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Caleidoscópio URSI

Segue relato de vivência de estágio do 7º período do Curso de Psicologia da PUC-SP em uma Unidade de Referência à Saúde Idoso (URSI), em São Paulo.

João Pedro Teixeira, Julia Celadon Guilharducci, Laila Kochen, Stefany Victoria Lima Alves. Professora-supervisora: Profª Drª Ruth G. da C. Lopes (*)


A Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI) é uma unidade especializada para atender ao idoso na sua área de abrangência. Assim, ela oferece atenção especializada à pessoa idosa, serviço organizado pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), forma de acesso preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, a porta de entrada é pela atenção básica. O objetivo é garantir a promoção e atenção integral à saúde do idoso, além de recuperar a saúde do idoso fragilizado, pensando em um cuidado não ambulatorial.

A seguir relatamos a vivência de estágio do 7º período do Curso de Psicologia da PUC-SP em uma Unidade de Referência à Saúde Idoso (URSI), em São Paulo. Os estagiários se dividiram no acompanhamento ou implementação de atividades em grupo. Dentre as atividades apresentadas, duas se deram por meio virtual.

Envelhecimento Criativo

O grupo foi criado há 6 anos por uma equipe multidisciplinar no formato presencial. Objetiva promover a saúde durante a velhice a partir de atividades que estimulem reflexões criativas. Os frequentadores são indicados pelos profissionais de Saúde, do Centro Escola e da URSI. Durante a pandemia, o grupo continuou virtualmente.

Durante o estágio foram promovidas sessões de cine debates através do compartilhamento de curtas-metragens, utilizando-os como temas geradores de trocas sobre envelhecer e saúde mental. As sessões mostraram que esses espaços eram essenciais para a manutenção da saúde mental dos idosos, pois lá eles construíram uma rede de vivências e podiam aprender sobre novos assuntos a partir dos seus pares. O Bolo (1995), A melhor idade (2011) e o O jogo do Geri (1997) foram selecionados. Debates potentes eliciaram sentimentos sobre suas vivências. Por exemplo, como a criatividade é necessária para lidar com as adversidades nessa fase da vida. Já outros idosos fizeram debates comparando as suas velhices com as velhices retratadas dos filmes.

O estágio propiciou-nos compreender o funcionamento do SUS e como a própria URSI desenvolve políticas de saúde em busca de um aumento da qualidade de vida durante a velhice, principalmente a partir de grupos em promoção de saúde.

Atuar dentro do grupo online de Envelhecimento Criativo foi muito interessante. Tivemos o apoio de profissionais da equipe multidisciplinar e pudemos intervir, trazendo propostas como o cine debate. Neste, as temáticas abordadas foram: processo de envelhecimento, finitude, criatividade, dentre outros.

A equipe apontou ausência de encaminhamento de usuários, demanda institucional para justificar a existência do grupo. Foi relatado que poucos profissionais os encaminhavam e isso decorria de reestruturações no fluxo entre o Centro de Estudo Paula Souza e a URSI, por conta do processo de sucateamento do SUS; fazendo com que faltasse profissionais que pudessem encaminhar os idosos para o grupo.

Os profissionais relataram que essas questões pioraram durante a pandemia, pois o grupo online não conseguiu abarcar todos os usuários que frequentavam antes no formato presencial. Outra questão que apareceu é relativa à exaustão dos profissionais, devido à sobrecarga e diversificação de demandas no serviço, retratando o cenário de desmonte do SUS.

Neste estágio desenvolvemos habilidades visando exercer a psicologia dentro do SUS, junto a uma equipe multidisciplinar.    

Saberes e Sabores

O grupo Saberes e Sabores acontece às quintas-feiras, das 10h00 às 11h00 e conta com a coordenação multidisciplinar; uma terapeuta ocupacional, uma enfermeira e uma psicóloga acompanham um grupo de idosas, que se reúnem pela plataforma Google Meet.

Durante nove semanas participamos dos encontros. Nesse tempo, foi marcante a importância para as usuárias daquele grupo online – modalidade tão desmerecida pelo senso comum, inclusive por nós, num primeiro momento. Nas ocasiões de atraso das profissionais, uma mensagem de “Bom dia, a reunião já começou?” sempre se fazia presente no grupo de WhatsApp. Com isso, o compromisso não era apenas relembrado, mas reeditado e reforçado.

É um grupo que funciona, essencialmente, a partir do ato de conversar. Uma fala elicia um comentário e, de colocação em colocação, é tecida uma rede de sentidos e significados que sustenta o grupo e garante sua permanência entre o rol de atividades propostas pela URSI, mesmo que no formato virtual. Seja a temática da mudança de cidades, das dores de uma cuidadora familiar ou, ainda, das possibilidades que se apresentam frente ao envelhecimento, o engajamento coletivo nas discussões torna-se o grande protagonista das reuniões.

Foto: alok-sharma/Pexels

Não há palavras exatas para descrever a função que o ato de conversar uma vez na semana exerce na vida das usuárias; percebemos que comparecer – virtualmente – todas as quintas-feiras de manhã no Saberes e Sabores significava algo a mais do que apenas a possibilidade de “jogar conversa fora”. Conectar o celular na chamada do Google Meet carrega em si o compromisso de se fazer presente e de se fazer ouvinte, na expectativa – ou, na certeza – de que, naquele espaço, todas hão de ter voz e vez.

Frequentar as reuniões nos permitiu entender que o ato de falar sobre os dias que separam um encontro do outro abre portas para o que ainda pode ser, nas semanas seguintes. Assim, falar sobre o doce e o amargo do que já passou, neste grupo, funciona, para aquelas que dele participam, como um exercício de constante invenção e reinvenção daquilo que ainda podem vir a ser.

O papel dos envolvidos nos encontros era, majoritariamente, o de ouvinte. Nesse sentido, o que recebemos do grupo Saberes e Sabores foi um verdadeiro presente. O conhecimento que adquirimos com esta experiência é uma bagagem que carregaremos no desenrolar de nossas trajetórias profissionais e pessoais.

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Grupo GAM

O grupo GAM, em modelo presencial na URSI, está em processo de formação, e foi deste processo que participamos. Abreviação de “Gestão Autônoma da Medicação”, o objetivo de um grupo GAM é discutir aberta e honestamente o uso de medicamentos pelos participantes, possibilitando que pensem ativamente sobre os efeitos desejados e indesejados, a maneira como têm sido usados, além da quantidade e a necessidade desses medicamentos.

Os integrantes, ao refletirem sobre o próprio uso e o dos colegas em um espaço aberto, têm a possibilidade de romper com a verticalidade dos tratamentos, promovendo maior autonomia em relação à própria saúde. Envolver os usuários, especialmente em relação às interações químicas que podem ocorrer entre os diferentes medicamentos, é uma conquista.

Foto: Pexels

Dentre os diversos usuários da URSI, existe uma concentração de pessoas que poderiam se beneficiar das trocas de informações que um grupo GAM pode trazer. Nos encontramos, então, em um processo de tentar dar início a um grupo que ainda não possui nenhum participante. E como fazer isso? Esse foi o grande desafio.

Acompanhados também de profissionais da enfermagem e psiquiatria, que já eram os responsáveis pela organização e criação do grupo, há algum tempo, nos pusemos a pensar. Primeiro, como selecionar uma amostra de pessoas para quem o grupo GAM poderia trazer benefícios – e, principalmente, fazer sentido em sua jornada de saúde?

De início, como uma triagem, identificamos usuários que faziam uso simultâneo de um determinado número de medicações, chegando assim numa amostra com quem seria possível estabelecer algum tipo de conexão. E então… mãos à obra: lemos prontuários e discutimos um a um os casos, sempre com a seguinte máxima em mente: “O grupo seria de interesse para esse usuário?”

A resposta às vezes foi Sim, e às vezes foi Não. Os desafios eram vários: às vezes o prontuário indicava dificuldade de locomoção, o que impossibilitava a ida até a URSI para compor o grupo presencialmente, outras vezes indicava alguma enfermidade aguda, ou até, simplesmente, já haviam recebido alta e não frequentavam mais a instituição.

Acabamos com cerca de dez números telefônicos para convidar. As ligações-convites foram feitas por nós, estagiárias. E foram uma ótima experiência! Notamos um padrão interessante durante as ligações: uma vez que nos atendiam, as pessoas pareciam fechadas e receosas, afinal, nunca se sabe quem está ligando. Mas, a partir do momento em que nos identificávamos como parte da URSI, era notável a mudança na disposição, tornando-se muito mais amigáveis.

– Alô? Ah, é da URSI? Boa tarde!

Agora o desafio é este: fazer convites, conversar com as pessoas e tentar, finalmente, formar um novo grupo para esta instituição. Infelizmente, nós iremos parar por aqui, sem saber o final da história. Deu certo? Como ocorreram as trocas? Isso só saberemos no futuro. Boa sorte para as próximas estagiárias!

Referências
Documento norteador: Unidade de Referência à Saúde do Idoso do Município de São Paulo, 2016. / Secretaria Municipal da Saúde. Coordenação da Atenção Básica, Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa. – São Paulo: SMS, 2016. 127p.

Profª Drª Ruth G. C. Lopes – Professora-supervisora do curso de Psicologia da PUC-SP. E-mail: ruthgclopes@gmail.com. Alunos: João Pedro Teixeira  (joaopedro5933@hotmail.com),
Julia Celadon Guilharducci (celadon.julia@gmail.com), Laila Kochen (lailakochen@gmail.com), Stefany Victoria Lima Alves (stefany.victoria1321@gmail.com)

Foto destaque de Startup Stock Photos/Pexels


https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/tomiko-e-suzana-homenageadas-pelo-espaco-longeviver/

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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