A máxima do Grupo Vida, Amor e Riso é muito séria: encher a própria taça a fim de fazer com que ela transborde em direção àqueles que dela mais precisam, os idosos fragilizados. Para isso, há um curso promovido pela entidade, em Santo André, no ABC paulista. Nele, os três substantivos que dão nome ao grupo são cotidiana e intensamente experimentados.
Guilherme Salgado Rocha / Fotos: Alessandra Anselmi
Nada se faz sem amor em favor da vida. E o riso? Claro, é bem possível defender e lutar alegremente por aquilo no qual se acredita seriamente.
Portal – Boa tarde, Gisele. A história do seu projeto é muito interessante.
Gisele – É uma alegria receber aqui o Portal do Envelhecimento. Antes de responder, quero deixar registrado que o Portal, em decorrência de seu trabalho sério e competente, é referência para nós que trabalhamos e acreditamos na área do envelhecimento e da Gerontologia. Sobre a afirmação, você tem razão em relação à nossa história. Sempre me baseei no fato de ter se transformado aquela situação de que no passado os idosos eram ajudados por alguém da família, em geral as mulheres. Por não trabalharem fora de casa, elas se responsabilizavam pelo cuidado com família, doentes e pessoas idosas. A esposa e as filhas tradicionalmente assumiam esse papel.
Portal – Mas a realidade hoje é outra, não?
Gisele – Sim, hoje têm menos filhos e estão cada vez mais inseridas no mundo corporativo. Por essa razão, várias pessoas idosas mais dependentes permanecem em casa, muitas vezes sem ninguém para ajudá-las. Em situações mais graves, acabam indo morar em uma casa para idosos. Daí a importância da presença do cuidador de pessoas, que é hoje realidade indiscutível. Não apenas idosos, mas igualmente adultos, jovens e crianças. O cuidador é imprescindível para a segurança de quem necessita de apoio nas atividades do cotidiano.
Gisele – Bem, sou terapeuta corporal e emocional há 13 anos, e me especializei em Gerontologia. Percebia, nos meus pacientes daquela época, a dificuldade enfrentada pela família quando se dispunha a conseguir um cuidador ou cuidadora. Não havia um suporte emocional, não havia atenção em relação a esse cuidador. E não raramente, percebia que esse cuidador estava mais doente do que o próprio idoso a ser assistido. A partir dessas certezas, pensei em abrir uma empresa, que é hoje o nosso Grupo Vida, Amor e Riso.
Portal – Qual é, fundamentalmente, o centro do trabalho?
Gisele – Nestes dois anos de funcionamento, já estamos na 40ª turma, ou 400 alunos. Unimos capacitação dos cuidadores, assessoria e atendimento terapêutico familiar em um centro de referência para o cuidador. Com o tempo, percebia a dificuldade de as famílias encontrarem cuidadores, e hoje atuamos em duas frentes: a formação e a colocação. São muitas as famílias que nos procuram em busca de profissionais. O curso tem 15 aulas, com estágio de 40 horas em clínicas. Hoje temos convênio com quatro clínicas: três no ABC e uma na capital.
Portal – Quem procura a formação?
Gisele – Há muitos alunos que desejam ter um certificado, pois já trabalham na área, e a certificação vai lhes abrir outras portas. Por outro lado, há um grande número que deseja mesmo se inserir no mercado, pois lê e se informa sobre o aumento da longevidade no Brasil, e que esses profissionais serão, gradativamente, mais procurados e mais bem remunerados. Daí, a nossa missão, que é proporcionar a integração do corpo, mente e emoção por meio de um trabalho transformador e participativo que respeite as diferenças individuais, valorize a autoestima e o poder pessoal, e capacite para viver de forma mais independente.
Gisele – É esse. Ou seja, a pessoa tem que encher a própria taça e, a partir desse momento, desse transbordamento, começar a encher a taça do outro, de quem está perto, com quem está trabalhando. E não é apenas na área da Gerontologia. Nos mais distintos setores da vida isso acontece. Devemos nos sentir plenos, capacitados, com talento e gabarito para chegar ao outro, àquele que está à nossa espera. Um dos pontos fundamentais da formação desenvolvida aqui é que não podemos e não devemos julgar ninguém. As relações familiares, os problemas que não são da nossa alçada, isso deve ficar em segundo plano. Nosso objetivo é trabalhar com competência e amorosidade. Um trabalho que, permeado pelo sorriso, fica muito mais leve. Gosto de ressaltar que não fazem parte da rotina do cuidador técnicas e procedimentos da área de enfermagem e áreas afins. A procura por cuidadores no mercado é hoje 70 % maior do que a demanda de profissionais capacitados ou disponíveis. Por ser ocupação muito nova, várias pessoas têm o perfil e não sabem como procurar a capacitação.
Portal – Quanto ganha um cuidador, em média?
Gisele – Hoje, por 8 horas semanais, de segunda a sexta, o salário inicial gira em torno dos R$ 1200. Mas o mercado de trabalho está crescendo. Temos pesquisas que indicam que no ABC há cerca de 250 mil idosos. O projeto toca a autoestima desse profissional, apresentando novas alternativas de trabalho, especialmente a mulheres que têm de 45 a 60 anos, e não encontram muitas alternativas no mercado de trabalho. Nessa função ela é muito respeitada.
Portal – Para encerrar, Gisele, é viável uma parceria com o OLHE, portanto?
Gisele – Mais do que viável, é essencial. Não podemos ficar sozinhos, trabalhar separadamente. Todos os que estão nessa missão, e chamo mesmo de missão, têm que perder o medo de enfrentar o grande desafio que está à nossa frente. O Brasil está envelhecendo. Deve envelhecer, portanto, com talento e dignidade.
Ela mora na Zona Leste da capital e fala muito bem o português: “Além de ajudar meu irmão, preciso trabalhar. Vi na tevê uma reportagem sobre essa profissão, me interessei, fiquei muito curiosa, pois é uma área de atuação com a qual me identifico”.
E se apaixonou pelo curso: “É verdade. Estou gostando muito, mas muito mesmo. Quero trabalhar como cuidadora”.
Informações: Acesse Aqui, telefones: (11) 4901-4010 e (11) 4173-1191.