Como poderíamos definir a ignorância? Dentre muitos significados, o melhor que encontrei foi esse do saudoso Paulo Francis (1930-1997), jornalista, crítico de teatro e escritor brasileiro: “A ignorância é a maior multinacional do mundo”.
Luciana H. Mussi *
Para isso, lembramos a matéria do Jornal “A Folha de S.Paulo” de 20/08/2013 de Fernanda Pereira Neves sobre o acontecimento que levou a coreógrafa, Deborah Colker e sua família, ao constrangimento de ser “quase” barrada ao tentar embarcar em voo da companhia aérea Gol.
Seria um procedimento padrão, rotineiro, banal da empresa para proteger os demais passageiros? Não, a resposta mais provável é a ignorância e seu caminho mais danoso: o uso e abuso do “maldito” preconceito. As normas, talvez sirvam para eventuais justificativas para o ato preconceituoso e discriminatório, como veremos a seguir.
Para Deborah Colker foi uma ação “nitidamente discriminatória, preconceituosa” e que foi provocada pelo despreparo dos funcionários. Théo estava com a avó (Deborah Colker), a mãe e o pai quando foi vetado num voo de Salvador para o Rio de Janeiro por ser portador de uma doença congênita chamada epidermólise bolhosa, que causa erupções na pele. A doença não é contagiosa.
“Houve um total despreparo, uma total falta de profissionalismo e uma total falta de cuidado de lidar com a família e uma criança de 4 anos que presenciou uma ignorância, estupidez total já dentro do avião”, afirmou Colker à Folha.
A coreógrafa foi abordada dentro da aeronave por um comissário. Ele exigia um atestado para permitir a permanência do menino. Segundo Deborah, os detalhes da doença já tinham sido dados no momento do check-in: “Tínhamos explicado no check-in que não é contagioso, é uma doença de pele e que ele já viajou de avião várias vezes (…)”.
Em nota, a Gol afirmou que cumpriu rigorosamente as recomendações do Manual Médico da IATA (sigla em inglês da Associação Internacional de Transportes Aéreos) e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “Lamentamos profundamente os transtornos causados à família com relação à forma como foi conduzido o cumprimento de tais recomendações. A estes e aos demais passageiros, pedimos sinceras desculpas”, completou.
Deborah afirmou que vai processar a Gol pelo constrangimento sofrido durante a viagem. “Lógico que vamos recorrer à Justiça. Pretendo processá-los e que todo o dinheiro desse processo seja revertido à pesquisa genética e que siga de exemplo para que não aconteça com mais ninguém. Tenho essa obrigação ética como avó, como mãe”.
“Tinha dois policiais na porta do avião. A ideia era nos retirar da aeronave. Retirar o monstro de uma criança de quatro anos que tinha uma aparência estranha. Tenho que denunciar isso”, afirmou a coreógrafa.
Reflexões paralelas
Quando lembramos do constrangimento sofrido por Deborah e sua família, pensamos em quantas situações semelhantes não acontecem Brasil afora e que não tomam a repercussão que esse caso, em específico, causou.
Deborah Colker é uma figura conhecida, profissional competente que está na mídia, e conhece exatamente seus direitos, tem recursos e sabe fazer uso de cada um deles. Mas e os “outros”? O que diríamos, então, dos nossos velhos sem vez, voz e lugar? O mais bizarro é que os mesmos meios de comunicação que anunciam os perigos de um envelhecimento descontrolado e não planejado, ainda são aqueles que infantilizam e marginalizam os mais velhos.
Como mudar esse cenário? Com certeza esclarecendo, dizendo NÃO à ignorância que invade a mente daqueles que se julgam instruídos, poderosos e detentores do saber universal.
A saída só pode ser através da educação que começa no ensino de base. Educar nossas crianças, ampliar o universo de conhecimento para que assim possamos construir juntos uma sociedade respeitosa, digna e democrática. Educar: uma via de duas mãos.
Eduquemos a nós mesmos!
Referências
NEVES, F.P. (2013). Coreógrafa barrada em voo aponta despreparo e diz que processará Gol. Disponível Aqui. Acesso em 20/08/2012.