Em uma das gavetas da escrivaninha, em meio a muitos papéis, havia um envelope branco, lacrado, contornado por listas verdes e amarelas nas bordas. A vigilância e o cuidado cruel da gaveta penalizaram o branco papel do envelope com manchas amareladas. Selos comemorativos da primeira visita do papa João Paulo II, ao Brasil, permaneciam colados à direita do envelope. Não havia o carimbo dos Correios Brasileiros. Seria provavelmente o ano de 1980. O envelope nunca saíra da “memória” da escrivaninha, jamais procurou, por isso, nunca encontrou seu destino.
A escrivaninha de cedro, do início do século passado, guarda muitas palavras, histórias e segredos. Sobre ela, porta-retratos de duas, três gerações se entreolham e interceptam o futuro. Uma aranha que brinca sobre as fotos, parece entrelaçar histórias com sua teia, abrindo portais entre o passado e o futuro. O móvel incita a saudade e traz algumas lágrimas. No pensamento vem um tempo sem data, repleto de sentimentos e vazios. As fotos, em preto e branco, já se aproximam da sépia, e as personagens das fotografias sorriem umas com as outras.
Nas gavetas, onde fica guardada a memória seletiva da escrivaninha, encontram-se coloridos tubos de linhas, botões e agulhas para cerzir camisas, calções e lençóis. Agulhas de crochê, fios soltos e mais uma meada de lã preta. Fotografias de uma primeira comunhão, aniversários e “santinhos” de falecidos. Um maço de cigarros Hollywood, com dois cigarros sem filtro. Velas de fé usadas por noites. Caixas de fósforo e um pote vazio de brilhantina. Tudo fazia uma conexão com o passado. Nada do temeroso presente conectava-se com a história temporal da escrivaninha.
Em uma das gavetas, em meio a muitos papéis, havia um envelope branco, lacrado, contornado por listas verdes e amarelas nas bordas. A vigilância e o cuidado cruel da gaveta penalizaram o branco papel do envelope com manchas amareladas. Selos comemorativos da primeira visita do papa João Paulo II, ao Brasil, permaneciam colados à direita do envelope. Não havia o carimbo dos Correios Brasileiros. Seria provavelmente o ano de 1980. O envelope nunca saíra da “memória” da escrivaninha, jamais procurou, por isso, nunca encontrou seu destino. A curiosidade se antecipava e arriscava sobre o conteúdo.
Um segredo, certamente guardado com lembranças, deveria, agora, 37 anos depois, encontrar a liberdade? Poderia ou deveria ser entregue aos Correios a responsabilidade de encontrar o endereço, a destinatária? Não. O envelope foi aberto. Havia uma carta; papel fino e amarelado, escrita à mão com caneta esferográfica. No canto superior, números identificavam as páginas 01/03.
Fortaleza, 03 de setembro de 1980
– Não é uma carta de amor para você, claro, não poderia. Nunca falamos de amor, nunca nos amamos. Jamais nos amaremos. Nunca convivemos com os sonhos, torturas, delicadezas ou a ternura de todos os sentimentos. Palavras, quando se ama, contam, dizem os amantes. Sobra e há espaço somente à paixão. Faz dois dias que nos separamos. Não nos tocamos mais. Logo, voluntariamente, não causamos transtorno aos nossos sentimentos, não percebemos o calor provocado com a aproximação dos nossos corpos, nus. Não devemos desculpas, uma reflexão talvez, sem pedir perdão por tanta liberdade dada às nossas almas, também entregues à paixão.
Não fazemos mais alterações em nossos corpos. As marcas, não são mais visíveis. Aumenta a ansiedade: marcas de mãos, bocas, sombras de desejos conscientes realizados e, frequentemente “tatuados” no meu corpo, no teu corpo. Bem certamente, todas já desapareceram. Marcas encontradas somente nos corpos presos à paixão. Livres, sempre desaparecem, nascem em outros corpos. Diferentes das invisíveis conduzidas, criadas e impostas às regras do amor. Depois, descobrimos e acariciamos os sonhos, admiramos a nudez, apertamos as mãos, ficamos sem fazer nada, por horas depois. Um longo e preguiçoso, depois.
Queria estar vivendo o ano de 1978, dois anos atrás. Ter uma vida física na existência, perspectiva e sensorial de exatos dois anos passados sem possibilidades de futuro. Assim, não teria que procurar tuas fotos, encontrar teu vazio dentro de toda a escuridão da minha mente, na claridade solar do meu corpo que arde. Talvez nunca precisasse ir aos, noturnos e amanhecidos, bares.
Por tudo que não sabemos sobre o amor, faz esta carta um relato à paixão. Relatos aos desejos, sabores e prazeres somados, juntos e explorados, vividos em curto lapso de tempo. Tempo fica longo para estar separado, longe. Maior ainda para aproximar, reencontrar, unir pernas, bocas. Separar as noites, que agora estão sempre unidas, a todos os amanheceres.
Hoje, por medo, sobrevivência, subornamos o tempo para manter o passado no presente, para não nos esquecer-nos. Ainda não esqueci. Não os teus sabores, teu corpo, tuas palavras, sussurros, formas, curvas, relevos e depressões. Das histórias contadas à luz apagada, para “virarmos” personagens sem rosto. Somente tátil. Lembro-me, sorrindo, dos desenhos imaginários que fazia, descobria, “criava” e “riscava”, no espaço por horas infinitas. Uma diversão quando parávamos, silenciava o nosso universo e esquecíamos o medo: sempre havia um a espreitar-nos. Seria a recompensa por “tocar” todos os desejos e materializados os prazeres. Agora, para sobreviver, preciso parar de procurar ir ao futuro. Não conseguimos conter o tempo.
Fujo da solidão e ausências que me perseguem. Desenho estrelas com as claraboias que nascem às primeiras horas de todos os dias. São manhãs frias. As claraboias aparecem nas paredes vazias. As paredes do quarto, pintadas de amarelo; não existe porta, janelas, não há saída. As fotografias saíram todas. Desenham-se formas, rotas desgovernadas, infinitos caminhos. Vida e sentimentos estão presos no quarto. Sinto teus perfumes, odores, todos eles. Não quero te esquecer, preciso não deixar acabar, nunca.
Não cabe a mim, a única decisão amanhã…
Havia somente duas páginas. A página três não estava no envelope. Não estava em nenhuma das duas gavetas. A escrivaninha a perdeu, esqueceu-se de guardar.