Saiba o que é Ikigai, Moai e muito mais, com Makoto Suzuki, investigador da longevidade.
Tenho a honra de compartilhar o resultado de mais uma de minhas gratificantes experiências que tenho tido em relação à longevidade humana, a oportunidade de vivenciar ao longo do meu trabalho a promoção de uma vida longa e saudável em todo o mundo.
No âmbito de minha Expedição Centenarian, explorar regiões onde as pessoas são longevas e ativas tem me permitido aprender e divulgar informações que nos estimulam a adotar as boas práticas de seus habitantes, a fim de envelhecermos saudavelmente e cheios de alegria.
Muito aprendi, e divulguei a respeito, desde quando estive na Sardenha em 2021, na Itália, e pude aprender com o Professor Gianni Pes, co-fundador das Blue Zones, o qual revelou-me importantes fatos durante a entrevista que concedeu-me. Igualmente, muitas lições obtive de professores e habitantes da ilha de Ikaria, a Blue Zone da Grécia. No mês de fevereiro de 2024, chegou a vez de conhecer os segredos da longevidade em Okinawa, a Blue Zone do Japão.
Naquela paradisíaca ilha tive a felicidade de conhecer habitantes acolhedores e generosos que me mostraram a ilha de norte a sul e suas paisagens e vilarejos belíssimos (aguarde um artigo especial sobre minhas amigas e amigos okinawanos).
Um dos destaques de minha exploração em Okinawa foi a entrevista com o Dr. Makoto Suzuki, médico cardiologista e geriatra pioneiro na investigação do envelhecimento e fundador do ORCLS – Okinawa Research Center for Longevity Science, em Okinawa, entrevista gentilmente organizada pela empresária Christal Burnette, uma especialista em saúde alimentar e diretora do ORCLS, sobre a qual já escrevi a respeito.
Saiba como foi a minha entrevista com o Dr. Suzuki.
Boas-vindas generosas
Numa manhã ensolarada da cidade de Urasoe, Okinawa, fui acolhida na residência do Dr. Makoto Suzuki, um ícone global na pesquisa da longevidade. Desde o momento em que entrei, a hospitalidade japonesa se fez presente, simbolizada por uma xícara de chá de boas-vindas, gesto que denota respeito e acolhimento.
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Expressando minha gratidão pela gentileza de receber-me, compartilhei com o Dr. Suzuki sobre minhas raízes em Mogi das Cruzes, São Paulo, uma cidade que tem um significativo legado de imigrantes japoneses. Mogi das Cruzes teve a honra de receber a família real japonesa em duas ocasiões memoráveis.
Nos anos de 1958 e 1978, as celebrações do 50º e 70º aniversários da imigração japonesa para o Brasil, respectivamente, foram marcadas pela nobre visita do Príncipe Takahito e da Princesa Yuriko, e, em 1978, do Príncipe Akihito e da Princesa Michiko, mais tarde coroados imperadores do Japão. O Brasil possui a maior comunidade de japoneses e descendentes fora do Japão e, à época da visita do Imperador Akihito, Mogi das Cruzes ostentava a maior concentração desta comunidade, sendo um símbolo vivo da presença e contribuição dos japoneses e seus descendentes para a cultura e sociedade brasileira.
Em reconhecimento à oportunidade da entrevista e em respeito à cultura japonesa, presenteei o Dr. Suzuki com uma fotografia da cerimônia que recebeu a família imperial em Mogi das Cruzes. Meu anfitrião aceitou-a alegremente agradecido e assim começamos a entrevista.
Palavras do Dr. Suzuki
Ikigai ao longo da vida
Um dos aspectos fundamentais de nossa conversa foi a questão do ikigai ao longo da vida. Questionei se o ikigai das pessoas longevas de Okinawa é renovado com o passar dos anos, mesmo após alcançarem as marcantes idades de 90 ou 100 anos.
Dr. Suzuki enfatizou que o ikigai não se limita a encontrar um propósito inicial, mas sim a cultivá-lo continuamente, independentemente da idade. Compartilhou sua perspectiva sobre o conceito de ikigai e como as mudanças na sociedade moderna afetaram as tradições familiares. Ele mencionou a importância de preservar o ikigai ao longo da vida e como isso pode contribuir para uma existência mais resistente e próspera.
Mencionou o livro “Ikigai – Viva bem até aos cem”, de autores espanhois, no sentido de que ikigai é muito mais do que é dito no livro. Eu sugeri que poderia ser um livro sobre ikigai para iniciantes, sem aprofundar o assunto. Ele concordou.
Perguntou-me se havia correspondente da palavra ikigai em português, e respondi que não havia e que, no Brasil, usamos a palavra em japonês.
Muito sorridente e orgulhosamente, Doutor Makoto Suzuki apresentou-me seu livro The Okinawa Program, em inglês e em japonês.
Moai e Ikigai compartilhado
Abordamos o conceito de Moai, uma prática comum entre os habitantes de Okinawa, onde grupos de pessoas se reúnem regularmente para apoiar uns aos outros financeira e socialmente.
Conversando com novos amigos que fiz em Ogimi e Nago, integrantes de um Moai, aprendi que o Moai é realizado entre amigos, pessoas em quem confiam, com o objetivo de coordenarem uma poupança para emergências, e para sempre estarem juntos, inclusive em momentos divertidos. Perguntei ao Dr. Suzuki se havia entendido corretamente o significado de Moai e se, na opinião dele, participar de um Moai contribui para o ikigai das pessoas.
Dr. Suzuki explicou que participar de um Moai pode, de fato, contribuir para o ikigaidas pessoas, fornecendo-lhes um senso de comunidade, segurança e propósito compartilhado. Ele discutiu o significado do Moai e da cerimônia Kajimaya, destacando como essas práticas promovem a coesão social e o senso de propósito. Ele expressou a esperança de que esses conceitos possam ser ampliados para escolas, sociedades e países, contribuindo para um mundo mais pacífico e harmonioso.
Apesar dos desafios enfrentados pela população de Okinawa, Dr. Suzuki acredita que ainda há esperança de reverter esse quadro. Enfatizou a importância de preservar o ikigai ao longo da vida e promover um estilo de vida tranquilo e meditativo, tanto individualmente quanto em comunidade. A cerimônia tradicional de Kajimaya mencionada por ele, celebra os 97 anos de vida de uma pessoa. A cerimônia exemplifica essa busca pelo sentido de propósito e pela harmonia com o ambiente e a comunidade. Há uma grande festa e um desfile deslumbrante. É um ikigai forte não só para as pessoas idosas, mas também para os jovens.
Respeito pelos mais velhos e idadismo
Conversamos também sobre a importância do respeito pelos mais velhos, uma tradição profundamente enraizada na cultura japonesa, especialmente em lugares como Okinawa.
A cultura de respeito pelos mais velhos não está presente em muitas nações, inclusive no ambiente de trabalho. Perguntei ao Dr. Suzuki como podemos educar as pessoas nesses lugares para adotar a cultura japonesa de reverência e respeito pelos mais velhos e funcionários mais antigos em suas equipes de trabalho. E ainda se há idadismo em Okinawa.
Dr. Suzukime respondeu expressando preocupação com a falta dessa cultura em muitos ambientes de trabalho ao redor do mundo e enfatizou a necessidade de educar as pessoas sobre a reverência e o respeito pelos mais velhos, tanto dentro como fora do local de trabalho. Lamentavelmente, respondeu que há idadismo em Okinawa.
Blue Zones Business – longevidade à venda?
Ao perguntar sobre a efetividade do projeto Blue Zones Businessdisponível no mercado, Dr. Suzuki enfatizou que a longevidade não pode ser simplesmente comprada; é um resultado da cultura, atividade física, vida social, ikigai e espiritualidade cultivados ao longo do tempo. Ele desmistificou o conceito de longevidade, explicando que vai além de viver mais, envolvendo também a saúde física, mental e emocional, além da felicidade. Esses elementos, quando integrados à vida diária, promovem não apenas a longevidade, mas também uma vida plena e feliz.
Empatia e conexões intergeracionais são essenciais
Uma das ideias fundamentais discutidas durante nossa entrevista foi a importância da nutrição e como os alimentos são preparados. Dr. Suzuki destacou que não se trata apenas do que comemos, mas também de como preparamos nossas refeições, enfatizando a relação entre alimentação saudável e longevidade.
Dr. Suzuki também destacou a empatia e as conexões intergeracionais como elementos essenciais para uma vida longa e saudável.
Abordamos questões delicadas, como a presença militar dos EUA em Okinawa e a longevidade antes da guerra, destacando a complexidade desses tópicos e a necessidade de mais pesquisa e compreensão.
No encerramento da entrevista, falamos novamente sobre o significado do Moai e da cerimônia Kajimaya, demonstrando como essas práticas fortalecem os laços sociais e o senso de propósito na comunidade. O Dr. Suzuki expressou sua esperança de que esses conceitos possam inspirar um mundo mais pacífico e harmonioso, à medida que são difundidos e praticados em escolas, sociedades e países ao redor do globo.
A entrevista com o Dr. Makoto Suzuki, realizada em Okinawa, permitiu ampliar conhecimentos sobre a vida e hábitos culturais do povo Okinawano que os faz viver longamente. Doutor Suzuki revelou fatos e ideias cruciais sobre seus estudos pioneiros em longevidade.
Foi tocante testemunhar a força de seu Ikigai ao ver a sua paixão à pesquisa e seu profundo entendimento das práticas de saúde e estilo de vida em Okinawa. Aos 90 anos, Dr. Makoto Suzuki permanece e permanecerá a nos oferecer uma visão inestimável sobre os segredos da longevidade naquela Blue Zone.
Agradeço sinceramente ao Dr. Suzuki pela generosidade de compartilhar seu tempo e conhecimento, que me proporcionou uma experiência enriquecedora e esclarecedora. As suas descobertas, certamente, continuarão a inspirar e informar aqueles que buscam uma vida longa e saudável e feliz.
Doutor Makoto Suzuki no Brasil
Makoto Suzuki MD PhD, 90 anos, é cardiologista e geriatra. É Professor Emérito e antigo Diretor do Departamento de Medicina Comunitária da Universidade de Ryukyus. Reformou-se do seu cargo de professor no Department of Human Welfare at Okinawa International University e, atualmente, dirige o Okinawa Research Center for Longevity Science, sendo o investigador principal do Okinawa Centenarian Study.
O Dr. Suzuki iniciou o Okinawa Centenarian Study em 1976, um estudo pioneiro que já ultrapassa 47 anos e é reconhecido como o estudo sobre centenários mais longo e contínuo do mundo.
Logo no início de nossa conversa, Dr. Suzuki compartilhou suas experiências ao visitar o Brasil há 13 anos, a convite da Bradesco Seguros para participar do Fórum da Longevidade, onde teve a oportunidade de conhecer o Dr. Emilio Moriguchi, médico geriatra brasileiro, diretor do Instituto Moriguchi em Veranópolis – RS, citando-o respeitosamente e transmitindo ao colega as suas saudações. Saudações que já transmiti ao Dr. Moriguchi, o qual ficou encantado ao receber as mensagens do amigo. Por meio deste gesto, a ponte entre os especialistas em longevidade de Okinawa e do Brasil foram fortalecidas.
Durante sua estadia no Brasil, contou que visitou lugares como Campo Grande- MS e Porto Alegre, estabelecendo conexões significativas com colegas e apoiadores de sua missão. Importante ressaltar que morei seis anos em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, região com a maior concentração de Okinawanos no exterior.
Agradeço sinceramente ao Dr. Suzuki pela generosidade de compartilhar seu tempo e conhecimento, que me proporcionou uma experiência enriquecedora e esclarecedora.
Fotos: arquivo pessoal