Maria Cecília de Souza Minayo tem um currículo capaz de responder questões muito mais complexas do que as minhas. Ela é Socióloga com Mestrado em Antropologia Social e Doutorado em Saúde Pública. A convite do SESC SP ela deu uma aula sobre o envelhecer de qualidade tal que só é possível para quem vem construindo essa noção há muito, muito tempo.
Maria Antonia Demasi *
Minayo. Nas primeiras vezes que ouvi esse nome, considerei que estivessem falando de um homem. E não um homem qualquer, e sim aquele que resolveria todos meus urgentes problemas acadêmicos-metodológicos. E sim, encontrei respostas e saídas para várias dúvidas, porém o mais surpreendente, foi a descoberta de que Minayo era uma mulher.
Maria Cecília de Souza Minayo tem um currículo capaz de responder questões muito mais complexas do que as minhas. Ela é Socióloga com Mestrado em Antropologia Social e Doutorado em Saúde Pública, pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz, pesquisadora de carreira do CNPq e emérita da Faperj. Já orientou 68 teses, publicou 181 artigos científicos, sete livros individualmente e 34 como organizadora. A lista segue e é longa…
Por isso, quando deparei-me com um convite para uma Palestra no Sesc com a participação da até então apenas citada Minayo, senti-me um pouco como aquela fã ávida por um encontro ao vivo com seu ídolo.
O evento foi promovido pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP e fazia parte das atividades relativas ao número 60 da Revista 60 – Estudos Sobre o Envelhecimento. O artigo de capa, “Múltiplas faces da violência contra a pessoa idosa”, é de autoria da Profa. Cecília. Sim, porque agora, depois de ouvi-la por duas horas, não faz mais sentido chamá-la Minayo.
Mineira de Itabira, foi a única filha a deixar a família e migrar para o Rio de Janeiro. Com sotaques misturados, tem a mineirice dos trejeitos preservada e a levada carioca nas brincadeiras e observações.
A equipe anfitriã contou que trazê-la para essa terra de garoa gelada, foi um desafio do tamanho do desejo de sua presença: enorme.
Acomodada em um confortável sofá, tinha como parceiro dessa conversa o fotógrafo Gal Oppido que fez a interpretação visual do delicado tema por ela tratado.
Essa afirmação foi feita após apresentar dados como esses:
– O Brasil tem 23 milhões de idosos.
– 6,7 milhões vivem sozinhos.
– Mais idosos nas cidades: 16,5 milhões contra 3,4 milhões na área rural.
– O número de mulheres idosas é superior no país e em áreas urbanas.
– Idosos mantendo famílias ou sendo corresponsáveis: em 53% das casas.
– A aposentadoria rural e o BCP são benefícios que tiraram os idosos da miséria total.
A Profa. Maria Cecília dá uma leve desencostada do sofá e como que empolgada com a notícia que iria dar, afirma que no interior do Brasil a grande alegria é o dia do pagamento dos idosos.
Gesticulando mais fortemente, segue contando que 40% dos idosos moram sozinhos e somando-se a esse dado, o fato de estarmos experimentando um aumento de famílias intergeracionais, podemos sofrer as consequências desses novos contornos sociais. Aqui, o tema da violência contra os idosos, ganha corpo.
E foi na perspectiva de corpos violentados que ela trouxe o filósofo francês Michel Foucault:
– “Em última instância, a violência atinge o corpo, este corpo que vai perdendo o viço, a forma da juventude, a agilidade dos mais novos e que é rejeitado socialmente”.
E completando o raciocínio, cita o cientista social americano, Erwing Goffman:
– “A violência mortifica o “eu”, um eu cheio de experiências e mensagens que condensa o passado e que, para quem o violenta, não faz mais sentido: é inútil e descartável”.
Nesse ponto, os participantes não se contiveram, perguntas e relatos de experiências que confirmavam na prática todos dados e teorias trazidos por (aqui sim) Minayo, começaram a pipocar. Quando o assunto é assim tão próximo de todos nós, duas horas passam voando.
* Maria Antonia Demasi é jornalista e mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, da PUC-SP.