito bem de mim.Tenho diabetes, mas eu me cuido. Faço regime e me alimento bem, caminho bastante e durmo bem. A comida não me faz mal, tenho uma digestão boa. Levanto todos os dias às 6:00 horas e durmo depois das 23:00 horas. Deito e durmo um sono só.

Lazer: a pescaria

Quando tenho tempo eu vou pescar com a dona Maria, lá no Rio Paranapanema. A dona Maria tem 90 anos. A gente sempre pesca uns peixinhos, geralmente lambari. Sempre gostei de pescaria. Quando era mais nova pescava de peneira. A dona Maria é mãe do zelador de um rancho muito bonito que fica perto de casa. A gente pesca no barranco. Enquanto tem peixe a gente pesca. Temperamos o peixe e depois almoçamos juntas. Tem mais gente que vai também. Só que elas vão de bote. Eu não vou mais. Uma vez pescando de bote com meu irmão levei o maior susto. O bote encheu de água e como não sei nadar, fiquei segurando num galho de árvore até receber socorro. Meu irmão sabia nadar e não se assustou. Ultimamente dona Maria não está muita boa e não temos ido pescar.

A velhice

Uma velhice trabalhada é prazerosa. Nessa fase, os filhos já estão todos criados, e o relacionamento com os netos também faz bem. Eu tenho cartinhas dos meus netos guardadas. Eles escreviam que estavam com saudades de mim. Eu contava muitas historinhas para eles. Meus genros e minhas noras são verdadeiros filhos para mim. Uma época meu neto estava chateado com os estudos, desanimado e não queria estudar mais. Eu o chamei para conversar. Ficamos das 11:00 horas até às 14:00 horas conversando. Mostrei a ele que estudar é importante. É uma herança que ninguém tira. Eu só estudei até o terceiro ano do supletivo e só depois de aposentada.

Não reclamo da vida. Tive cinco filhos, mas hoje eu poderia ter uns trinta porque só me dão alegria. Até isso eu consegui. Acho que consegui criar bem. Estão todos bem. Tenho muito orgulho da minha família. Meus filhos começaram a trabalhar muito cedo. Foram emancipados para começar a trabalhar. Cada um tem sua vida própria. Conseguiram tudo às custas deles, com muito esforço. Os filhos e os netos nunca foram para o caminho errado. Todos os meus filhos estudaram. A educação e atenção que se dá para os filhos são muito importantes. A educação é uma herança que não tem padrasto, não tem ninguém que tira de você. Eu passei isso para meus filhos e eles passaram para os netos. Eles me respeitam muito e eu quero muito bem a todos. Minha neta Carol me diz que eu sou um exemplo para ela. Eu fico feliz com isso.

A religião

A religião sempre me ajudou muito. Tenho muita fé em Deus. Sempre vou à igreja. Se a pessoa tiver fé, a religião ajuda, principalmente quando se vai envelhecendo. Mas precisa ter fé. Eu consigo muita coisa. Meu irmão também. Eu peço a Deus e ele me ajuda. Já consegui muitos milagres. A fé é a força de tudo. Acho que já nascemos com algumas funções para cumprir. Tem gente que fala, já criei meus filhos e agora posso morrer contente. Eu acho que não, enquanto você estiver andando e falando você ainda tem muito o que fazer. Eu nunca guardo só para mim aquilo que eu posso ajudar ou ensinar alguém. Se alguém me pede alguma coisa, não deixo de atender. Nem sempre precisamos de dinheiro para ajudar as pessoas. Você ajuda com seu conhecimento, com sua boa vontade. Esforço pessoal é mais difícil.

Solidão

Não sinto solidão, mas não gosto de ficar sozinha. Minha casa é na beira da estrada, fico lendo na área, fazendo remendo, as pessoas passam e cumprimentam. Fico sabendo se fulano melhorou, se piorou. Não dá para sentir solidão porque sempre tem alguém para conversar. Se as pessoas não se ocupam param de trabalhar cedo. Estou sempre ocupada. O senhor Pedro, meu vizinho, tem 86 anos e trabalhava muito ainda. Há pouco tempo teve um derrame e fui visitá-lo. Antes de vir para São Paulo, fui fazer uma visita a ele e falei que voltava logo. A Dona Antonia, a esposa dele, diz que ele fica mais seguro quando estou lá. Eles sabem que se precisarem de alguma coisa podem me chamar. Faz 3 anos que eu não dirijo, mas empresto o carro para o filho dele. Eu me dou bem com todos na região onde moro. Todo lugar que vou, encontro caminho aberto.

Uma mensagem

Quero deixar uma mensagem:

Eu adoro meus filhos, minha vida, eu só penso em viver fazendo o que gosto e com saúde. Não quero dar trabalho para os outros. Eu quero poder sempre fazer alguma coisa para ajudar os outros. Quero agradecer tudo que Deus me deu. A saúde dos meus filhos, tudo. Eu gostei de falar, a mensagem é essa: eu adoro meus filhos, minha vida, eu só penso em viver fazendo o que gosto e com saúde. Eu gostei de conversar com você e contar minha história.

A gente aprende todos os dias, falando e também ouvindo.

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