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Morte por fome entre pessoas idosas

Cresce o número de pessoas em estado de fome, muitas delas até falecendo por esse motivo, entre elas pessoas idosas. Óbitos por fome permanecem invisibilizados

Colaboração de Marcelo Henrique Alves de Santana (*)


Muito se fala sobre a qualidade dos alimentos, sobre quais vitaminas e sais minerais contêm, qual deles pertencem a uma classe mais energética, mais proteica, entre outras características. Porém, atualmente, nota-se outro enredo que traz exatamente o oposto: cresce o número de pessoas em estado de fome, muitas delas até falecendo especificamente por esse motivo.

Nesse contexto, é relevante abordar que a morte de pessoas idosas por causas relacionadas à privação de comida tem se tornado assunto importante, porém não sendo pauta abordada pela grande mídia. Ainda se lê muito sobre as mortes relacionadas à obesidade ou excesso de peso, mas os óbitos por fome permanecem invisibilizados.

Antes de tudo é preciso esclarecer o conceito de insegurança alimentar. Esta ocorre quando um indivíduo não possui acesso a uma quantidade suficiente de alimento que garanta sua sobrevivência, isto é, trata-se daquela pessoa para a qual a próxima refeição é sempre uma incerteza, que tem comida de manhã, mas não sabe se a terá ao entardecer. A insegurança alimentar é um gravíssimo problema de saúde púbica.

Segundo o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição do Mundo de 2021”, realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o número de pessoas afetadas pela fome, no mundo, subiu para cerca de 828 milhões somente no ano de 2021. Isso, matematicamente falando, representa um aumento de aproximadamente 50 milhões de pessoas por ano as quais não fazem a menor ideia do que terão para comer desde o início até o fim do dia.

Mas, por que a insegurança alimentar em pessoas idosas a insegurança alimentar se torna ainda mais preocupante? Conforme envelhecemos, há várias alterações fisiológicas que ocorrem no organismo e que afetam não só o que comemos, mas quanto comemos. O paladar se modifica, o trato digestório fica mais lento, o grau de atividade física e o uso de medicamentos podem e influenciam hábitos nutricionais. A desnutrição na pessoa idosa é de extrema importância, estando associada a sarcopenia, perda de imunidade e presença de fragilidade, como já explanamos em vários outros posts. Inclusive, alguns autores comentam sobre a anorexia do envelhecer, isto é, a falta de ingestão que acomete a pessoa idosa.

Porém, quando se fala na ausência de alimento, no entanto, o prejuízo é ainda maior, pois a ideia passa a ser não o que se pode ou não comer, o que se deseja, mas sim o que se tem disponível, e, no caso da escassez, se tem o vazio.

Fato é que falar sobre insegurança alimentar sob a perspectiva das pessoas idosas é abordar, entre outros aspectos, questões socioeconômicas e culturais, tais como cor da pele, local de moradia, ter renda ou não, ter acesso ou não a alimentos de qualidade, condições de moradia, dentre outros.

Outros fatores, porém, podem levar a insegurança alimentar. Abandono, negligência e exploração econômica podem ser fatores desencadeantes. Infelizmente há pessoas idosas sendo deixadas de lado pela própria família, enquanto têm seus cartões de aposentadoria lesados por empréstimos consignados abusivos feitos por parentes, em sua maioria próximos. Com isso, cria-se uma atmosfera de exploração na qual a pessoa idosa é a mais acometida.

Com uma alimentação cada vez mais insuficiente e sem de onde tirar recursos, surge a epidemia de desnutrição silenciosa, capaz de causar a morte de milhares de pessoas idosas por ano. No Brasil, estima-se que cerca de 13 casos de mortes por desnutrição em pessoas idosas ocorrem por dia, conforme levantamento feito por Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida, uma média de aproximadamente 400 óbitos por mês.

Caso não haja morte, observam-se pessoas em estado de desnutrição moderada ou grave devido à baixa ingestão calórica, o que afeta o equilíbrio, a mobilidade das articulações, a quantidade e força dos músculos, entre tantos outros. Além das questões físicas, há depressão, isolamento social, agravamento dos quadros demenciais etc. Assim, fica notório o quanto a insegurança alimentar afeta diretamente a saúde das pessoas idosas.

A nutricionista, Bruna Jacinto de Souza, doutora em Saúde Coletiva e Epidemiologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FMC/UNICAMP, 2021), realizou um estudo transversal sobre insegurança alimentar feito com 427 pessoas idosas, com idade igual ou superior a 60 anos, moradoras de Campinas e usuárias de um restaurante popular. A análise dos dados permitiu concluir que os idosos com insegurança alimentar apresentam maior chance de doenças crônicas, pior estado nutricional, além de piores condições socioeconômicas, inclusive, uma das maiores chances de insegurança leve e moderada/grave foi observada entre aqueles que residiam em moradia de alvenaria inacabada, demonstrando que esse fenômeno é maximizado pelo abismo social que existe em nossa sociedade.

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Por fim, salienta-se que o acesso à alimentação de qualidade é um direito humano fundamental, assim como o direito à saúde e à vida. A insegurança alimentar vai contra estes três direitos, ferindo sobremaneira a dignidade humana, abreviando vidas e levando a doenças que poderiam ser prevenidas por uma ingesta de alimentos adequada. Dessa forma, é necessário garantir a efetivação destes direitos para que possa haver um bom envelhecer.

Uma política pública de expansão dos restaurantes populares, como sugerido pela Dra. Bruna Jacinto, desponta como uma alternativa viável no combate efetivo à desnutrição e a consequente morte de indivíduos no país que mais exporta alimento pelo agronegócio no mundo. Mas, a diminuição da desigualdade é que se destaca como pano de fundo para podermos reverter estas questões.

Referências
ALVES, Luciana Correia. et al. A influência das doenças crônicas na capacidade funcional dos idosos do Município de São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1924-1930, ago, 2007.

GARCIA, Analia Nusya de Medeiros; ROMANI, Sylvia de Azevedo Mello; LIRA, Pedro Israel Cabral de. Indicadores antropométricos na avaliação nutricional de idosos: um estudo comparativo. Rev. Nutr., Campinas, 20(4):371-378, jul./ago., 2007.

MARUCCi, Maria de Fátima Nunes. Equilíbrio Nutricional na Terceira Idade. In: Congresso Nacional, Alimentos e Equilíbrio Nutricional: Perspectivas para o Século XXI, São Paulo, Anais. São Paulo, SBAN, 1993;35-36.

RAMOS, Luiz Roberto. Fatores determinantes do envelhecimento saudável em idosos residentes em centro urbano: Projeto Epidoso, São Paulo. Cad Saúde Pública 2003; 19:793-7

SOUSA, Valéria Maria Caselato; GUARIENTO, Maria Elena. Avaliação do idoso desnutrido. Rev Bras Clin Med, 2009;7:46-49.

SOUZA, Bruna Fernanda do Nascimento Jacinto de; MARÍN-LEÓN, Letícia. Insegurança alimentar em idosos: estudo transversal com usuários de restaurante popular. Rev. Nutr., Campinas, 26(6):679-691, nov./dez., 2013.

(*) Marcelo Henrique Alves de Santana é estudante de medicina e estagiário Bolsa Talento, Centro Universitário São Camilo SP. 

Foto destaque de Photo Monstera/pexels.


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Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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