“Precisamos olhar o outro e enxergar a capacidade e não a idade” - Portal do Envelhecimento e Longeviver
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“Precisamos olhar o outro e enxergar a capacidade e não a idade”

Imaginar tanta energia, disposição e conectividade no primeiro momento que a vi parecia impossível, mas a vida nos arrebata e mostra que “Precisamos olhar o outro e enxergar a capacidade e não a idade”. Dona Sid nos ensina nesta frase que a utilização da tecnologia está disponível para todos e que, mesmo em Itacaré – Bahia, cidade com 27.000 habitantes, conseguimos encontrar Dona Sid, nossa “vovloggers”.

Denise Morante Mazzaferro *

 

A vida nos apresenta desafios, oportunidades e, inesperadamente, nos coloca diante de grandes modelos que nos ensinam a viver e reinventar-nos. Modelos que são, cada dia mais, repertório de uma sociedade que vive o fenômeno da Longevidade.

Foi nesse contexto que conheci Sidnalva Souza Borges, Dona Sid, em Itacaré – BA. Nascida em novembro de 1957 em Itapé – BA, é viúva em 3 casamentos, teve 5 filhos, 11 netos e 2 bisnetos. Dona Sid é guia cadastrada na Associação de Itacaré há 4 anos e faz diariamente a trilha da Prainha, chegando a guiar mais de um grupo.

Quando chegamos à praia da Ribeira, no ponto em que se inicia a trilha para a Prainha fui abordada por Dona Sid que me perguntou se faríamos a trilha, em quantos éramos e nos explicou como funcionava o serviço. No local haviam vários outros guias, todos homens e mais jovens. Reconheço que acreditei que ela era apenas a responsável pela venda do serviço e perguntei: “Podemos fechar, mas é a senhora quem nos guiará?” E então, Dona Sid me respondeu prontamente com toda sua experiência e alegria de viver: “Lógico que sou eu, você tem que olhar para mim e enxergar minha capacidade e não a minha idade!”.

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A trilha tem 3 km de trechos maravilhosos com muitas subidas e descidas e a previsão de duração era de 40 minutos. Conseguimos concluir o trajeto, guiados por Dona Sid, 58 anos de idade, em 32 minutos. Sua energia era contagiante! Por mais de uma vez ela dizia ao surfista que nos acompanhava e estava logo atrás dela: “Adoro guiar gente jovem porque o ritmo da caminhada tem que acompanhar quem está colado ao guia!” Além de nos mostrar a paisagem, nossa guia estava durante todo o tempo preocupada com a nossa segurança e também com a preservação da natureza. Por mais de uma vez parou para recolher latinhas e lixo deixados por turistas: “A beleza deste lugar é uma dádiva de Deus, a limpeza é nossa obrigação!”. Paramos em um mirante para apreciar a paisagem e Dona Sid nos recomendou que tirássemos fotos com os celulares. Ela manuseou diversos modelos de aparelhos, elogiando o avanço da tecnologia e a qualidade das imagens.

Dona Sid interrompeu seus estudos na 6ª. série mas isso nunca a impediu de trabalhar da maneira que podia para ajudar sua família ou de descobrir as novidades da tecnologia que a auxiliam no seu trabalho hoje. Foi babá, auxiliar de limpeza de uma agência do Banco Itaú em Itabuna, e recicladora em Itabuna e também em Itacaré. Mas conta que esta era uma tarefa difícil porque carregava muito peso. Com o fechamento da ONG em que trabalhava, resolveu se tornar guia de turismo: “Foi muito difícil no início, porque já tinha 55 anos e era a única mulher nesta profissão. Ainda hoje tem uns homens que não gostam que eu esteja fazendo isso.”

Depois de seus primeiros passeios, Dona Sid conseguiu realizar um sonho: comprar seu primeiro celular! “Foi uma alegria só, porque eu podia falar com meus filhos e netos que moram longe e também conhecer gente nova além de falar com meus clientes. Falo com gente pelo zapp até de Santa Catarina”.

“Se eu me descuidar fico no meu celular e não vejo os turistas passarem, por isso tem vezes que guardo o aparelho para vender meu trabalho. Eu mexo tanto no meu celular que tem vezes que ele até trava, preciso pedir para minhas filhas destravarem. Por outro lado, ele me ajuda, porque no meu cartão deixo meus números e meus clientes podem me indicar para os amigos que já marcam o passeio comigo com antecedência pelo whats. Além disso, tenho facebook mas prefiro mexer no tablet do meu neto. Quando tenho dúvidas, resolvo com a minha filha Jordânia. `As vezes passo horas me distraindo com tudo o que eles me ensinam”, fala sorrindo.

Imaginar tanta energia, disposição e conectividade no primeiro momento que a vi parecia impossível, mas a vida nos arrebata e mostra que “Precisamos olhar o outro e enxergar a capacidade e não a idade”. Dona Sid nos ensina nesta frase que a utilização da tecnologia está disponível para todos e que, mesmo em Itacaré – Bahia, cidade com 27.000 habitantes, conseguimos encontrar Dona Sid nossa “vovloggers”.

Dona Sid termina a entrevista me dizendo que aproveita muito mais a vida hoje porque com a experiência, aprendeu a viver as coisas boas e contornar os problemas. Seu desejo é viver até os 120 anos e completa: “Guiarei meu último turista aos 70 anos e adivinha se não vou postar isso no meu face!”

(*)Denise c Mazzaferro – Mestre em Gerontologia PUC-SP, Pós graduação em Marketing ESPM. Sócia da Angatu IDH – Angatu Integração e desenvolvimento humano. Membro da Rede de Colaboradores do Portal do Envelhecimento. Email: dmazzaferro@angatuidh.com.br

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