Um presente fugaz que escapa das mãos e inquieta o historiador no difícil confronto de suas hipóteses de trabalho com a realidade da documentação. Para Jean-Pierre Rioux, a dúvida sobre a história do presente nos leva a uma questão filosófica: “o presente tem sua chance diante de uma longa duração que parece ser a verdadeira modulação e a respiração vital do devir humano?”
O historiador francês Jean-Pierre Rioux inicia seu texto “Pode-se fazer uma história do tempo presente?” contando como a questão, “a priori desconcertante”, se estabeleceu. As reflexões sobre o tema tiveram como ponto de partida a França do final da década de 70 com a criação do Institu d’ Histoire du Temps Présent cuja missão, basicamente, girava em torno das pesquisas sobre a pergunta: “pode o presente ser objeto de história?”
Um presente fugaz que escapa das mãos e inquieta o historiador no difícil confronto de suas hipóteses de trabalho com a realidade da documentação. Para Rioux, a dúvida sobre a história do presente nos leva a uma questão filosófica: “o presente tem sua chance diante de uma longa duração que parece ser a verdadeira modulação e a respiração vital do devir humano?” Continuando: “Como traduzir em termos de duração (em objeto de investigação histórica) um presente, por definição, efêmero?”
Mergulhado nesse cenário atual, na confusão dos acontecimentos sem nenhum tipo de hierarquia, encontra-se o historiador absorvido pela avalanche de notícias produzidas na mídia, fatos e acontecimentos lançados sem nenhuma explicação coerente ou lógica.
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Assim, a cilada é constituída: entre o tumulto de informações desconexas e a “simplificação abusiva” do efêmero, existiria alguma chance para a “inteligibilidade”?
Diante da questão, o historiador, impulsionado pelos anseios da sociedade, não se deixa abater “diante do obstáculo da proximidade”. Pelo contrário ele encontra meios de ultrapassá-la, para maior compreensão dos acontecimentos: “(…) é de um vivo desejo de identidade que nasce essa ambição de uma história atenta ao presente, cuja originalidade será escrita sob o olhar dos atores e cuja vocação desabrochará no balanço das temerosas especificidades do século XX”.
Depois de duas guerras, duas crises mundiais, uma tecnologia desenfreada e um progresso galopante, como pensar a relação existencial entre sociedade e história? Assim, a preocupação do historiador com a coleta de documentos é redobrada, num cenário de generalização impulsionada pela mídia, tudo acontecendo numa luta frenética contra a massificação do efêmero “que mantém uma temerária amnésia nas nossas sociedades”.
Rioux ainda argumenta que refletir historicamente sobre o presente é fundamental no sentido de ajudar as gerações que crescem a “combater a atemporalidade contemporânea”, avaliar as informações (originais, sonoras e imagens) produzidas pela mídia, aprender a relativizar o “hino à novidade e se desfazer do imediatismo vivido que aprisiona a consciência histórica”: a história do presente nasceu de uma impaciência social, pelo menos na França.
Resumindo, talvez uma forma de se distinguir o verdadeiro do falso seja através de uma história do presente feita por testemunhas vivas e fontes inconstantes, já que sofre a todo tempo a pressão dos meios de comunicação bem suportados tanto pelas representações quanto pelas ações.
Mas… e o que seria a história do presente? É o inacabado que reverbera e faz surgir um passado, um presente lentamente “aliviado de seu autismo”, a inteligibilidade perseguida fora de caminhos já trilhados.
Diante do esquecimento, do “delírio ideológico” (há quem diga que as câmaras de gás nunca existiram), a história “não evita ver em ação a verdade psicológica da intenção, a humilde verdade do plausível, a força da questão da memória sobre o curso do tempo”.
Em tempo tão tristes, como esses que vivemos – ameaçados por um gestor irresponsável e genocida (esse, nem preciso nomear), arrasados por uma consciência de finitude indesejada, impedidos de carícias e abraços, saudosos até daquilo que nem sabemos – seguimos tentando construir a nossa própria história do presente, essa que, hoje, hospeda o inimigo invisível que nos priva do toque, da aproximação e que, constantemente, ameaça-nos a morrer solitariamente.
Alguns diriam: “mas ao nascer, já mergulhamos na mais completa solidão”. A eles, eu respondo: não, nesse momento não estamos sós, nesse momento único somos acalentados pelos braços generosos da eterna mãe que aquece e conforta. Esse primeiro olhar indica o caminho da esperança, a trilha segura do que nos espera na vida a ser vivida.
A história do tempo presente é um pouco isso, como afirma Rioux: “um vibrato do inacabado que anima repentinamente todo um passado […]”.
Referências
Rioux, J.P. (1999). Pode-se fazer uma história do presente? Em A. Chauveau, A. & P. Tétart (Orgs.). Questões para a história do presente. (I.S. Cohen, Trad.). Bauru, SP: EDUSC.